Carlos Vicente, diretor-geral da Vitacress, espera que o plano do Governo para a água seja implementado no território o mais rápido possível.
Carlos Vicente é, desde 2020, diretor-geral da Vitacress, conhecida pelas saladas prontas a comer e ervas aromáticas, que comercializa no Reino Unido, Espanha, Países Baixos, Bélgica, Alemanha e Portugal, países onde já emprega mais de 1.300 trabalhadores.
A gestão da água tem sido uma prioridade da empresa, que em quatro anos reduziu o consumo para quase metade, com a ajuda da tecnologia. Carlos Vicente considera que essa tem de ser também uma prioridade do país. “Estamos com muita expectativa que o plano Água que Une venha a ser implementado rapidamente. Ou seja, que não estejamos aqui a falar de um segundo aeroporto de Lisboa que demora décadas”, afirma ao À Prova do Futuro, um podcast do ECO com o apoio do MEO Empresas.
O diretor-geral da Vitacress considera também que a água em Portugal é “mesmo muito barata”, o que não incentiva ao investimento na redução do desperdício.
Líder em Portugal nas saladas prontas a comer, a empresa está “ativamente à procura de mais áreas para expandir” o cultivo e pretende também alargar a área de produção em Odemira.
A Vitagress conseguiu reduzir a quantidade de água utilizada em 48% no espaço de 4 anos. O que foi feito para reduzir o consumo de água para praticamente metade e que papel teve a tecnologia nesse corte?
Começou, em primeiro lugar, com a consciencialização do valor da água. Eu acho que esse é um ponto muito importante. Nós, na altura, consumíamos muita água, ali na região de Odemira, e a água tinha um valor bastante baixo. Salvo erro, pagava-se 4 cêntimos por metro cúbico de água. Face a essa situação, o rigor e a atenção a esse consumo era relativamente baixa. Isto era transversal a outros operadores na região. Com a escassez de água, especialmente na nossa região…
O preço subiu.
Para lhe dar uma ideia, no escalão máximo, vai até 91 cêntimos o metro cúbico.
Um aumento muito considerável.
É 20 vezes. Há vários escalões. No nosso caso, estará na média dos 40 a 42 cêntimos por metro cúbico. Tentamos manter-nos nos escalões médios, mas mesmo com 42 cêntimos de metro cúbico, é um custo substancial da nossa operação, que naturalmente nos leva a olhar onde é que nós podemos economizar a água e como é que nós podemos tornar a nossa produção mais eficiente nesse sentido.
O que foi feito então para conseguir este corte de 48%?
Começa primeiro com a reutilização da água, por exemplo, nas nossas quintas em Almancil, onde nós cultivamos o agrião de água, que por definição requer muita água, é quase uma planta hidropónica. Depois também na gestão da nossa operação na região do Odemira, onde cultivamos as folhas baby, ou seja, espinafre, rúcula, alfaces e outras folhas, pak choi, folha de ervilha, etc. Aí investimos na maior capacitação de reserva de água. Tendo mais reservatórios de água, conseguimos gerir a água de uma forma mais eficiente, consoante a sua abundância ou a sua falta.
E usam também sensores para fazer a gestão da regra?
Sim, instalando sensores que nos indicam o nível de humidade do solo e a necessidade de regar essa planta, assim como também a gestão da rega em si. A rega, para ter uma ideia, não se aplica apenas para proporcionar água à planta ou à semente, mas também para protegê-la. Em dias de temperaturas muito elevadas, temos que regar as culturas para elas não se queimarem, literalmente, ao sol. Em momentos de tempestades, com ventos fortes, temos também que regar as culturas para manter em baixo as areias do solo, porque essas areias, com o vento, danificam as folhas.

Isso é monitorizado de forma mais ou menos automática?
Não é automático, ainda é muito com base em gestão humana, mas temos muito mais sensores que nos ajudam. E temos também muito mais dados, que é outro ponto importante. Passámos a ter uma leitura muito mais minuciosa da rega que nós aplicamos em certas áreas das nossas quintas, assim como também das necessidades em certas áreas, porque nós trabalhamos com muitos microclimas. Se uma parcela da quinta está mais perto de um arbusto, ou mais perto do mar, tem outra necessidade de rega do que uma parcela que está no lado oposto. Foi um trabalho que foi feito minuciosamente com a nossa equipa de agrónomos e conseguimos chegar a esse ponto realmente de reduzir em mais de 45%, também com investimentos importantes, de mais de 150 mil euros.
Por último, e esta é uma novidade que colocámos em andamento este ano, que é a filtração da água da lavagem das folhas. Nós colhemos as folhas, elas são lavadas e embaladas na nossa fábrica, que está inserida ali no campo das nossas operações, e nessa lavagem também consumimos água. Essa água está a ser toda reutilizada, filtrada e devolvida outra vez para a rega das outras plantas.
Isso significa que é possível levar ainda mais longe esta redução?
Acreditamos que sim. Acreditamos que no ano que vem teremos dados ainda mais interessantes.
Reduzir a utilização de água em mais de metade?
Sim, devemos chegar aí. Acredito que temas como a inteligência artificial, no futuro, nos levem a outros patamares. A rega é um trabalho de precisão, especialmente no nosso caso, que cultivamos ao ar livre, as nossas folhas estão expostas à atmosfera, aos calores, às chuvas, aos orvalhos de manhã, etc. Todas essas constelações minuciosas do dia-a-dia, todos os dias, têm que ser levadas em consideração. Levando-as em consideração, conseguimos otimizar ainda mais a rega e é nisso que a inteligência artificial nos deve ajudar.
Estamos com muita expectativa que o plano Água que Une venha a ser implementado rapidamente. Ou seja, que não estejamos aqui a falar de um segundo aeroporto de Lisboa que demora décadas.
Este tema do acesso à água preocupa a Vitacress. Devia preocupar mais o país?
Em Portugal temos sofrido, nos últimos quatro anos, invernos muito chuvosos, com excesso de água, com enchentes, e verões muito secos, temperaturas elevadíssimas e de seca severa. Nós não temos falta de água, temos excesso de água. O problema é que há excesso no inverno e normalmente há um excesso nas regiões mais do norte, centro-norte do país, enquanto o centro-sul está em seca.
É preciso implementar o tal plano para levar a água do Norte para o Sul?
Exatamente. Estamos com muita expectativa que o plano Água que Une venha a ser implementado rapidamente. Ou seja, que não estejamos aqui a falar de um segundo aeroporto de Lisboa que demora décadas. Precisamos deste plano implementado no nosso território o mais rápido possível.
Vai ser transformador para a agricultura portuguesa?
Vai ser transformador não só para a agricultura, mas para todo o país. Não é só a agricultura que precisa de água. São todos os setores. A agricultura, a indústria, e também o consumo doméstico e o turismo. É um fator importante para a autonomia alimentar em Portugal e também para a nossa economia em geral.
Portugal deve reforçar a sua autonomia alimentar?
Completamente. Temos, em Portugal, condições climáticas únicas. Temos água, embora não bem distribuída, temos mão-de-obra, temos tecnologia. Temos todas as condições para termos uma agricultura fortíssima e, de facto, nós não somos autossuficientes na agricultura. Eu vejo a questão da distribuição da água como um bem comum: assim como temos energia em qualquer ponto do país, como temos redes de telecomunicação em qualquer ponto do país, nós também precisamos de ter água em qualquer ponto do país.
Há uma medida muito simples [contra o desperdício], é o preço. Sendo francos, a água em Portugal é mesmo muito barata.
Outra questão tem a ver com o desperdício. Segundo dados da ERSAR, relativos a 2024, 27% de toda a água que entra nas redes de abastecimento acaba por ser desperdiçada. É preciso uma intervenção urgente nesta área.
Há uma medida muito simples, é o preço. Sendo francos, a água em Portugal é mesmo muito barata.
Tem que ser mais cara para incentivar o investimento na redução do desperdício?
Acho que ela tem que ter o seu preço justo. Vai num primeiro instante torná-la mais cara, o que vai promover investimentos para pouparmos no consumo da água, que foi o nosso caso, e reduzir o desperdício. Isso levará a uma maior disponibilidade da água, que eventualmente levará a uma estabilização do preço a um preço justo, que seja também acessível para todos, sejam consumidores domésticos, seja a nível industrial ou agrícola.

A otimização dos processos de produção, com vista à eficiência, é uma preocupação da Vitacress. Como é que a tecnologia ajuda a criar esta maior eficiência?
No caso da Vitacress começa com as sementes. As sementes que nós consumimos são mais resistentes a certas pragas, míldio, etc. Também são sementes mais resistentes a períodos de seca. Aí já há muita tecnologia.
A parte de dados é muito importante. Conhecer exatamente os comportamentos de certas sementes consoante as condições climáticas do dia, da semana, com a respetiva regra, etc., e com isso poder projetar o momento certo para a colheita dessa folha. É muito importante para aumentar a eficiência e a produtividade da nossa operação. Temos muitos sistemas que nos apoiam nessa análise, mas, obviamente, nunca é suficiente. Tenho uma grande fé que a inteligência artificial nos leve para um novo patamar.
Depois temos as máquinas especializadas. Em qualquer cultura, quando semeamos crescem tanto as folhas baby que nós queremos, como também muitos infestantes. Segregar umas das outras requer muita mão-de-obra e fica um trabalho caro. Felizmente temos o apoio de máquinas que sabem fazer essa separação entre as folhas boas, e as infestantes que nós não queremos.
Também já existem sistemas robóticos, e até de laser que literalmente queimam os infestantes. Sabem identificar as boas folhas e as más e as más são queimadas no ato da passagem.
Só arrancam as infestantes.
Temos máquinas com câmaras que guiam os nossos tratores e as nossas máquinas nas fileiras certas, para assegurar que depois fazendo a monda automática não arrancam as folhas baby. Também já existem sistemas robóticos, e até de laser que literalmente queimam os infestantes. Sabem identificar as boas folhas e as más e as más são queimadas no ato da passagem. Na parte dos produtos biológicos, trabalhamos com uma máquina que nós chamamos o steamer. É uma máquina que injeta vapor no solo, até uma profundidade de cerca de 14, 15 centímetros, e também elimina os infestantes nessa ‘cama’, permitindo depois semear e dar um avanço às nossas sementes.
E na parte mais fabril?
Na parte da fábrica, trabalhamos também com máquinas que selecionam as folhas, depois da lavagem. Através da leitura ótica, diferencia as folhas boas das folhas não tão boas, a um ritmo de praticamente 1.000 kg por hora. É uma grande ajuda na nossa eficiência, porque isto antigamente era feito à mão.
Por falar em pessoas, é hoje mais difícil encontrar recursos humanos para as atividades da Vitacress?
Não é difícil encontrar pessoas para trabalhos simples. Temos alguns desafios em encontrar pessoas com certas formações especializadas, seja na parte da agronomia, seja na área técnica para a nossa operação na fábrica, seja também na parte também de gestão para a nossa sede. Na parte de trabalhos mais simples, temos uma vantagem que é operarmos continuamente durante todo o ano e 97% dos nossos colaboradores têm um contrato permanente. Dá-nos uma certa vantagem para quem quer residir nas nossas redondezas, sejam portugueses, sejam imigrantes. Temos 28% que são pessoas estrangeiras.
Isso é a nível da empresa como um todo?
Estou a falar da empresa agora aqui em Portugal. Na região de Odemira somos o segundo maior empregador, depois da Câmara Municipal.
Temos muita necessidade de mão de obra, para trabalhos simples, pagos ao nível de salário mínimo ou pouco acima, e nós não temos portugueses suficientes disponíveis ou com vontade de fazer esses trabalhos. Nós necessitamos, de facto, de imigrantes.
A alterações que o Governo propôs e os deputados depois aprovaram na Assembleia da República podem dificultar a contratação de mão-de-obra imigrante?
Temos que ter em mente que Portugal não pode existir sem imigrantes. Temos muita necessidade de mão de obra, para trabalhos simples, pagos ao nível de salário mínimo ou pouco acima, e nós não temos portugueses suficientes disponíveis ou com vontade de fazer esses trabalhos. Nós necessitamos, de facto, de imigrantes. Acho que nós devemos promover a entrada de imigrantes que querem vir para ficar, que se querem integrar na nossa cultura, que querem trazer as famílias, os filhos. É esse tipo de imigração que traz uma atitude aberta, uma atitude de investimento em formação e em desenvolvimento pessoal.
Esta legislação dificulta um bocadinho isso, por exemplo com as restrições ao reagrupamento familiar…
Temos que ser seletivos quanto a essas situações, e não devemos fechar as portas.

Quais os planos para o futuro da Vitacress? Estão previstos novos investimentos?
Lançámos em Portugal as saladas lavadas e embaladas há 22 anos. Hoje este mercado já supera em termos de valor o das alfaces de primeira gama, ou seja, aquelas cabeças de alface que compramos nos supermercados.
No fundo, criou-se um segmento de mercado que não existia.
Sim, foi criado um segmento de mercado que não existia. Hoje em dia, como marca de produtor, somos de longe a marca líder. Naturalmente, as marcas da distribuição assumiram aqui uma fatia muito importante deste segmento. Este ano fizemos uma série de lançamentos nas saladas funcionais.
Vão investir no aumento da área de cultivo, entrar a novos países?
Nós queremos expandir e estamos ativamente à procura de mais áreas para expandir os nossos cultivos.
Sempre na região de Odemira?
Nós gostávamos também de outras regiões, justamente para não termos todos os ovos no mesmo cesto. Como grupo europeu, temos quintas em Espanha, na Inglaterra, mas gostávamos também de diferenciar aqui em Portugal e, quem sabe, também noutros países.
Mas novos países em que a Vitacress está já a pensar em entrar?
São ideias um pouco jovens demais para estar aqui a divulgar. O nosso foco, no momento, são os países onde nós estamos, mas a Europa é grande e acreditamos que a nossa maneira de trabalhar e os nossos produtos têm relevância também noutros países e estamos com uma mente muito aberta.
Aqui em Portugal, além dessa vontade de expandir as nossas áreas de cultivo, também a expansão da nossa produção na nossa sede em Odemira, que eventualmente vai levar também à expansão física. Estamos já algo apertados na nossa fábrica. Estamos também, neste momento, a investir numa central fotovoltaica na nossa fábrica, que permitirá uma redução do CO2.
E esses investimentos somam quanto?
Nós todos os anos investimos vários milhões de euros, seja nas quintas, na fábrica, investimento em máquinas, em novas instalações, renovações, sistemas de melhoria de eficiência, tecnologia, comunicação, inovação. Nós temos uma equipa de quatro pessoas dedicada à inovação, ao desenvolvimento de novos produtos. Temos também uma equipa na área de agronomia dedicada ao desenvolvimento de novas práticas, novas tecnologias, em conjunto também com várias entidades aqui em Portugal, como a Universidade Católica e o IBET. Também trabalhamos com a Universidade de Wageningen, na Holanda.
Não queria divulgar aqui o número específico, mas posso dizer que são alguns milhões de euros de investimento todos os anos. Isto numa faturação de 43 milhões em Portugal, o que indica a nossa aposta na inovação e desenvolvimento tecnológico.
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Água que Une? “Que não seja um segundo aeroporto de Lisboa que demora décadas”
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