“Estão criadas as condições para a bolha nas tecnológicas, o momento de pânico”

As avaliações de empresas como a Nvidia estão 'esticadas', mas daqui a 20 anos até podemos vir a dizer que estavam justas tendo em conta o potencial, diz o CEO da ActivTrades Europe.

Do ponto vista da análise técnica de mercados, as ações de empresas tecnológicas estão sobrevalorizadas, criando condições para que “toda a gente queira sair para realizar as suas mais-valias”, no que seria um reviver do dotcom bust de 2000, afirma Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe. No entanto, é inegável que vamos assistir ao aumento da procura por infraestrutura de inteligência artificial, nomeadamente de chips, portanto uma avaliação como a da Nvidia – a negociar a 40 vezes os resultados do próximo ano – “pode até nem ser tão descabida“.

Ainda sobre os Estados Unidos, Evangelista diz que a “telenovela desnecessária” criada por Donald Trump com a pressão à Reserva Federal “é má para os ativos americanos, sobretudo porque faz com que percam ou comecem a perder alguma credibilidade, algo que já se reflete em quedas do dólar americano, face a outras moedas principais”.

Numa conversa centrada em riscos, o português – que lidera o hub europeu da corretora online fundada em 2001 e que trouxe a sede para Lisboa em 2023 – afasta o cenário de contágio na dívida soberana europeia vindo da crise política em França. “Devemos olhar para a situação de forma realista e equilibrada, é verdade que isso do contágio poderá vir a ser um problema, mas neste momento não é, de forma alguma”.

Alerta, no entanto, que “se a situação política se deteriorar, poderá levar a um menor apetite pela participação na Europa, o que seria uma muito má notícia para Portugal e para os outros países do projeto europeu”.

Vamos começar com uma pergunta desafiante. Quais foram os temas, na tua opinião, que marcaram os primeiros dois terços de um ano conturbado?

Há bastantes, há bastantes [risos]. Diria que 2025 está a ser um ano muito interessante. Tivemos o início do mandato do presidente Trump, a nova administração americana que entrou a 100 à hora. Tivemos também a questão das tarifas e toda a incerteza que provocou e que tem continuado a provocar. Temos como pano de fundo bastante turbulência geopolítica, que de certa forma podemos dizer que foi potenciada pelo lado algo errático da administração americana na gestão dos temas internacionais. Tivemos também o conflito entre Israel e o Irão, que foi um conflito que acabou por resultar em pouco, mas que a certa altura se temeu que pudesse ter um impacto muito sério. Tivemos o que muitos chamam a capitulação da União Europeia a Donald Trump, ao aceitar um acordo comercial em que vai ter as suas exportações para os Estados Unidos sobrecarregadas com uma tarifa de 15%, sem obter nada em troca, e ainda ofereceu uma série de promessas.

Vamos por fases. Vivemos num mundo, primeiro, de ameaças e depois de efetivação de tarifas alfandegárias. Em que ponto é que estamos agora? Os mercados já têm mais informação, há acordos com a maioria dos parceiros dos EUA, e os principais índices acionistas continuam a bater recordes. O que é que os investidores vão continuar a analisar agora? Mais negociações? O impacto nas diferentes economias?

Embora alguns cenários já estejam mais claros, como, por exemplo, o cenário de qual vai ser a relação comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia, há outros que não estão tão claros ainda. Houve agora mais um adiamento de mais de dois meses em grande parte das tarifas que os Estados Unidos terão imposto à China. Este adiamento supostamente é para permitir que continuem as negociações. O mesmo com o México, que é um dos grandes parceiros comerciais dos Estados Unidos. Mas algo que eu tenho assistido com alguma preocupação é que esta narrativa das tarifas começa a se estender e a tornar-se um bocado…está a ser adotada um pouco universalmente. Vemos que o México, por exemplo, ainda agora ameaçou a China com tarifas também, e a China é o segundo parceiro comercial do México, a seguir aos Estados Unidos. Portanto este modus operandi, digamos assim, que foi lançado pela administração americana, deu frutos, como é óbvio, sobretudo a forma como a Europa aceitou condições que são bem piores do que aquelas que tinha à partida, sem obter nada, e também houve um acordo comercial entre os Estados Unidos e o Reino Unido, com o Japão. Houve ali alguns acordos comerciais, mas penso que existe muita turbulência a este nível. Ou seja, já tem havido algum contágio e já não são só os Estados Unidos a utilizarem as tarifas e a ameaça de tarifas para obter alguma alavancagem na política internacional, na geopolítica. Continua aqui um cenário em que existe pouca visibilidade quanto ao futuro. Ainda não sabemos muito bem qual vai ser o desfecho.

Alguns setores que são importantíssimos para a União Europeia também continuam sem resolução…

Temos a questão com o Brasil também, a Índia com a imposição de tarifas de 50%. Portanto, eu penso que estamos no olho do furacão. Estamos a viver um período de acalmia em que, visto de fora, parece que as coisas acalmaram de certa forma e que este é o novo normal, mas o potencial para haver novos focos de inflamação dentro deste tópico é muito e possivelmente iremos assistir a eles agora neste último trimestre.

Ricardo Evangelista, diretor da ActivTrades, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Esta fragmentação, por um lado, e por outro lado também alguma tentativa de conter essa fragmentação, como o iminente acordo do Mercosul, dificulta um bocadinho o vosso trabalho de análise?

Sim, nós vamos agindo conforme as circunstâncias. É verdade que as circunstâncias hoje em dia e os parâmetros que nós temos para nos guiar são diferentes daqueles que tínhamos, por exemplo, há cinco anos, ou há seis anos, ou há 10 anos. Aquela ordem internacional que se estabeleceu depois do fim da Guerra Fria, o que o Fukuyama chamava o fim da história, isso acabou, ele estava enganado. Não foi o fim da história, foi só um pequeno intervalo. Penso que isto faz parte, porque de certa forma sempre houve cenários novos que foram emergindo. Não nos podemos esquecer, por exemplo, de situações como quando os Estados Unidos estavam prestes a atacar a Síria em retaliação pela utilização de armas químicas e depois, na última hora, decidiram não o fazer. Lembro que isso provocou ali um grande choque nos mercados. Quando o banco central suíço acabou com a paridade com o euro, foi um grande choque para o mercado de forex, portanto de certa forma, estamos habituados a viver…

A esperar o inesperado?

A esperar o inesperado, exatamente. Agora, é verdade que hoje em dia as coisas estão um bocado mais turvas, digamos assim, do que era costume.

A Reserva Federal é o garante da racionalidade e com a sua independência garantia essa racionalidade independente da política. E o facto de isto estar a acontecer é mau para os ativos americanos, sobretudo porque faz com que os ativos americanos percam ou comecem a perder alguma credibilidade.

Ricardo Evangelista

CEO da ActivTrades Europe

Continuando nos Estados Unidos, há drama na Reserva Federal, uma instituição importante, não só para os Estados Unidos, mas para a política monetária global, a independência é um dos temas do momento. Achas que está em risco com toda a pressão que Donald Trump está a fazer e tem vindo a fazer no momento em que falamos?

Eu acho que sim. O que Donald Trump está a fazer é muito pouco ortodoxo, porque existe uma independência do banco central que tem sido uma garantia de tomadas de decisões racionais que não dependam tanto do curto prazo político. E isso é muito importante para os investidores e depois para a economia subjacente também. O que Donald Trump está a fazer agora, ou começou a fazer há algum tempo, primeiro atacando Jerome Powell, chamando-lhe incompetente e outras coisas… depois agora com Lisa Cook também despedindo-a, mas não se sabe muito bem se pode despedir ou não. Portanto, isto tudo é uma telenovela que é muito desnecessária. A Federal Reserve é o garante da racionalidade e com a sua independência garantia, então, essa racionalidade independente da política. E o facto de isto estar a acontecer é mau para os ativos americanos, sobretudo porque faz com que os ativos americanos percam ou comecem a perder alguma credibilidade. E isso reflete-se, por exemplo, em quedas do dólar americano, face a outras moedas principais. Vê-se também em algum crescimento de interesse, por exemplo, e de fluxos que passam de ativos americanos para ativos europeus, por exemplo. Portanto, não são boas notícias para detentores de ativos americanos. São más notícias. E penso que para a economia americana, em geral, não é bom que isto esteja a acontecer. Porque se começamos a gerir a política monetária em função dos interesses de curto prazo de um determinado ator político, acho que esse não é o melhor princípio.

Isto tudo acontece numa altura de suspense sobre as taxas de juros. A Reserva Federal ainda não mexeu nas Federal Fund Rates este ano, em cinco reuniões do FOMC manteve no mesmo intervalo, 4,25% a 4,50%, apesar da enorme pressão de Trump. Powell diz que tem que equilibrar todos os dados, mas em Jackson Hole abriu um bocadinho uma porta, sinalizou que pode haver um ajuste da policy stance. Qual é a vossa visão? Acreditam num corte em setembro? E depois disso?

Eu acho que o corte em setembro de 0,25 pontos já está precificado pelo mercado e penso que poucos duvidam que ele vai acontecer. E vai acontecer. Depois disso, penso que vai depender um pouco também dos dados que forem saindo, sobretudo dos dados do emprego e dos dados da inflação. A Fed tem o duplo mandato de garantir a estabilidade no mercado laboral e também de garantir a estabilidade nos preços, mantendo a inflação o mais próxima possível dos 2% ou abaixo dos 2%. Penso que a Fed aqui tem agora um novo elemento nesta equação para gerir, que é a influência, vamos chamar a influência, para não dizer a interferência, da administração americana, do executivo de Donald Trump.

Esse fator é mais difícil de prever qual vai ser o seu impacto. Já é interno, já há membros que foram nomeados por Trump.

Exato. É mais difícil de prever. Quanto a futuros cortes nos juros, eu penso que eles são possíveis, mas tudo vai depender da leitura que for sendo feita destes indicadores importantes, que é o o mercado laboral e a inflação.

Na inflação, o próprio Powell diz que ainda não é tempo de conseguirmos identificar o impacto das tarifas na inflação, se é um one-off e atinge a inflação de uma vez ou se vai ser contínuo. E, do outro lado algumas dúvidas inéditas sobre o mercado de trabalho. O último jobs report reviu em baixo os dados da criação de emprego nos Estados Unidos, pondo dúvidas sobre a saúde da economia americana. É um equilíbrio difícil que Powell tem que jogar neste mundo.

Sim, é um equilíbrio complicado. Não se sabe ainda muito bem qual vai ser o impacto das tarifas nos preços, se vai ser um impacto mais de longo prazo ou se vai ser one-off. Não se sabe muito bem se o principal impacto das tarifas vai ser um efeito inflacionário ou se, por outro lado, vai ser um efeito de suprimir o consumo e, portanto, não vai ser inflacionário. Há muitas coisas que ainda não estão claras. Agora, o que está claro é que as tarifas não são um fator positivo para o estímulo da atividade económica. A curto prazo, pelo menos, mas também se elas se mantiverem no médio e longo prazo. Não são um fator positivo para o crescimento económico. Powell terá aqui que gerir um bocado, navegar à vista, e gerir também o lado político, que também vai ser complicado.

Deste lado do Atlântico, o BCE agora parece estar numa situação bastante mais confortável. Tem inflação a um nível que interessa. Já fez vários cortes seguidos nas taxas de juros. Agora, vamos ter uma pausa em setembro, provavelmente, e depois?

Estávamos a falar há pouco das tarifas, e também ainda está por ver qual vai ser o impacto agora que estas tarifas vão ter na economia dos vários Estados-membros. O BCE vai ter que reagir em conformidade. Se houver um abrandamento significativo do crescimento económico, então será natural esperar mais um corte em outubro, possivelmente outro na reunião de 18 de dezembro e depois para o ano, vamos ver. Mas se tivermos mais dois cortes este ano, de 25 pontos base, ficaremos no 1,5%, Também já não haverá muito espaço. Mas eu penso que o BCE está numa posição mais confortável do que a Fed. Tem a inflação muito mais controlada. A inflação na zona euro está próxima dos 2%. O principal problema do BCE é o crescimento económico. Portanto, com esse viés, será de esperar que o BCE seja rápido a reagir a sinais negativos que eventualmente possam emergir e poderá ter então essa oportunidade para cortar juros nas reuniões de outubro e de dezembro.

Lagarde e outros membros do Conselho, estão sempre a urgir os decisores políticos a darem impulsos orçamentais para acompanhar a gestão monetária. Temos tido alguns, os mercados têm gostado, mas será que vão mesmo ter impacto na economia e continuar a agradar os investidores? Estamos a falar do pacote alemão para a indústria das infraestruturas, do pacote europeu para a defesa.

Os investidores olham para esses pacotes de estímulo com algum otimismo. Temos visto que na Europa, desde que foram lançadas essas ideias, alguns setores beneficiaram, em particular o setor de defesa, empresas como a Rheinmetall, a Thales, mesmo no Reino Unido, a BAE, ou seja, empresas ligadas ao setor da defesa tiveram ganhos importantes. Agora este pacote só por si vai ser suficiente para mitigar os problemas que surgem noutras frentes? Não sabemos, porque, por exemplo, a grande locomotiva do crescimento na Europa, que nas últimas décadas tem sido a Alemanha, está já em recessão há vários trimestres. As suas principais indústrias, as suas indústrias tradicionais, como o automóvel, estão ameaçadas pela forte concorrência europeia sobretudo da China, pela transição para modelos mais sustentáveis e penso que na Alemanha essa transição foi feita talvez um pouco tarde ou foi iniciada um pouco tarde já e a Alemanha está então a sofrer por causa disso. Agora, se pode converter, por exemplo, a indústria automóvel alemã de fabricar carros para depois fabricar tanques e se isso é fácil e se vai ter o efeito desejado, ainda está por ver. Diria que persiste a incógnita.

Voltando aos Estados Unidos, nas ações, apesar da turbulência em abril, um mini-choque por causa da ameaça das tarifas, os principais índices já recuperaram, estão a bater recordes e estão com ganhos desde janeiro de dois dígitos, alguns deles. Como é que se explica isso? Qual é que é o entusiasmo no meio de um ano tão conturbado?

As ações nos Estados Unidos têm suporte a partir de várias frentes. Por um lado, a entrada da administração Trump, que trouxe a promessa, e em muitos casos já cumprida, de desregular um pouco. Portanto, isso é visto como positivo, tem contribuído. Por outro, temos aqui esta… como é que eu hei de dizer, a ‘moda’ da inteligência artificial, ou seja, que é o setor que está na moda agora, e as empresas tecnológicas têm sido a grande locomotiva desse crescimento. Sobretudo empresas como a Nvidia, que está na base desta suposta revolução. Portanto, eu penso que têm sido um pouco esses dois fatores. Por um lado, o menor peso regulatório, ou a promessa de menor peso regulatório, por outro o papel que as empresas tecnológicas têm tido, que tem sido a locomotiva. Porque eu penso que se não houvesse o setor da tecnologia, se calhar não estávamos a falar neste cenário.

Isso mostrou-se há uns dias com quatro sessões de sell-off nos Estados Unidos por uma combinação de ideias sobre a inteligência artificial, mais especificamente com o Sam Altman a sugerir que poderia haver uma bolha de AI, o MIT com um estudo a mostrar que os retornos não são tão espetaculares como toda a gente está a prever, e depois a atenção aos resultados da Nvidia.

Os resultados acabaram por ser mais ou menos os esperados, até um bocadinho acima, mas continua algum nervosismo, especialmente em relação à China, que tem, obviamente, influência geopolítica.

Acha que vai haver momentos de arrefecimento nisto? Já chegamos a um ponto máximo de avaliações?

É assim, se fizermos uma análise, por exemplo, do ponto de vista técnico, olhando para a Nvidia, a Nvidia está com uma capitalização de 4 biliões — em inglês trillion —, ou seja, é a primeira empresa a atingir este volume de capitalização em bolsa. Mas este volume representa 40 vezes o que se espera que a empresa ganhe no próximo ano.

Uma métrica esticada…

Sim, ou seja, estamos a falar de 40 vezes os resultados do próximo ano. Enquanto que a média no Nasdaq, que por si já é um pouco especulativo, que tem empresas tecnológicas, ou seja, empresas que são empresas de crescimento, a média é 23 vezes.

Já é alta, 23 vezes.

É bastante alta. Portanto, se olharmos desde o ponto de vista técnico, de facto, há aqui uma sobrevalorização e estão criadas as condições para a chamada bolha. Para que chegue o momento de pânico e toda a gente queira sair para realizar as suas mais-valias, quando todos querem sair ao mesmo tempo, não há compradores, o preço cai a pique e é assim que rebentam as bolhas e foi isso que aconteceu em 2000, com a bolha dotcom. Isso é desde o ponto de vista técnico. Agora, é inegável que, pelo menos nos próximos anos, vamos continuar a assistir a um aumento da procura, pelo menos a nível da infraestrutura, ou seja, dos chips. E penso que isso é muito benéfico para a Nvidia. Portanto, pode não ser assim tão descabido este valor, esta capitalização em bolsa. Se calhar, se formos analisar daqui a 20 anos e olharmos, vamos dizer, ok, estava justo.

Ricardo Evangelista, diretor da ActivTrades, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

A Europa também tem os índices acionistas no verde. O Euro Stoxx 50, por exemplo, o créme de la créme das ações europeias também está positivo. São essas empresas de defesa que estão a conduzir? O que é que está por trás, o apetite pelo risco na Europa?

Sim, eu penso que a Europa também beneficiou um pouco de alguma perda de apelo dos ativos americanos. Porque se formos comparar os ativos americanos com os ativos europeus, utilizando essa mesma métrica técnica, vemos que muitos dos ativos americanos em bolsa estão sobrevalorizados e na Europa é o contrário que acontece. Considerando o pano de fundo geopolítico e a turbulência que temos nos Estados Unidos, houve fluxos de investimento que migraram dos Estados Unidos para a Europa. Isso foi muito benéfico para as ações europeias. Temos isso por um lado. E depois temos também a promessa de maior investimento na defesa. Digo promessa barra necessidade, porque penso que se a Europa não investir em defesa, então daqui a cinco anos poderá ter uma situação ainda mais complicada do que a que tem agora. Mas é muito realista esperar que o investimento em defesa na Europa aumente, isso pode ser um grande incentivo para a atividade económica no velho continente. São esses os grandes fatores, porque a nível de aumentos de produtividade, por exemplo, não os vejo. A nível de inovação, também não vejo nada que sobressaia.

E o relatório Draghi?

O relatório Draghi é excelente, pelo menos da perspetiva em que aponta o foco para vários problemas estruturais na Europa, que deviam estar no centro das preocupações dos decision makers, das pessoas que são responsáveis por decisões importantes e parece que não estão. Mas penso que a Europa beneficiou então desses dois fatores, de um maior dinamismo que se espera levado por mais investimento na defesa e pelo fluxo dos EUA.

Esse fluxo também influencia outros mercados. O da dívida soberana, por exemplo, que é muitas vezes um barómetro, infelizmente como conhecemos bem em Portugal, é um barómetro de risco e de volatilidade. E se formos olhar agora, vários benchmarks têm yields em níveis não em máximos, mas altos, as dos bunds alemães, os treasuries nos Estados Unidos…

As das obrigações franceses…

Já vamos lá ao francês. Num ano que tem sido volátil, isso vai continuar com esta incerteza?

Os treasuries, sobretudo na parte mais longa da curva, ou seja, do mais longo prazo, dos 30 anos, têm vindo a subir. Mas isso resulta de uma certa expectativa de que tenhamos mais inflação nos Estados Unidos. Na Europa é mais a incerteza política e a falta de perspetiva de crescimento, combinada com uma dívida pública enorme. Ou seja, as contas públicas em muitos países europeus estão num estado péssimo.

Os rácios subiram?

Sim, os rácios subiram, não há receita fiscal para cobrir as despesas e temos países que se endividam para pagar os juros da sua dívida. Agora há mais dívida também, porque parte desse plano de defesa retira regras e travões. Na Alemanha, por exemplo, houve uma alteração que ninguém esperava. Há cinco anos, se alguém falasse nisso, ninguém ia acreditar que a Alemanha ia fazer isso. Mas sim, é verdade. Ou seja, o paradigma fiscal na Europa é um paradigma fiscal que tem que ser revisto. É também interessante verificar, ainda dentro da Europa, que aqueles países que em 2011, 2012, ou seja, Portugal, Itália, Espanha, Grécia, que eram os chamados PIGS, que é um termo nada simpático, são os que estão mais saudáveis agora. Ainda hoje ouvia um responsável de um grande fundo de investimento dizer que estava a apostar mais nesses países do que, por exemplo, na França ou em outras emissões de dívida soberana de países que tradicionalmente eram considerados mais seguros.

As expectativas para a economia portuguesa continuam positivas, a nível do crescimento económico, a nível da estabilidade social, apesar de tudo o que se fala, e apesar de ter havido várias eleições, continuamos a ser um país visto desde o exterior como sendo um país estável, como sendo um país seguro.

Ricardo Evangelista

CEO da ActivTrades Europe

Antes de irmos para a França, vamos concentrar-nos um bocadinho na dívida portuguesa, que há cerca de 10 anos, 11 anos, saiu de um bail out muito penalizador. Agora tem uma yield notável na dívida a 10 anos. Como é que está a saúde da dívida portuguesa?

Sim, a dívida portuguesa viu os seus juros descer e descer muito significativamente. Hoje está abaixo da França, da Espanha, da Itália, ou seja, está numa situação muito confortável comparada com aquela que tinha há alguns anos. Isso tem a ver com fatores conjunturais, com certeza, porque também houve um crescimento económico mas houve uma situação fiscal que permitiu melhorar bastante. A dívida tem vindo a ser paga antes dos prazos e tem vindo a ser reduzida, ou seja, ainda há pouco tempo a dívida portuguesa excedia, era mais do que 100% do PIB e agora já é menos do que 100%. As expectativas para a economia portuguesa continuam positivas, a nível do crescimento económico, a nível da estabilidade social, apesar de tudo o que se fala, e apesar de ter havido várias eleições, continuamos a ser um país visto desde o exterior como sendo um país estável, como sendo um país seguro. Portanto, é natural que os mercados, que reagem a estas coisas, aceitem pagar um prémio menor para emprestar dinheiro a Portugal.

França, finalmente, que tem o sentido contrário. Temos um primeiro-ministro que lidera uma coligação em cheque, moções de confiança, negociações. Com a yield a subir, quão preocupante é isto para a zona euro? Há um risco de pedido de ajuda ao FMI? Há um risco de contágio?

A França é grande, é a segunda maior economia da zona euro. Eu penso que devemos olhar para a situação de forma realista e equilibrada. É verdade que isso do contágio poderá vir a ser um problema, mas neste momento não é, de forma alguma. A França é um país pivô dentro da Europa. Sem a França, se calhar, o projeto europeu não faz muito sentido. Teria ali um buraco enorme no meio e perderia a sua principal potência militar, por exemplo, e a segunda maior economia. Portanto, a França é um país importantíssimo. Há vários riscos associados a esta situação. Há o risco de a situação política se deteriorar, o que poderá levar, por exemplo, a um menor apetite pela participação na Europa, o que seria uma muito má notícia para Portugal e para outros países, e para o projeto europeu. Existe também o risco económico. A França é uma grande economia. Portanto, temos que estar atentos. Dizendo isto, estes riscos são riscos que não estão no horizonte imediato. Até pode ser que a coisa se resolva. Eu não sigo muito de perto a política francesa, mas sempre que analiso um pouco melhor, a impressão com que fico é que as coisas têm sido feitas um bocado em cima do joelho, decisões um bocado à pressa, irracionais, coisas mal calculadas, não é o ideal.

Vamos falar outra vez do forex. Estava a falar do dólar ter sido penalizado, estar em depreciação há algum tempo, pela incerteza sobre a independência da Fed, por exemplo. O euro está forte. Esta tendência vai continuar com esta administração? Que consequências é que está a ter? Ter um euro forte também não é necessariamente ideal.

O euro forte tem sido benéfico para o controle da inflação, por exemplo. Esse é o lado da equação. Ajuda a baixar os custos de energia. Mas, por outro lado, em termos de crescimento, não ajuda muito. Não ajuda, pois na altura de olharmos para as exportações europeias, perdem alguma competitividade. Mas penso que até não tenho visto ainda impacto negativo que se sinta devido ao ressurgimento do euro nestes últimos trimestres. Não há nada que eu veja que possa dizer isto é por causa do euro, para além da descida da inflação. Portanto, seguindo esta lógica, eu diria que o impacto até agora tem sido sobretudo positivo.

Christine Lagarde tem falado sobre querer transformar o euro numa moeda de referência, ou mais do que é, uma moeda de reserva. Este momento de transição geopolítica, geoeconómica, poderá beneficiar o euro como moeda mais a médio prazo?

Eu penso que isso será um projeto muito a longo prazo, porque o dólar vai continuar a ser a moeda de reserva global, quer queiramos, quer não, e aconteça o que acontecer, a menos que aconteça algo completamente absurdo. Poderá haver um papel para o euro, poderá ser um papel cada vez mais relevante dentro do contexto global, mas não vejo o euro a substituir o dólar nas próximas décadas.

Durante o nosso lifetime não vai ser.

Não, acho que não.

Mas há outro ativo de reserva que brilha, e está a brilhar neste momento, que é o ouro, que bate recordes por causa da incerteza e como refúgio. Ainda há upside no ouro?

Acho que sim, o ouro tem bastante upside, ou seja, tem bastante potencial para mais ganhos. O ouro atingiu um máximo histórico em abril de 3.500 dólares [por onça]. Neste momento, está próximo dos 3.400. E não me surpreenderia nada, claro, nada garante que isso vá acontecer, mas não me surpreenderia nada que voltasse àquele patamar dos 3.500 muito em breve. Digo isto porque, por um lado, o ouro é um ativo de refúgio. Os ativos de refúgio são procurados quando existe incerteza. E nós, ainda há pouco, dissemos expect the unexpected, espera o inesperado. Portanto, vivemos em tempos de muita incerteza. Por outro lado, sobretudo nos Estados Unidos, existe medo do regresso da inflação e o ouro é sempre uma forma de proteção contra a inflação. Estamos também a assistir ao enfraquecimento do dólar. Ou seja, o ouro é precificado em dólares. Logo, com o dólar mais fraco, o ouro vale mais dólares. E por último, last but not least, porque tem um peso bastante importante, temos assistido a muitas compras de ouro por parte de bancos centrais, da Índia, de países como a Turquia, da China.

Porquê?

Porque existe uma tendência para a desdolarização, que ganhou bastante tração depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, e tivemos todas aquelas sanções, e que os russos se aperceberam, pronto, nós temos estes ativos internacionais todos aqui, utilizamos o sistema SWIFT, eles podem fazer o que quiserem. Então outros países disseram, ok, temos que nos desdolarizar um bocadinho, e então como é que estão a fazer isso? Estão a fazer sobretudo através da compra de ouro no mercado, utilizando dólares, ou seja, vendem os seus dólares e vão aumentando as suas reservas de ouro nos bancos centrais. Isto é um fenómeno que tem contribuído muito para a subida do preço do ouro. E depois temos outras coisas que têm a ver com as tarifas. Recentemente Donald Trump anunciou que as tarifas sobre as importações da Suíça também iriam atingir a importação de barras de ouro, o que levou a uma subida do ouro. Penso que os planetas estão todos alinhados para que o ouro continue com potencial para mais ganhos.

Outro ativo que é muito afetado pela incerteza, como vimos durante a Guerra dos Doze Dias, como a chamou Donald Trump, no ataque americano ao sites nucleares iranianos, e que também é afetado, obviamente, pelo comércio internacional e alterações nas tarifas, é o petróleo. Subiu nessa altura, na altura do pico de conflito no Médio Oriente, mas agora já se vê previsões de estabilizar perto dos 50 dólares. O que é que podemos esperar nos próximos meses?

O mercado do petróleo, como todos os mercados, depende da oferta e da procura. Do lado da oferta, temos a OPEP+ que continua a aumentar as suas quotas de produção, ou seja, há mais petróleo a ser produzido por países como a Arábia Saudita e outros. Temos depois do lado da procura que a perspetiva de crescimento global não é a melhor e continua ameaçada pelas tarifas. Temos mais oferta, por outro a perspetiva de uma diminuição da procura. Ou melhor, não de diminuição da procura, mas de diminuição do ritmo de crescimento da procura. A tendência será com certeza para mais descidas.

Vamos falar da ActiveTrades, que é uma corretora multiativos online que foi criada em 2001. Começou na Suíça, depois passou a sede para Londres e em 2023 passou todos os clientes europeus para um novo hub em Lisboa que o Ricardo lidera. Presumo que tenha sido por causa do Brexit, portanto, a primeira pergunta é essa. Como é que é a operação?

O hub para a Europa está aqui em Portugal, desde 2023. A sede era em Londres, com o Brexit e a perda de direitos para exercer atividade dentro do espaço económico europeu, a empresa teve que se estabelecer em outro sítio. Primeiro foi para o Luxemburgo e agora, desde 2023, está aqui em Portugal. Está a correr muito bem em termos de volumes de investimentos. Estamos com vendas líquidas médias de 700 mil euros mensais. Isso está a correr muito bem. Temos 16 pessoas aqui em Lisboa e depois a nossa unidade de Lisboa tem ela própria duas sucursais. Temos um call center, que está na Bulgária, onde temos 33 pessoas, e temos também um pequeno escritório de representação em Milão, em Itália. Isto tem a ver com algumas especificidades italianas, que tem que se prestar um serviço e tem que estar presente. E temos cinco pessoas lá. Portanto, estamos a falar aqui de um total já de mais de 50 pessoas. Penso que para Portugal também é importante acolher uma empresa como a nossa, conhecida dentro do meio, e normalmente as empresas que vêm para Portugal vêm para aqui à procura de estabelecer o seu call center ou ou de utilizar os custos fixos mais baratos, nós viemos para aqui para estabelecer a nossa sede. Ou seja, nós pagamos os nossos impostos aqui em Portugal. Portanto, penso que também é um motivo de satisfação para o país. E poderá ser a primeira de várias empresas, porque Portugal não tem muita tradição de atrair este tipo de negócio. E sendo nós uma empresa pioneira a fazê-lo aqui em Portugal, poderemos estar a abrir talvez uma janela para mostrar que se pode fazer aqui também.

O online trading é um mercado com bastante concorrência, já em termos de publicidade vemos muito presente, a tentar aproveitar um bocadinho o espaço que há no trading de retalho. O que é que vos distingue nisso?

O que nos distingue é estarmos neste mercado há 24 anos. A empresa passou o teste do tempo. Alguns dos nossos concorrentes ainda não passaram pelo menos um teste de tanto tempo. E depois é uma empresa que aposta sobretudo no serviço ao cliente. Ou seja, nós não temos bots a falar com pessoas, temos serviço ao cliente, ou seja, há sempre alguém disponível, o cliente pode ligar, por exemplo, por telefone, ou mandar um e-mail, ou ir ao live chat e tem sempre do outro lado um ser humano, digamos assim, mesmo que seja durante a noite, tem sempre um ser humano com quem pode falar. Em termos de volume, tem crescido muito, o número de clientes tem vindo a crescer, e também o dinheiro depositado por esses clientes também tem vindo a crescer.

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