A caminho do IPO, afinal quanto vale a Farfetch?

Depois da escolha dos bancos internacionais para assessorarem a operação, Farfetch dá mais um passo para entrar em bolsa. Com ações em Wall Street, avaliação da empresa pode disparar.

Unicórnio desde 2015. Ronda de investimento Series F, no valor de mais de 95 milhões de euros, em maio de 2016. Investimento pela JD.com em junho de 2017. São muitas as notícias com que a Farfetch tem dado que falar nos últimos tempos. A empresa, fundada pelo português José Neves, foi o primeiro unicórnio associado a um nome português e tem dado cartas, em matéria de comércio eletrónico de luxo, um pouco por todo o mundo.

O modelo de negócio funciona de forma simples: a Farfetch possibilita às marcas terem uma plataforma online de vendas sem terem de investir na infraestrutura tecnológica: a plataforma foca a atenção na curadoria de produto e em conteúdo em vez de na parte logística (como, por exemplo, faz a Amazon), com um claro foco em apenas uma indústria — beleza e moda. Por isso, a plataforma cobra cerca de 25% de comissão às casas de luxo.

Com a entrada e a aposta no mercado chinês, deve enfrentar no final deste ano um novo desafio: abrir o capital da empresa a novos investidores, com a entrada em bolsa. Mas, afinal, quanto vale a Farfetch?

Criada em 2008, a empresa fundou um novo paradigma na indústria: ocupar o lugar das grandes boutiques de luxo, assegurando-lhes uma presença online válida que lhes permita crescer, oferecer uma experiência diferenciadora aos clientes e chegar a novos mercados sem a necessidade de investimento numa loja física.

Com escritórios em 13 cidades de nove países, entre as quais Los Angeles, Nova Iorque, São Paulo, Londres, Guimarães, Porto, Lisboa, Moscovo, Xangai, Hong Kong e Tóquio, a Farfetch conta com mais de 3.000 trabalhadores e tornou públicos, pela primeira vez, os resultados de 2016, que retratam uma escalada nas vendas e nas receitas mas também nas perdas.

As vendas da retalhista online de roupa e acessórios de luxo continuam de vento em popa: aumentaram mais de 50% para os 267,5 milhões de dólares nos primeiros seis meses de 2018. No entanto, no mesmo período, os prejuízos mais do que duplicaram, chegando aos 68 milhões de dólares, refletindo um agravamento de 133% face ao mesmo período do ano passado. O valor corresponde a um resultado líquido negativo de 1,42 dólares por ação, acima do prejuízo de 0,75 dólares por ação registado na primeira metade em 2017. No total do ano passado, a empresa apresentou prejuízos de 112 milhões (contra 81 milhões em 2016).

A maior fatia das vendas aos cerca de 935 mil clientes ativos em 2017 (vindos de 190 países) está fora do território europeu, com a China a afirmar-se como um mercado particularmente forte para as contas da empresa.

Dos 1.000 milhões ao IPO

A primeira vez que se falou no IPO da empresa fundada pelo português José Neves, e que se tornou unicórnio [empresa avaliada em mais de 1.000 milhões de dólares] em 2015, foi em junho de 2017. Na altura, a Sky News adiantava que a empresa estaria a fechar acordos com bancos de investimento para trabalhar em conjunto o processo de admissão na bolsa de Nova Iorque.

“Não temos um timing específico. Mas é a nossa próxima milestone para o negócio, isso de certeza. É a melhor maneira de um negócio conseguir liquidez para os seus investidores porque, no fim do dia, se temos investidores precisamos de encontrar liquidez para eles, e manter a fantástica equipa que temos”, dizia José Neves, CEO da Farfetch, a propósito da entrada da empresa em bolsa, em junho do ano passado.

Na última semana, os rumores ganharam forma com a entrega do pedido oficial: a Farfetch prepara-se para entrar no New York Stock Exchange, com o ticker “FTCH”. E, ainda que não se saibam detalhes sobre o número de ações a serem colocadas à venda nem o preço-base de cada uma, o Business of Fashion adianta que a entrada do capital da empresa em bolsa poderia significar uma valorização da empresa, que agora vale cerca de 1,5 mil milhões, para um valor perto dos 5.000 milhões.

De acordo com o Financial Times, a entrada na bolsa da Farfetch — que vende mais de 3.200 marcas entre as quais a Chanel, a Gucci e a Balenciaga — deverá acontecer para a empresa se financiar em 100 milhões de dólares. Com apenas uma década de história, a Farfetch ainda não anunciou qual será o valor das ações que colocará em bolsa.

Maioria dos colaboradores da Farfetch são portugueses mas a empresa conta com trabalhadores de 15 nacionalidades.Paula Nunes/ECO

A empresa, que já levantou mais de 350 milhões de euros em capital de risco, tem tudo para conseguir concretizar um IPO bem sucedido, garantem os meios de comunicação internacionais especializados: depois de, em abril do ano passado, ter anunciado o lançamento da “loja do futuro” — um sistema de operação para o retalho que permite personalizar os desejos do consumidor e fazer interagir os clientes com os vendedores e os fabricantes –, a empresa chegou a um acordo com a Burberry para entregar peças da nova coleção em 24 horas e, três dias mais tarde, fechou uma parceria com a Chanel que permite aos clientes terem uma experiência personalizada. Quinze dias antes, a empresa liderada por Neves, tinha noticiado também outro passo em direção ao IPO, com uma joint-venture com o Chalhoub Group, um dos maiores distribuidores de moda e bens de luxo do Médio Oriente, que se apresentou como um parceiro de peso na estratégia de crescimento do unicórnio.

“Temos presença na China e em Hong Kong, Japão, Rússia, América latina, Coreia e nos Estados Unidos — e o Médio Oriente era um grande gap na nossa estratégia. O plano é crescer no Médio Oriente, muito muito rápido”, disse José Neves na altura. A entrada da JD.com no capital da empresa, anunciada em junho do ano passado, significou um novo acionista maioritário na empresa e uma multiplicação da valorização da empresa, graças ao investimento de 356 milhões de euros, para os 3 mil milhões de dólares. “A China é um mercado crítico e estratégico para a Farfetch uma vez que, no segmento de bens de luxo, o consumidor chinês é já o que despende valores mais elevados”, disse José Neves ao ECO.

Contactada pelo ECO, a Farfetch não fez quaisquer comentários até ao fecho deste artigo.

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