Em Portugal, há pouco mais de um mês, há uma cidade onde todo o gás consumido é biometano. Já Rio Maior prepara-se para entregar hidrogénio a cerca de 13 mil cidadãos em 2026, o CEO da Floene.
No campeonato dos gases renováveis, em Portugal, o biometano chegou atrasado, mas tem ganho a dianteira. A Floene, a maior distribuidora de gás do país, afirma que, apesar de registar mais pedidos na área do hidrogénio verde, em ano e meio o biometano já tomou conta de 40% desta lista, e regista mais projetos em operação.
Em Rio Maior, em 2026, deve estar já a injetar na rede um projeto à escala real, no qual cerca de 13 mil clientes vão receber gás natural misturado com hidrogénio verde nas suas casas. Contudo, de momento, já há uma cidade em Portugal que tem sido abastecida a 100% com biometano no último mês, mas que o CEO da Floene, Gabriel Sousa, afirma não poder desvendar de qual se trata ou os detalhes — isso está do lado do promotor.
Quanto aos preços, a Floene admite que o biometano é mais caro que o gás natural. No caso das empresas, contudo, a substituição pode compensar, se considerados os custos que estas têm com as licenças para emissão de dióxido de carbono. Nas casas, o biometano só alivia a fatura se comparado com a eletricidade, afirma Gabriel Sousa.
Quando me falou sobre os pedidos para injetar gases renováveis na rede, falou-me de cerca de 200 pedidos. Como é que se divide em termos de hidrogénio e biometano, e quantos projetos de hidrogénio se prevê que estejam já em produção este ano?
Os pedidos de informação por parte dos produtores de gases renováveis somam quase 250. Desses, cerca de 40% são de biometano e 60% de hidrogénio verde. Temos de ter em conta que os de biometano apareceram quase todos no último ano, ano e meio. Portanto, os de hidrogénio tiveram uma evolução muito grande, depois alguma estabilização. E o que temos assistido é, de facto, um crescimento dos projetos de biometano. Em 2026, estimamos que estejam cinco em produção.
Mas e projetos a passar para o terreno, no que toca o hidrogénio?
Quanto a um dos projetos, a ligação à rede está concluída. A informação que temos é que está previsto o comissionamento do eletrolisador no primeiro trimestre de 2026 e, portanto, estimamos que em 2026 este projeto esteja a funcionar, esteja a iniciar a injeção na nossa rede. É um projeto relevante.
O nosso projeto no Seixal, um projeto piloto através do qual temos injetado 16% [de hidrogénio verde na rede], serviu para testar que as tecnologias funcionam. O [novo] projeto que estamos a falar é um projeto em Rio Maior, em tudo idêntico. A diferença é que, em vez de impactar 80 clientes, vai impactar 13 mil, 14 mil clientes. E, portanto, já não é um projeto piloto, é um projeto à escala real. Enfim, é um projeto com uma dimensão quase única na Europa. É a concretização dos testes do piloto que fizemos no Seixal. Este é o primeiro projeto de hidrogénio que vai começar a funcionar em escala. Os outros projetos que temos contacto e que estão em curso, acho que vão demorar um pouco mais de tempo. As cadeias de logística e também de fornecimento dos eletrolisadores são um pouco mais demoradas. A própria Comissão Europeia tem, de facto, sublinhado esta urgência de sermos mais rápidos na ambição do biometano. Isto não quer dizer que se deite fora a ambição e os objetivos de desenvolver o hidrogénio, mas é, de facto, prioritizar.
[O projeto em Rio Maior] é um projeto à escala real. É um projeto com uma dimensão quase única na Europa.
Na Floene, enquanto este ano houve 11 contratos para injetar biometano, de hidrogénio temos o projeto piloto, e não temos ainda…
…Temos o projeto piloto e temos contratos já assinados para injeção, temos três. Este de Rio Maior que está para entrar em funcionamento e os outros dois que, enfim, eu estimo que até 2027 comecem a funcionar.
Portanto, enquanto no biometano a perspetiva é que 50 projetos estejam a injetar até 2030, no hidrogénio será muito inferior.
Sim, eu diria que sim. E mesmo os 50 projetos em biometano, essa é a ambição, para chegarmos a 2,7 TWh. O mapa do hidrogénio não o vemos tão completo e tão detalhado. O que não quer dizer que não possam aparecer [projetos], mas o ritmo é diferente.
O mapa do hidrogénio não o vemos tão completo e tão detalhado. O que não quer dizer que não possam aparecer [projetos], mas o ritmo é diferente.
Em que condições é que o hidrogénio poderia passar a andar mais depressa? O que é que está aqui a faltar?
O que nós vemos é, em alguns dos projetos, de facto, a logística do fornecimento. O fornecimento do eletrolisador leva tempo. São anos. São largos meses, mais de 12 meses. É os números que vamos ouvindo como referência.
Diria que os projetos de hidrogénio, à partida, só vão descolar quando concretizarmos o potencial do biometano?
Eu acho que, por estas razões, é muito importante o blending do hidrogénio. Desbloquear e acelerar o biometano é um fator que ajudará também a que o hidrogénio chegue. Porque, se nós tivermos uma rede a funcionar com 80% de biometano e 20% de hidrogénio, a rede está a funcionar 100% com gases renováveis.
Nós não somos investidores, portanto, eu vou ser aqui reservado. Mas deixar uma nota que me parece importante. Em Portugal e Espanha, há muitas cidades que não estão ligadas ao gasoduto e, portanto, recebem gás natural liquefeito a partir de uma cisterna que vem do terminal de Sines, descarrega nessa unidade autónoma no reservatório e, a partir daí, abastece a cidade. Nós temos, hoje em dia, em Portugal, uma cidade que, desde há pouco mais de um mês, recebe todas as semanas uma descarga de biometano liquefeito, produzido em território nacional. Portanto, isto é uma cidade que está, desde há algumas semanas, a funcionar totalmente com gás verde.
Nós temos, hoje em dia, em Portugal, uma cidade que, desde há pouco mais de um mês, recebe todas as semanas uma descarga de biometano liquefeito, produzido em território nacional. Portanto, isto é uma cidade que está, desde há algumas semanas, a funcionar totalmente com gás verde.
Qual é a cidade?
Oportunamente, os produtores do projeto vão fazer o seu anúncio. Mas, isto para dizer que, é verdade, nós já temos hoje em dia cidades que estão a funcionar 100% com gás verde biometano, e cidades próximas de projetos de hidrogénio que vão começar a funcionar, desejavelmente, com biometano e com hidrogénio.
Qual é a diferença no bolso do consumidor de estar hoje com gás natural e amanhã com biometano?
Nós, do lado dos operadores de redes de distribuição, fazemos, em primeiro lugar, uma análise que é qual é o impacto dos nossos planos de investimento naquilo que é a tarifa de uso das redes.
E quanto às redes, é aquele 1,2% [subida acumulada de 1,2% na componente dos preços que diz respeito à rede entre 2025 e 2030], de que falou inicialmente.
Exatamente.
Mas e o custo da energia em si? O custo final.
O biometano, e o que vemos também nos outros países da Europa, hoje é mais caro do que o gás natural. E eu sublinho este hoje porque é quando olhamos para os preços do gás natural que temos hoje. Porque se o gás natural tiver variações de preço, o biometano de repente pode tornar-se bastante mais competitivo.
A vantagem do biometano para o consumidor final — e estas externalidades têm de estar presentes, estão muito do lado da indústria, em particular a cerâmica e o vidro — é que o custo da sua energia não é apenas o custo do gás que compram hoje, é o custo do gás e o custo do CO2 pelas emissões. E portanto, temos também de olhar e de analisar aquilo que será o prémio por ter uma energia verde, neste caso o biometano, e a forma como ela pode compensar o custo adicional de CO2, que é um custo que deixa de estar em cima da fatura das indústrias.

Já que as famílias não têm essa questão do dióxido de carbono, quanto é que é o preço do biometano comparado com o gás natural?
Nós não temos hoje em dia preços em Portugal que nos permitam fazer essa conta de forma tão simples. Mas temos alguma análise e projetámos algumas análises daquilo que poderia ser. O custo daquilo poderia ser a eletricidade em 2040 comparando com a utilização do biometano. E [a fatura] é marginalmente mais reduzida com a utilização do biometano.
Mas pensando que o biometano pode realmente já estar muito mais presente até 2030 no nosso mix energético, no gás que nos chega à nossa casa… perceber um bocadinho aqui a diferença em termos de preço que pode verificar.
Hoje em dia, a utilização do gás natural de uma família é cerca de metade da fatura se fosse com a eletricidade. Com a utilização do biometano, já não será metade, será ligeiramente mais baixo. Mas não será metade. Portanto, o biometano será mais caro do que o gás natural.
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“Já há uma cidade em Portugal a funcionar apenas com gás ‘verde'”
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