“Percebo que não há vontade de aumentar o défice, mas ajuda de 7.500€ à restauração não chega”

No dia em que a AHRESP escreveu uma carta ao primeiro-ministro por causa do recolher obrigatório, o ECO conversou com a secretária-geral que avisa que a prometida ajuda a fundo perdido não chega.

Sabemos do difícil e instável cenário que vivemos, sabemos que a atual situação pandémica nos dificulta a vida a todos, mas não é possível continuar neste rumo desastroso para as nossas atividades económicas”. Assim começa a carta aberta que a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) escreveu ao primeiro-ministro, esta terça-feira.

É a propósito desta carta que o ECO conversou com Ana Jacinto, secretária-geral desta associação que representa um setor que em Portugal emprega 400 mil trabalhadores.

Ana Jacinto sobre o impacto do recolher obrigatório

Quando confrontada com a medida do Governo que decidiu impor um recolher obrigatório em 121 concelhos do país nos próximos dois fins de semanas, a partir das 13h00, Ana Jacinto responde com sete números de outubro, ou seja, ainda antes desta nova vaga de restrições:

41% das empresas de restauração e bebidas dizem que não têm alternativa senão avançar com processo de insolvência; 43% regista quebras homólogas de mais de 60% e temos 47% das empresas de restauração que já tiveram de fazer despedimentos”.

Se olharmos para o alojamento turístico, o cenário não é melhor: “36% das empresas têm quebras de faturação superior a 90% e temos 19% do setor a dizer que não vai resistir e vai para insolência”.

Havia alternativas?

“Acreditamos que o Governo não tenha alternativas e que estas sejam as medidas essenciais para tentarmos travar a pandemia. Mas é preciso que haja medidas compensatórias que tentem alcançar esse equilíbrio [entre economia e Saúde]”.

A secretária-geral da AHRESP lembra que “há atividades, como bares e discotecas, fechadas há oito meses, e o único apoio que têm é o lay-off simplificado, mas até no lay-off simplificado há uma componente importante que a empresa tem de liquidar. Estas empresas não vão conseguir sobreviver e manter os seus postos de trabalho”.

“Se olharmos para a Europa, há países até com medidas mais restritivas [de circulação]. Mas nesses países têm havido mais equilíbrio”

Entregas ao domicílio podem ajudar?

Quando este fim de semana anunciou as novas restrições, o primeiro-ministro afirmou que, durante as horas de recolher obrigatório, o setor da restauração poderá continuar a fazer entregas ao domicílio, mas não haverá take-away.

Sobre as entregas ao domicílio, Ana Jacinto afirma que “não é de todo a salvação para este setor, porque é um mecanismo caro e pouco rentável para a maioria dos estabelecimentos”.

“É preferível fazer o delivering do que não poder fazer nada. Mas não é o delivering que vai salvar o setor, até porque a maior parte dos estabelecimentos não tem forma de fazer entregas por forma própria, e, portanto, tem de contratar plataformas e serviços a terceiros para fazerem as entregas; como sabemos estas plataformas têm um custo elevado e deixam muito pouca margem, para não dizer margem nenhuma, para os estabelecimentos”.

E take-aways depois das 13h?

“Sabemos que os supermercados vão estar a funcionar, que as mercearias vão funcionar, não há limitação de circulação, mas não percebemos o porquê da distinção em relação a nós. Sobretudo quando sabemos que os supermercados, dentro dos seus espaços, vão fazer take-away e servem refeições, e as pessoas até podem consumir as refeições lá dentro”.

Sentem-se discriminados? “Com certeza que sim, porque não percebemos qual é a lógica, não percebemos esta diferenciação. Não percebemos porque é que não podemos funcionar em take-away”.

Ana Jacinto sobre os apoios do Governo

“São importantes, mas é evidente que não são suficientes”. Resumidamente é este o pensamento da AHRESP sobre o novo apoio que o primeiro-ministro anunciou esta segunda-feira, em entrevista na TVI.

O apoio visa compensar a perda de receita dos restaurantes nos próximos dois fins de semana, mas Ana Jacinto não se conforma com o facto de o alojamento ficar de fora: “Nem na restauração, nem no alojamento há criação de stocks. Aquilo que não é vendido hoje, perdemos de uma forma definitiva. Obviamente que faz sentido que sejam apoiados quer a restauração, quer o alojamento turístico. São os dois setores que têm quebras muito mais acentuadas do que quaisquer outros”.

Este não é o único apoio ao setor. O ministro da Economia apresentou na semana passada o Apoiar.pt, um programa para dar, a fundo perdido, 750 milhões de euros às empresas do setor da cultura, restauração e alojamento, com um máximo de 7.500 euros para as micro e um teto de 40 mil euros para as pequenas empresas.

“O princípio está correto, o que não está correto é a dotação. Um apoio a fundo perdido de 7.500 euros para as micro empresas, dada a dimensão do problema que temos em mãos, é curto. Uma empresa que está encerrada há oito meses, com rendas e salários para pagar, com taxas e impostos para pagar, acha que é suficiente um apoio a fundo perdido com esta dotação? É insuficiente”, desabafa Ana Jacinto.

Então qual deveria ser o valor então justo? “Deve ser de 50% do valor da perda de faturação que as empresas comprovarem ter, sem um teto máximo”.

“Se não tivermos estas medidas para o setor vamos ter de pagar muito mais no final. Estas pessoas vão ter de recorrer ao subsídio de desemprego e aí o Estado vai ter de encontrar meios e recursos para estas pessoas. Queremos os apoios a montante e não a jusante. Percebemos as limitações, percebemos as dificuldades, percebemos que não haja vontade de aumentar o défice, mas nós não temos alternativas para segurar este setor”.

No final da conversa com Ana Jacinto, ainda houve tempo para falar sobre o aumento do salário mínimo de 23,75 euros que o Governo quer colocar em prática a partir de janeiro de 2021. E a resposta foi curta e grossa: “Não estamos em condições de o fazer, é insustentável”.

Para a secretária-geral da AHRESP, “é evidente que não estamos em condições nenhumas de discutir aumentos de salários, porque o que nós queremos é suster os nossos postos de trabalho e ter capacidade para pagar os atuais salários. Com este panorama que já partilhámos, que condições têm as empresas para proceder a aumentos salariais?”

“Se temos 41% das empresas a dizer que não vão sobreviver à data de hoje, sem aumentos salariais, é evidente que sim, representa a incapacidade de pagar salários e manter os colaboradores. Porque não há faturação. Vamos voltar ao exemplo dos bares e discotecas. Como é que é possível estar fechado há oito meses, sem gerar um único cêntimo, e suportar agora um encargo adicional nos custos dos seus trabalhadores, é impossível”.

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