Aviões verticais e órgãos em plástico. Como 2020 era visto há 25, 30, 50 ou 100 anos

2020 acaba de chegar, mas há muito que fazia as delícias de quem arriscava prever o futuro. O ECO mergulhou na História e foi à procura do que se dizia de 2020... há 25, 30, 50 ou 100 anos.

A chegada de 2020 não é só o começo de um ano novo. É também o início de uma nova década e um momento privilegiado para revisitar as muitas previsões que eram feitas para 2020… há 25, 30, 50 ou mesmo 100 anos.

Algumas delas acertaram em cheio, fruto da sorte ou da análise de indícios que já existiam no passado. Outras, por falta de informação ou imaginação em demasia, nem por sombras. Mas, agora mais do que nunca, todas são deliciosos pedaços da História.

O ECO foi à procura do que se dizia sobre 2020 em várias épocas do passado. E rapidamente concluiu que certos setores foram campo mais fértil para este tipo de previsões a longo prazo. Ao longo das próximas linhas, descubra o que diziam deste ano alguns futurologistas e visionários no passado em áreas como os transportes, a banca e as telecomunicações.

Wilfred Owen, em 1988

“Aviões irão descolar na vertical”

Um dos documentos consultados pelo ECO data de 1988. Trata-se de um artigo da revista The Brookings Review, intitulado “Perspetivas para 2020: O transporte no futuro da América”. Nele, o autor, Wilfred Owen, idealiza uma série de soluções para resolver problemas no sistema de transportes norte-americano.

“À medida que o tráfego aéreo se multiplica, a tecnologia aérea e das aeronaves irá resgatar as companhias aéreas. Aviões desenhados com a capacidade de levantar voo e aterrar na vertical irão substituir os atuais aviões sedentos de espaço”, refere a peça publicada há mais de 30 anos. A previsão não envelheceu da melhor forma. Sim, o tráfego aéreo aumentou muito, mas os aviões continuam a precisar de espaço na horizontal para poderem levantar.

“Levitação magnética substituirá os caminhos de ferro”

Vejamos outra: “O desenvolvimento do transporte por levitação magnética vai eventualmente acabar com a supremacia das rodas sobre carris, à medida que os comboios e outros veículos individuais ‘voam’ a alta velocidade uma fração de milímetro acima das linhas.”

Sorte? Na verdade, não. O primeiro comboio de levitação magnética tinha surgido quatro anos antes da publicação desse artigo. Chegados a 2020, a tecnologia, apesar de continuar a ser usada, ainda está longe de suplantar os caminhos-de-ferro tradicionais.

“Preços das portagens serão mais elevados”

Wilfred Owen tinha mais a dizer. Entre estimativas de que algumas estradas seriam transformadas em ligações subterrâneas e de que iriam existir vias para mercadorias paralelas a todas as autoestradas, o autor previu, com sucesso, que iríamos ter de pagar mais pelo uso dessa infraestrutura do que o que se pagava naquela altura.

“Os consumidores pagam quantias enormes para deter e operar os seus automóveis, mas pagam muito pouco pelo uso das estradas sobre as quais andam. Os utilizadores das autoestradas vão pagar mais portagens”, escreveu.

“Telecomunicações vão descongestionar as estradas”

Com a internet longe de ser a realidade que é hoje, em 1988, o foco estava virado para o desenvolvimento das telecomunicações num sentido mais amplo, bem como a redução do custo das mesmas. Para Wilfred Owen isso só podia significar uma coisa: a transmissão de informação iria eliminar viagens desnecessárias.

“Uma forma de reduzir as viagens vai ser a transmissão de informação. Algumas transações de rotina que requerem transporte para um banco, um escritório ou uma biblioteca serão evitadas. A redução do custo das telecomunicações e o aumento do custo dos transportes vai encorajar o uso das comunicações no caso de viagens que as pessoas prefiram não fazer”, indicou. Desta vez, um tiro em cheio.

“Autoestradas serão automáticas”

Em suma, na análise, Wilfred Owen concluiu que “as autoestradas automáticas, o transporte de alta velocidade à superfície e os aviões a descolarem e a aterrarem na vertical irão juntar-se às telecomunicações para servir a metrópole multicêntrica de 2020”.

O texto termina com uma pérola preciosa: “Uma última previsão: a Brookings vai republicar este artigo em 2020 para alertar para a tolice de se tentar prever o futuro dos transportes.” Em relação a esta, apesar de estarmos no ECO, Wilfred Owen acertou praticamente na mouche.

Charles S. Sanford, Jr., em 1994

“Bancos não vão existir tal como os conhecemos”

A dissertação “Mercados Financeiros em 2020” é um dos documentos mais fáceis de encontrar para quem, como nós, esteve à procura de previsões do passado. Trata-se de um complexo exercício de previsão, publicado em 1994, sobre como vai ser o mundo financeiro em 2020.

No documento, Charles S. Sanford, Jr., que foi chairman de uma organização chamada Bankers Trust, começa por explicar que vai fazer tudo para evitar fazer referências a termos como “empréstimos” e “valores mobiliários”. E continua: “Vou evitar o termo ‘bancos’ porque, certamente, os bancos como os conhecemos não vão existir”.

“Filas para os telefones públicos vão acabar”

É outra preocupação patente no trabalho de Charles S. Sanford, Jr.: as enormes filas para usar telefones públicos, que não vão existir no mundo de 2020: “Vemos que mesmo os tecnólogos têm dificuldade em adaptar-se às novidades. Ainda assim, não tenho dúvidas de que é muito pouco provável que os filhos deles, mergulhados na tecnologia de hoje, tenham de estar numa fila para o telefone público quando forem a força dominante no mercado de trabalho, muito antes de 2020″, aponta.

O pensamento, explica, foi-lhe espoletado por um relatório de julho de 1993, escrito por um observador que esteve na Conferência Mundial Digital, que decorreu em Los Angeles nesse ano, o qual o autor cita: “Tendo em conta que esta era uma conferência sobre tecnologias digitais para pessoal da indústria, vi muito pouca gente a tirar notas em computadores portáteis; 99% estava a usar papel e caneta. Também vi muito poucos telefones móveis com eles e, consequentemente, as filas para os telefones públicos eram longas.”

“Viciados com capacetes de realidade virtual”

Charles S. Sanfors, Jr. vai ainda mais além e garante que, no documento, apenas irá focar-se nas tecnologias que já existiam na altura. Não em “especulações” sobre “invenções” do futuro.

“Este paper debruça-se sobre o impacto de tecnologias já disponíveis. Não entra em especulações à Buck Rogers (ou à Star Trek, dependendo da sua idade e referências). E não fala sobre viciados com capacetes de realidade virtual em cubículos como se fossem ermitas”, aponta. Mesmo sem intenção, o autor, se falhou, foi por pouco.

“Mercado global estará instalado”

“De facto, em 2020, um mercado verdadeiramente global estará instalado, com toda a gente — indivíduos, empresas, investidores, organizações e governos — ligada através de linhas telefónicas, cabos e ondas de rádio”, escreveu o autor, em 1994.

Com a massificação da internet a partir do final da década de 90, esta previsão não podia estar mais certa: “Com o toque de um botão, as pessoas vão ter acesso a outros indivíduos e a enormes bases de dados em todo o mundo. Esses acessos vão estar sempre disponíveis através de telefones, televisões interativas, postos de trabalho e outros ‘assistentes pessoais’ à mão que combinem todas essas funções.”

“As organizações vão estar ‘totalmente conectadas’ para que os seus computadores capturem informação externa ou gerada internamente, analisem a mesma e a tornem instantaneamente disponível a qualquer pessoa autorizada”, sublinha o autor.

“Vão existir milhares de agências de rating

Charles S. Sanford, Jr. previu nesse mesmo documento que, em 2020, poderiam existir milhares de agências de rating nos mercados financeiros globais.

“Hoje [1994] temos apenas um pequeno grupo de agências de rating reconhecidas. Em 2020 teremos centenas — talvez milhares — de fornecedores especializados de notícias, dados e análise que irão providenciar boletins interativos, a pedido, em tempo real ou especialmente desenhadas para a noção de risco particular de cada subscritor”, indica.

Dependendo do ponto de vista da análise, é possível considerar esta previsão ou muito errada ou totalmente certeira. Apesar de nunca ter existido tanta informação disponível, de forma tão instantânea e desenhada à medida, atualmente, só quatro agências de rating são reconhecidas oficialmente pelo Banco Central Europeu: Standard & Poor’s, Moody’s, Fitch e DBRS.

Outras previsões para 2020

  • Cientistas vão criar órgãos plásticos em laboratório (1986). A previsão foi feita por John F. Magee, então chairman da Arthur D. Little, e publicada no The New York Times no domingo de 8 de junho de 1986: “A combinação entre plásticos e células humanas artificiais vai permitir aos cientistas criar artérias e órgãos que não vão ser rejeitados pelo corpo. Um objetivo: o fabrico de pâncreas, que produz insulina, uma hormona em falta nas pessoas com diabetes”, referia o artigo. “Em 2020, vai ser um mercado de dois mil milhões de dólares, ou mais.”
  • China vai ser principal destino turístico (1999). A 3 de outubro de 1999, o mesmo jornal escrevia que, em 2020, a China seria o país com o maior número de turistas em todo o mundo, apontando para os 130 milhões de visitantes anuais. Essa posição é ocupada atualmente por França, que recebeu 86,9 milhões de visitantes em 2017.
  • EUA vão enfrentar crise severa em 2020 (1991). A 17 de março de 1991, o The New York Times fazia referência a um livro que vaticinava um futuro nada brilhante para os EUA: “Algures em 2020, uma crise massiva vai ocorrer nos EUA. Comparativamente com a Revolução Americana ou a Guerra Civil, será ‘um grande ponto de viragem na história americana'”, citava o jornal.
  • População de Manhattan vai diminuir em 21% (1969). Muito antes de o centro de Nova Iorque ser o que é hoje, um artigo no jornal apontava para uma previsão pouco animadora para a cidade: “Entre 1970 e 2020, o Estado estima que a população de Manhattan caia de 1,54 milhões para 1,217 milhões”, lia-se. Porém, em 2017, a população de Manhattan já era de 1,629 milhões, muito acima dessa previsão.
  • Casas vão ser totalmente feitas de aço (1911). Thomas Edison, inventor da lâmpada incandescente, previu que “a casa do próximo século vai ser toda mobilada com aço desde o sótão até à cave, a um sexto do custo atual [1911] — um aço tão leve que será tão fácil mover um armário quanto é hoje erguer uma cadeira da sala de estar”.
  • Livros vão ser impressos em folhas de níquel (1911). Na senda dos metais, Edison previu também, nesse ano, que em 2020 os livros não seriam impressos em papel, mas sim em folhas de níquel, “tão leves que um leitor será capaz de ter uma biblioteca num único volume”.

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António Costa

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