“Não vamos passar a ser um banco cripto, o cripto é que vai passar a fazer parte do BCP”, diz economista-chefepremium

José Maria Brandão de Brito passou a desempenhar funções de diretor de sustentabilidade e criptoativos do BCP. Banco quer posicionar-se face a moedas digitais, criptoativos e à tecnologia blockchain.

O BCP quer aproveitar as potencialidades dos criptoativos e da tecnologia blockchain, adaptando o negócio à inovação. Para isso, o banco criou uma nova direção interna, liderada por José Maria Brandão de Brito. O até aqui economista-chefe mantém esse cargo, que acumula com o de diretor de sustentabilidade e criptoativos. Em entrevista ao ECO, explica que o cripto vai passar a fazer parte do BCP.

Brandão de Brito tem como principais missões preparar a chegada do euro digital (incluindo os desafios tecnológicos que trará para a banca) e explorar as possibilidades de tokenizar ativos financeiros e reais ou de vender serviços financeiros em blockchain. Antecipa que a chegada das moedas digitais soberanas potencie as criptomoedas e considera que, no futuro, qualquer pessoa terá numa mesma wallet moeda fiduciária, criptomoedas, criptoativos e tokens.

Houve uma atualização do seu cargo para economista-chefe e diretor de sustentabilidade e criptoativos. Porquê esta mudança? Em que é que se consubstancia?

O BCP tem no seu ADN inovação. Nasceu como um projeto muito inovador e tem mantido isso. A avaliação e entrada em novas áreas de negócio é sempre um processo que exige grande maturação. Temos uma base de clientes e de stakeholders que exige que o banco o faça de forma muito ponderada. Internamente, a questão das cripto foi sendo pensada e refletida. Sabemos -- e o Banco de Portugal e a CMVM têm-no dito -- que há riscos muito importantes, sobretudo numa lógica de retalho associada às criptomoedas.

O setor teve uma evolução absolutamente extraordinária. Entre 2019 -- e não em 2013, no tempo da plataforma de intermediação Mt. Gox que faliu -- e 2021 avançou-se muitíssimo na segurança das plataformas de transação de criptomoedas. Hoje em dia, as principais plataformas são reguladas nos EUA e Europa. Portanto há um controlo maior. Agora é errado quando se fala em criptoativos passar diretamente para bitcoin. Todo o ecossistema que é gerado pela tecnologia blockchain é um mundo que vai muito além das bitcoins. Estou convencido -- posso estar enganado -- de que o blockchain é uma killer app, uma tecnologia que vai entrar em todas as áreas da ação económica e não só. Se assim for, vai ter uma tradução económica a que os bancos não podem estar alheios e o BCP certamente não estará.

Não excluímos nada, estamos sempre a avaliar as oportunidades de mercado que estão no mercado, mas neste momento não está a ser programada qualquer iniciativa ao nível das transações de criptomoedas, até porque já há muita oferta e de qualidade portanto não há uma urgência no mercado português. Não o estamos a planear.

José Maria Brandão de Brito

Economista-chefe e diretor de sustentabilidade e criptoativos do Millennium bcp

Vão permitir a transação de criptomoedas?

Não excluímos nada, estamos sempre a avaliar as oportunidades de mercado que estão no mercado, mas neste momento não está a ser programada qualquer iniciativa ao nível das transações de criptomoedas, até porque já há muita oferta e de qualidade, portanto não há uma urgência no mercado português. Não o estamos a planear.

Mas estamos a olhar para dois ângulos, que são as duas principais missões desta direção. Uma é preparar a cada vez mais provável chegada do euro digital, que vai trazer desafios tecnológicos. Como é que se vai encaixar nos sistemas do banco? Mesmo em geografias onde está mais avançado, como a China, penso que não há respostas sobre como será feita a integração de uma eventual moeda soberana digital no sistema bancário.

Por outro lado, o aparecimento de um euro digital será mais um grande desafio e mais uma mudança paradigmática no modelo de negócio dos bancos. Vai ter ameaças, mas também oportunidades. A ideia do euro digital é precisamente democratizar o acesso ao mundo financeiro. Nesse sentido estamos a falar de mais negócio, interlocutores e clientes. É disso que estamos a falar: de ir acompanhando com toda a atenção todos os desenvolvimentos quer na componente regulatória quer nas oportunidades de negócio.

Qual é o segundo ângulo?

Depois, o outro ângulo prende-se com um processo que, no mundo inteiro, está numa fase muito inicial de maturação, que é olhar para as possibilidades que advêm dos criptoativos. Possibilidades de tokenizar ativos financeiros e reais, de vender serviços financeiros através de plataformas de blockchain… Há um conjunto de oportunidades, distintas do euro digital, que advêm do blockchain, que penso que terá um grande impacto no futuro e vamos tentando acompanhar.

José Maria Brandão de Brito, Chief-Economist do Millennium BCP, em entrevista ao ECO - 06ABR21

O BCP está a fazer algum tipo de experiência com blockchain? O que é que esta tecnologia pode dar ao banco?

Experiência só intelectual. Não temos nenhum piloto em curso. O que estamos é a refletir constantemente sobre o tema. Neste momento há uma grande incerteza sobre o euro digital. Será que vai ser disponibilizado diretamente pelos bancos centrais? Penso que não, que será feito através dos bancos ou de outro tipo de providers mais ligados à tecnologia. Não há sequer pistas, quanto mais certezas em relação a isso. Temos de perceber para onde cai esta moeda para adequar a nossa resposta, quer ao nível do enquadramento e regulação, quer do desenvolvimento de produtos que nos permitam potenciar essa realidade.

Essa disponibilização não compromete o controlo por parte do banco central?

Não, porque estamos a falar da disponibilização. A emissão é sempre feita pelo banco central. Da mesma forma que, com a moeda fiduciária, os bancos centrais fazem a distribuição através dos bancos, é a mesma coisa. Só que no caso das criptomoedas podemos conceber a ideia de que toda a gente tem um endereço digital e o BCE podia transferir euros digitais para a wallet de cada pessoa, mas os bancos centrais não têm essa vocação comercial, nem sistemas próprios. Penso que há soluções privadas mais importantes. Isso para os bancos é muito relevante porque se os bancos perderem o exclusivo da distribuição de moeda vão ter de se adaptar e criar soluções tecnológicas que permitam.

Se perderem o exclusivo quer dizer que tecnológicas passam a distribuir também moeda?

Sim, se for dado acesso a outro tipo de empresas e organizações que não sejam bancos nessa distribuição. Diria que uma tecnológica que tenha uma wallet e que faça a integração de moedas e criptomoedas nas suas plataformas é um candidato. Para mim, o caminho que se vai seguir é que qualquer operador registado e regulado possa oferecer uma solução tipo wallet para os euros digitais. O BCP vai querer perceber o que se vai passar para se poder enquadrar e posicionar.

Para mim, o caminho que se vai seguir é que qualquer operador registado e regulado possa oferecer uma solução tipo wallet para os euros digitais. O BCP vai querer perceber o que se vai passar para se poder enquadrar e posicionar.

José Maria Brandão de Brito

Economista-chefe e diretor de sustentabilidade e criptoativos do Millennium bcp

Qual é a sua expetativa para o euro digital em termos de timing e utilização?

Conhece-se ainda muito pouco. Ainda nem se decidiu se a tecnologia vai ser blockchain ou qualquer outra. Penso que será blockchain, porque é o que faz sentido, e depois permite fazer a ligação a todo o sistema blockchain. Em termos de timings, a presidente do BCE apontou para 2024. A expetativa é que a China lance em 2022 a sua moeda digital. Penso que, neste momento, a Europa sobretudo, mas também os EUA não se podem atrasar muito.

Vai ser uma realidade em todos os países?

Esta história acelerou com a libra do Facebook, que agora se chama diem, que veio alertar as autoridades de política monetária para a possibilidade de haver uma moeda com escala global que corre em carris completamente paralelos ao sistema monetário e de pagamentos internacional. E que tem veículos de funcionamento muito mais eficientes do que os que existem agora. Por exemplo, a possibilidade de poder fazer pagamentos através do whatsapp, como se falava no início da libra, é uma forma muito eficiente de fazer pagamentos.

O que acontece é que, neste momento, as moedas fiduciárias para se manterem relevantes têm de correr também nestas plataformas e na tecnologia blockchain. E não é só uma questão de garantir que o euro continua a ser usado. É que se o euro não for usado, a política monetária deixa de ser eficaz. Se a política monetária deixa de ser eficaz, também o deixa de ser o controlo e mitigação de ciclos económicos e gera outras questões do ponto de vista geoestratégicos. Para a Europa é clara a necessidade de ter um euro digital que permita, pelo menos, ombrear com as soluções que estão a ser criadas na China e em outras geografias. E já agora aproveitar para potenciar o papel internacional do euro, que é também um desígnio da Comissão Europeia.

E se não acontecer?

A verdade é que se sabe muito pouco e uma das razões para isso é que não há grande margem de manobra para erro. Por exemplo, falamos de uma coisa absolutamente crucial que tem a ver com a privacidade. Hoje em dia temos moedas e notas de euro na carteira e a forma como o gastamos é completamente anónima. Não há forma de rastrear. Com blockchain a capacidade de rastrear é 100%. Tem de haver uma solução tecnológica para impedir que as pessoas percam privacidade por várias razões. Porque essa é a nossa matriz civilizacional e porque, se não for assim, a adoção de euro digital seria muito fraca porque as pessoas não queriam abdicar da sua privacidade.

Da privacidade e da segurança...

O euro digital praticamente elimina quase todas as questões de segurança, por várias razões. Primeiro pela possibilidade de rastrear, depois pela possibilidade com smart contracts de evitar que sejam transferidos euros digitais para determinados endereços. A bitcoin não, mas várias plataformas permitem-no e penso que não faz sentido que o euro digital não seja compatível com smart contract. Se houver uma blacklist, ao abrigo do financiamento de terrorismo ou lavagem de dinheiro, pode-se dizer que todas as entidades que estiverem nesta lista ficam impossibilitadas de receber transferências, que é algo que não se pode fazer agora. A segurança aumenta exponencialmente. Isto é ex ante, mas também pode ser ex post, ou seja, é cometido um crime fiscal e o banco central ou as autoridades têm capacidade de ir atrás do rasto.

A chegada das moedas digitais não põe nada em causa -- e até pode potenciar -- as criptomoedas de maior qualidade. (...) Daqui a uns anos vamos ter uma wallet onde temos moeda fiduciária, criptomoedas, criptoativos... Posso até ter 0,1% da minha casa porque a tokenizei.

José Maria Brandão de Brito

Economista-chefe e diretor de sustentabilidade e criptoativos do Millennium bcp

Há uma escolha entre abdicar de segurança ou de privacidade?

Não. A grande descoberta feita desde o verão é algo que se chama zero knowledge proof. É uma tecnologia que permite provar que eu sou esta pessoa sem o dizer. Eu consigo provar que sou eu sem dar absolutamente nada da minha identidade. Trata-se de encontrar características que há em muitas outras pessoas, mas que existem numa combinação muito específica e que torna a probabilidade de acontecer noutra pessoa ínfima. A zero knowledge proof significa que já não há trade-off entre segurança e privacidade. É muito relevante para um banco porque as questões de branqueamento de capital ou KYC com a maturação desta tecnologia talvez possamos integrar soluções que aliviem os riscos que para o BCP são absolutamente cruciais como a lavagem de dinheiro.

Foi por isso que o banco criou esta direção. Não é para fazer negócio amanhã. É acompanhar e perceber que a breve trecho haverá soluções que podem ser integradas com responsabilidade e controlo na oferta que o banco tem para os clientes. Numa oferta que será certamente inovadora, mas que se enquadra no espectro de produtos e serviços que o banco já oferece. Não vamos passar a ser um banco cripto, o cripto é que vai passar a fazer parte do BCP.

Estão a trabalhar com algum parceiro (banco, tecnológica, supervisor, etc) neste assunto?

Não. Eu estou sempre a reunir com players internacionais do espaço para perceber o que estão a fazer, as dinâmicas que estão a acontecer até porque muitos deles estão em contacto com os reguladores. Portanto, a resposta é não, mas estamos muito ativos no sentido de auscultar o mercado e falar com players.

José Maria Brandão de Brito, Chief-Economist do Millennium BCP, em entrevista ao ECO - 06ABR21

Espera que esse cenário futuro de aproveitamento da tecnologia blockchain possa conviver com a especulação e volatilidade no mercado de criptomoedas ou que a mate?

São coisas separadas. O white paper da bitcoin cria a tecnologia blockchain, daí haver uma associação quase umbilical, o que não é verdade. A bitcoin não pode viver sem blockchain, mas pode haver muita blockchain sem bitcoin. Eu sei que não é pacífico, mas a minha opinião pessoal (que em nada vincula o banco) é que a bitcoin é uma reserva de valor, que resulta de duas características: uma constitucional (o facto de ter uma oferta limitada) e outra que foi ganhando que é ter uma rede muito grande. Significa que, como reserva de valor, é um ativo cada vez mais interessante. Como em todos os ativos de reserva de valor, os investimentos estão sujeitos a movimentos de mercado e, no caso da bitcoin, a volatilidade tem vindo a cair, mas ainda é muito apreciável.

E vai continuar?

A chegada das moedas digitais não põe nada em causa -- e até pode potenciar -- as criptomoedas de maior qualidade, porque as moedas soberanas digitais surgem devido ao potencial do ecossistema blockchain, mas à medida que forem sendo instituídas podem potenciar esse mesmo ecossistema. Para mim, é relativamente óbvio que daqui a uns anos vamos ter uma wallet onde temos moeda fiduciária, criptomoedas, criptoativos... Posso ter 0,1% da minha casa porque tokenizei a minha casa, distribui 48% em mercado e posso estar a pagar assim, desde que haja mercado secundário. E há cada vez mais bolsas -- as centralized exchanges -- que fazem a cotação e o market making destes tokens. Não só da casa. Agora fala-se muito dos NFT [non-fungible tokens]: posso ter 5% de um quadro da Paula Rego e comprar um carro.

A partir do momento em que puder, na mesma wallet, passar de euros digitais para bitcoin ou para tokens do quadro da Paula Rego, todos se potenciam mutuamente. Portanto a entrada do euro digital, dólar digital e renminbis digitais vai potenciar a vertente de reserva de valor e de investimento no espaço cripto, incluindo da bitcoin.

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