EDP é uma “empresa de renováveis”. Sines “fecha quando deixar de pagar os custos”

António Mexia afasta uma nova investida sobre a EDP Renováveis que obrigue a elétrica a gastar cash. E também não quer perder dinheiro com Sines. Central a carvão continua enquanto pagar custos.

António Mexia apresentou o plano estratégico para 2022 há menos de um ano, mas está a conseguir cumpri-lo a um ritmo bem mais acelerado do que o previsto. Não admite revê-lo, mas reconhece que isso traz “tranquilidade” à gestão de uma empresa que hoje em dia é já percecionada no mercado como uma companhia de energias renováveis. O CEO da EDP regozija-se dessa perceção. E a EDP Renováveis? Faz sentido existir em bolsa? “Fizemos uma operação, comprámos parte. Não comprámos tanto quanto gostaríamos”, admite, mas afasta uma nova investida que obrigue a elétrica a gastar dinheiro. “Não é prioridade”.

A EDP é uma empresa de renováveis, mas continua a produzir energia com carvão. Fechar Sines só quando “deixar de ser cash positive”, diz Mexia.

Nesta entrevistam falou-se de quase tudo — só ficou de fora o caso judicial das rendas excessivas, sobre o qual António Mexia escusou-se a fazer quaisquer comentários por estar a aguardar decisão do Ministério Público e para o qual não quer fazer comentários públicos. Da EDP, dos acionistas, dos projetos futuros e de como vê um novo mandato. Mas também da transição energética e até de Greta Thunberg.

O que falta fazer no plano estratégico?

Ainda só passaram nove meses. Ao fim destes nove meses, já nasceu alguma coisa de muito saudável, com a entrega [de resultados] nos principais pilares do plano. Isto é apenas o princípio de um trajeto até 2022. O nosso objetivo é liderar a transição energética com aquilo que é o que eu considero três pilares fundamentais para uma companhia da nossa escala. Serem três é melhor do que serem 30? A leitura do negócio fica mais clara.

Quais são esses três pilares?

Tem de haver foco, e o nosso é claro: as renováveis. Mas também foco nas redes e, por isso, as redes de distribuição para nós são muito importantes — o investimento que temos em Portugal, Espanha e no Brasil são aspetos fundamentais para nós. Segundo [pilar] é a diversificação de risco. Como não sabemos o que vai acontecer nos diferentes sítios, é bom diversificar risco macroeconómico, risco regulatório, risco tecnológico. Por último, opcionalidade. Como estamos no meio de uma grande revolução tecnológica, tenho de ir criando opções de futuros modelos de negócio, como é o caso do offshore, onde estou a ganhar escala numa coisa que vai ser decisiva, e o grid beyond, onde estou a ganhar negócio num negócio em que eu também estou a aprender… São dois exemplos completamente diferentes, mas em que eu estou a falar de renováveis e de flexibilidade. A isto chama-se criação de opcionalidade e de escala. O que falta ao plano estratégico? É fazer isto tudo, fora o que já está feito.

"Rever objetivos ao fim de nove meses não faz sentido. O que isto [de ter já 77% do plano concluído] dá é uma enorme tranquilidade.”

António Mexia

Presidente executivo da EDP

As contas da EDP faz apontam para que 77% do plano esteja já concluído. Fica concluído em 2020?

Não. Aliás, não está em causa ao fim de nove meses concluir o plano para 2022. A palavra neste momento é “visibilidade sobre a entrega [de resultados]” e visibilidade sobre a capacidade de os entregar. Rever objetivos ao fim de nove meses não faz sentido. O que isto [de ter já 77% do plano concluído] dá é uma enorme tranquilidade.

O plano estratégico está bem arrumado. Mas para o mercado haver uma EDP, uma EDP Renováveis, agora uma parceria… faz sentido?

O facto de a EDP ter subido 35% em bolsa desde a oferta [da CTG] quer dizer que alguma coisa: o mercado está a apreciar e a ver fluir. A existência de um plano estratégico revelado em março, que foi aprovado por todos os acionistas, é um bom sinal. Demonstra uma enorme estabilidade e tranquilidade. Era muito mais difícil não tendo entregue, mas estando a entregar a uma velocidade maior, é natural que se reconheçam num plano que elas todos votaram. Todos!

António Mexia, CEO da EDP, em entrevista ao ECO - 22JAN20

Mas não é confuso?

Não há nenhuma confusão. O que me está a dizer é se faz sentido ter mais do que uma empresa cotada… Há uma coisa que me parece claro hoje, tendo em conta os research recentes: a EDP é top pick nas renováveis.

Exato… E a EDP Renováveis?

A história é clara… As pessoas assumiram que a EDP é um veículo de renováveis.

Mas a própria EDP já assumiu que queria ter a EDP Renováveis…

Nós fizemos uma operação, comprámos parte. Não comprámos tanto quanto gostaríamos.

Mas ofereceram 6,75 euros. As ações estão, agora, a mais de 11 euros em bolsa.

Faça as contas a todas as companhias… ninguém estava a estes valores. É a vida! Os 6,75 euros tinham um prémio…

… prémio que era pequeno.

Nós temos um enorme respeito pelos acionistas e a sua vontade. Já dissemos que não iríamos dar sinais claros de que utilizaríamos cash [dinheiro] para retirar a EDP Renováveis de bolsa. Não é essa a minha prioridade. A minha prioridade é entregar.

Com as ações a tocarem máximos, não faz oferta em cash. E uma troca de ações?

A única coisa que dissemos foi que não vamos gastar liquidez.

O desejo de ter tudo sob uma só empresa existe?

Não é uma prioridade.

Mas o mercado diz isso. Que a EDP é uma empresa de renováveis…

Justamente. Até por isso posso viver neste mundo sem que isso [retirar a EDP Renováveis de bolsa] seja uma prioridade. Mas, se se fizesse de uma forma que não fosse preciso gastar cash

Como faria isso? Troca de ações?

Veremos o que é que é possível.

Ainda durante o seu mandato poderíamos ter uma EDP única?

Repare, a EDP, hoje, já é única… [risos]

Eu vejo duas.

Não. Já é única justamente porque tem este mix de skills, de ativos, é a segunda empresa na Europa com o EBITDA mais “verde”, a seguir à Orsted. A EDP já tem as características que já a tornam única. [Ficar com todo o capital da EDP Renováveis] não é uma prioridade.

[Mercado diz que a EDP é uma empresa de renováveis] Até por isso posso viver neste mundo sem que isso [retirar a EDP Renováveis de bolsa] seja uma prioridade. Mas, se se fizesse de uma forma que não fosse preciso gastar cash…

António Mexia

Presidente executivo da EDP

Vamos a outra EDP, a EDP Brasil. É para manter como está?

A EDP do Brasil, gostava de deixar muito claro que é uma empresa que cria valor, tem entregue de forma extraordinária os seus objetivos, do ponto de vista de antecipação da transmissão — a primeira linha com 20 meses de antecedência, a segunda com 18 meses de antecedência. Temos as duas melhores empresas do Brasil. Nas três primeiras, há duas nossas na distribuição. Alguma coisa devemos estar a fazer bem. A EDP do Brasil lançou-se claramente em tudo aquilo que tem a ver com trading de energia para clientes. Em soluções de mobilidade tem a maior rede de superchargers de toda a América Latina com o Grupo VW, nos rooftops, temos a gestão da energia de grupos como o Unibanco, o Santander… Temos, naquela empresa, naquilo que ela faz, uma capacidade distintiva.

Logo é para manter como está?

Depois temos a EDP Renováveis no Brasil… É ela que faz as energias renováveis, não a EDP do Brasil. É público que queremos atingir 1,5 GW no Brasil.

E onde a CTG também tem projetos próprios….

Isso só mostra que a parceria [com a CTG] não tem impedido ninguém de fazer aquilo que tem de fazer. Agora, o Brasil tem também de ter um peso que hoje é de 10% nos lucros por ação. E para uma empresa europeia, nós estamos com níveis de exposição praticamente ao nível de outras companhias. Estamos naquilo que é um equilíbrio razoável que o mercado entende em relação ao Brasil. Portanto, no Brasil não temos nenhuma pressão. Não sentimos nada que nos leve a alterar os nosso objetivos. Estamos tranquilos. É mais do que uma EDP? Não. Aquilo é a EDP.

EDP é uma empresa de renováveis. Mas ainda tem carvão. Reconheceu uma perda de 300 milhões nas contas do ano passado. Este ano pode fazer o mesmo?

A EDP que tem grande facilidade em falar sobre o carvão. Porquê? Porque do ponto de vista da descarbonização estamos na linha da frente. O carvão teve em 2019 metade do peso que tinha em 2018 e já só contribuiu para 2% do nosso EBITDA [nos nove meses de 2019]. Tivemos uma abordagem muito clara sobre porquê que estamos a fazer isto [reconhecer um impacto negativo nas contas], sendo também muito claro que na central a carvão que poder fazer parte da economia circular, que é o que acontece em Espanha ajudando uma siderurgia — em vez de deitar o gás para o ar, está a ser queimado, faz parte da economia circular. O resto… a palavra “transição energética” tem de ser absorvida. É preciso reduzir as emissões. Nisso somos os primeiros. Já há 15 anos andamos a falar sobre isso. Mas é transição…

Não pode ser uma rutura…

Tudo o que forem decisões extemporâneas, se não forem preparadas, têm custos. Acho que Portugal está bem preparado para a transição energética. As decisões que estão relacionadas com carvão, iremos respeitá-las. Sendo certo uma coisa: iremos operar as centrais [a carvão] enquanto elas forem cash positive. Enquanto libertarem o suficiente para pagar os custos de funcionamento. Se não… Isto resulta não tanto de decisões políticas, mais de mercado. A indústria está a ter hoje aquilo que pediu: que viesse o preço do CO2 para se fazer a transição energética. Aí está, agora, o preço do CO2.

No ano passado, o preço disparou.

Ora aí está. Perfeito. O carvão está a sair [da produção de energia] não só por decisões políticas, mais porque o mercado está a dizer que “tu vais perder dinheiro”. Por isso, se aquilo vale menos…

A EDP vai perder mais dinheiro?

Se considerássemos que as margens não estavam lá, até já tínhamos pedido para que Sines não operasse. Ainda não o fizemos. Consideramos que Sines ainda faz parte desta transição energética.

Essa decisão de deixar de operar está tomada?

Está tomada que tem de encerrar em 2023.

Mas vocês podem antecipar se não libertar cash?

Claro. Se não libertar cash, nós anteciparemos o encerramento.

Mas essa decisão de antecipar o encerramento ainda não está tomada. Ainda liberta cash

Não, mas é uma coisa que é monitorizada de forma permanente.

Então o Estado terá de pagar [para a manter em funcionamento até 2023]?

O setor da energia não pode ser o único negócio do mundo onde as pessoas são obrigadas a operar a perder dinheiro.

Mas a política de energia que existe hoje em Portugal está a obrigar a isso?

Não, não, não…

Mas os resultados da EDP em Portugal não são propriamente brilhantes.

Os resultados – ainda não temos o fecho de 2019, mas isso foi dito no trimestre – foram negativos por impactos de medidas extraordinárias com as quais, muitas delas, nós obviamente não concordamos.

Claro. Mas, isto é, foram decisões que obrigaram o operador a operar perdendo dinheiro.

Mas não no sentido marginal. Tem de se separar aquilo que é o marginal do médio. Quando nós estamos aqui a falar da central de Sines, estamos a falar em termos marginais. Ou seja, de decisões. Quando dizem “Ah, nos últimos anos…”. A questão de eu operar amanhã não é uma decisão que tenha a ver com o ontem. Tem a ver com o dia de amanhã. O nosso problema não é com o futuro. É com coisas muito recentes em que houve decisões com as quais não concordamos porque não respeitavam os contratos.

Futuro é a transição energética.

Temos um compromisso claríssimo com o investimento na distribuição e nas redes inteligentes. Temos total disponibilidade para todos os projetos de inovação. De inovação, nomeadamente, ligados à questão do hidrogénio, ligados à mobilidade elétrica… que iremos também estar envolvidos no leilão que tem a ver com os postos elétricos. O nosso compromisso com a transição energética em Portugal é inequívoco. Porquê? Porque estamos essencialmente a falar do futuro.

Vão ao novo leilão solar?

Nós já demos o nosso compromisso do envolvimento no leilão solar. Iremos estar presentes no novo leilão.

Neste segundo leilão, a EDP não ficará de “mãos a abanar”?

Nós gostamos de concorrência. Gostamos que toda a gente possa jogar o mesmo jogo. A única coisa que pedimos é que a EDP não seja descriminada em relação a outras empresas. É só isso. Não gosto de descriminação positiva, a não ser, eventualmente, nas quotas e outras coisas.

Mas neste segundo leilão, quer conquistar?

Depende. Eu no outro também entrei na sala para conquistar…

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