Carreiras: Estágios em tempo de pandemia

A Advocatus foi conhecer a história de quatro licenciados que iniciaram a sua carreira e foram confrontados com a Covid-19.

António. Duarte. Miguel. Raquel. São apenas quatro rostos dos milhares de advogados estagiários que estão a começar a lançar cartas no mundo da advocacia. Mas estes quatro licenciados não vivenciaram de um início semelhante ao de muitos outros colegas de profissão.

Com o início da sua carreira a setembro de 2019 e inscritos para o estágio da Ordem dos Advogados (OA), a estreia nas sociedades de advogados foi acompanhada por uma pandemia. Apesar deste “contratempo”, à Advocatus os estagiários fazem um balanço positivo dos primeiros meses nas firmas.

“Tenho trilhado um, ainda curto, mas intenso, percurso de aprendizagem. A profissão é sem dúvida exigente, mas a curiosidade pelos temas, as boas relações entre colegas e o trabalho em equipa mitigam significativamente o stress que lhe é inerente”, refere Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro, estagiário da SRS Advogados.

Também Miguel Dinis Lucas, advogado estagiário da Morais Leitão, assegura que o primeiro ano foi de aprendizagem diária e de crescimento “constante” e “exponencial”. Já Raquel Goldschmidt, estagiária na Morais Leitão, salienta que a “proximidade entre os advogados e colaboradores, bem como a disponibilidade que nos é demonstrada, potencia o nosso desenvolvimento e permite-nos enfrentar o dia-a-dia com a confiança necessária para o exercício da nossa atividade”.

“Este primeiro ano de estágio foi um ano de iniciação e de integração. De iniciação na prática forense, conhecer o dia-a-dia de uma sociedade, aprender algumas tarefas básicas e até saber funcionar com algumas ferramentas de gestão internas; e de integração numa estrutura tão grande e com tantas pessoas”, conta à Advocatus António Brás Simões, estagiário da PLMJ.

Ainda assim, António refere que algumas expectativas saíram frustradas e “ainda bem”, segundo o próprio. “Estou a referir-me, essencialmente, ao mito de que o estágio numa grande sociedade é passado a tirar fotocópias e a servir cafés. De resto, e em geral, todo o trabalho que tenho vindo a desenvolver tem sido interessante e entusiasmante. É claro que também há algumas tarefas menos desafiantes ou para as quais não tenho a mesma motivação, mas mesmo nesses casos sei que estou a aprender e a evoluir. Tudo faz parte”, explica.

Ciente da dinâmica e do dia-a-dia da profissão, Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro garante à Advocatus que as expectativas foram correspondidas até ao momento. “Tenho a vantagem de trabalhar com diversos profissionais que se debruçam sobre inúmeras temáticas, o que permite incluir na minha formação uma apreciação global dos mais diversos temas de direito processual e substantivo”, nota o advogado estagiário da SRS.

António Brás Simões: “Tentar encontrar alguma normalidade em tempos de absoluta anormalidade

António Brás Simões integra o escritório do Porto da PLMJ e a sua primeira rotação foi realizada na área de corporate M&A, sendo que em setembro transitou para a de direito público.

Licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e atualmente mestrando em direito administrativo na mesma faculdade, refere que um início de carreira inserido numa pandemia foi um desafio e que exigiu um esforço de todos de forma a “tentar encontrar alguma normalidade em tempos de absoluta anormalidade”.

António Brás Simões, advogado estagiário da PLMJ

“Nenhum de nós alguma vez viveu num contexto de pandemia, a ter de usar máscara, desinfetar as mãos regularmente, a não poder cumprimentar as pessoas normalmente, a não poder estar com os familiares e amigos com que sempre estivemos. Creio que nos primeiros meses o medo era generalizado; o medo do desconhecido e a incerteza do futuro. Tudo isto vai muito além da carreira e do escritório”, refere o advogado estagiário.

Apesar da “anormalidade” referenciada, António Brás Simões garante que não sentiu qualquer tipo de pressão extra no seu trabalho, antes pelo contrário. Desde o início da pandemia que o espírito adotado foi de entreajuda e equipa.

Mas com o decretar do estado de emergência, o estagiário da PLMJ afirma que o volume de trabalho diminuiu em algumas áreas, consequência da suspensão da economia, em que as empresas e o investimento retraíram-se, e da interrupção judiciária. Período de tempo que aproveitou para preparar a tese de mestrado.

"Creio que nos primeiros meses o medo era generalizado; o medo do desconhecido e a incerteza do futuro. Tudo isto vai muito além da carreira e do escritório.”

António Brás Simões

Advogado estagiário da PLMJ

“Não obstante esta diminuição, algumas áreas conheceram um crescimento no seu volume de trabalho: estou a lembrar-me, por exemplo, da área de laboral mas não só. Ainda assim, e sem incorrer num discurso de uma espécie de ‘guru’ do empreendedorismo, assisti a um esforço generalizado para se criar trabalho, para as áreas se reinventarem e encontrarem oportunidades”, acrescenta.

Apesar de ser da opinião que os estagiários ganham em estar “fisicamente junto dos advogados e colocar as suas dúvidas e partilharem ideias junto deles”, António Brás Simões viu-se obrigado a regressar à secretária de sua casa após o decretamento do estado de emergência. “No entanto, por força das reuniões semanais de área, da facilidade de ligar aos colegas e colocarmos as nossas dúvidas e até de trabalharmos no mesmo documento simultaneamente, essa distância física foi mitigada”, refere.

Duarte Tenreiro: “Foi preocupante o período que se seguiu ao decretar do estado de emergência”

Uns quilómetros mais abaixo que o estagiário da PLMJ, encontra-se Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro na SRS Advogados, em Lisboa. Integrando a equipa de contencioso e arbitragem, o advogado estagiário conta que tanto a firma como a Ordem dos Advogados (OA) facilitaram a adaptação do seu plano às circunstâncias impostas pela pandemia.

“É decerto evidente que foi preocupante o período que se seguiu ao decretar do estado de emergência, principalmente para um profissional em início de carreira. Foram circunstâncias que suspenderam por completo o itinerário que idealizámos sem termos uma previsão do momento em voltaria a ser possível retomá-lo”, explica à Advocatus.

Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro, estagiário da SRS Advogados

Segundo o licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mestrando em direito forense na Universidade Católica Portuguesa, com o decretar do estado de emergência existiu uma diminuição do volume de trabalho, “principalmente no que concerne à chegada de novos assuntos”.

“Com a diminuição do volume de trabalho acresce a preocupação da sociedade com a faturação e consequente cumprimento dos objetivos traçados anualmente o que, em certa medida, contribui para um aumento da pressão no trabalho”, assegura Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro.

Ainda assim, o advogado estagiário da SRS garante que a Covid-19 não afetou de forma alguma o seu período de aprendizagem.

"Não senti que a minha formação tenha sido de qualquer forma afetada, apesar de não ser fã do regime [de teletrabalho].”

Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro

Advogado estagiário da SRS

“Com a imposição do regime do teletrabalho fomos obrigados a adotar os meios virtuais disponíveis para nos mantermos em contacto, o que se revelou mais eficiente do que o previsto. Por essa razão, não senti que a minha formação tenha sido de qualquer forma afetada, apesar de não ser fã do regime”, nota Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro.

Miguel Dinis Lucas: “O teletrabalho permitiu uma melhor conciliação entre a vida laboral e a pessoal

Inserido no departamento de corporate, Miguel Dinis Lucas iniciou, em setembro de 2019, o estágio na Morais Leitão. O iniciante no setor tem ainda colaborado “mais estritamente” com a Team Genesis – equipa multidisciplinar que centra a sua ação na assessoria jurídica a startups/emerging companies e a investidores de capital de risco.

Para o advogado estagiário, o principal impacto da pandemia foi a adoção do trabalho remoto. “Talvez porque a minha geração se caracteriza por ser altamente recetiva ao uso de novas tecnologias, acredito representar grande parte dos meus colegas quando afirmo que o teletrabalho permitiu uma melhor conciliação entre a vida laboral e a pessoal sem descurar e, em alguns casos, até aumentando, a produtividade em relação aos seis meses anteriores à pandemia”, explica.

Miguel Dinis Lucas, advogado estagiário da Morais Leitão

 

Ainda que o teletrabalho tenha sido uma mais-valia, a pandemia provocou uma indivisão do espaço de trabalho e de casa, “o que fez com que tanto os advogados como todos os colaboradores estivessem sempre conectados e prontos a responder”, refere.

“Porém, a eliminação da barreira física entre escritório e casa não fez com que a pressão no trabalho aumentasse até porque, na minha ótica, esta aumenta com as responsabilidades atribuídas a cada um e não com a maior flexibilidade de horários que se verificou”, nota o licenciado pela Universidade Católica Portuguesa.

Para o advogado estagiário da Morais Leitão, o volume de trabalho manteve-se igual com o estado de emergência, tendo aumentado em alguns momentos.

"Talvez porque a minha geração se caracteriza por ser altamente recetiva ao uso de novas tecnologias, acredito representar grande parte dos meus colegas quando afirmo que o teletrabalho permitiu uma melhor conciliação entre a vida laboral e a pessoal.”

Miguel Dinis Lucas

Advogado estagiário da Morais Leitão

“Apesar de a pandemia ter obrigado a sociedade e os seus colaboradores a explorarem formas alternativas de trabalhar, o acompanhamento e a orientação dada aos advogados estagiários em nada foram reduzidos”, acrescenta Miguel Dinis Lucas.

Raquel Goldschmidt: “A Covid-19 afetou relativamente o meu percurso na sociedade

Licenciada em direito pela faculdade da Universidade de Lisboa e mestranda em Ciências Jurídico-Criminais, Raquel Goldschmidt incorpora o departamento de criminal e compliance da Morais Leitão.

Com a pandemia, a advogada estagiária refere que conseguiu uma maior conciliação entre a vida profissional e pessoal através do teletrabalho adotado pela firma.

“Na fase do estágio uma parte importante da aprendizagem é realizada através da partilha constante entre os advogados mais jovens e os advogados mais experientes que demonstram e transmitem as ferramentas necessárias para o exercício da profissão. No entanto, o recurso a meios telemáticos permitiu o contacto constante entre a equipa mitigando os potenciais efeitos causados pela adoção do trabalho remoto”, acrescenta.

Raquel Goldschmidt, advogada estagiária da Morais Leitão

Questionada se com a pandemia que o mundo atravessa a pressão no trabalho aumentou, Raquel Goldschmidt refere que a advocacia é uma profissão de grande rigor, disciplina e responsabilidade e que a “pressão no trabalho é inerente às responsabilidades atribuídas, quer na fase de aprendizagem, enquanto advogado estagiário, quer ao longo da carreira”.

Ainda assim, assegura que não sentiu um aumento da pressão na sociedade, salientando apenas uma maior exigência do sentido de autodisciplina por parte dos advogados e de todos os seus colaboradores, “atento o esbatimento das fronteiras entre o escritório e casa e a inerente flexibilização de horários”.

"A Covid-19 afetou relativamente o meu percurso na sociedade, em particular o ritmo crescente e constante de aprendizagem. Não obstante, a pandemia determinou que fossem exploradas formas alternativas de trabalhar.”

Raquel Goldschmidt

Advogada estagiária da Morais Leitão

A advogada estagiária da Morais Leitão sentiu ainda um desaceleramento no volume de trabalho, mas afirma que o departamento em que se insere procurou desenvolver outras atividades, como webinares e legal alerts relativos às questões jurídicas suscitadas com a pandemia e o estado de emergência.

A Covid-19 afetou relativamente o meu percurso na sociedade, em particular o ritmo crescente e constante de aprendizagem. Não obstante, a pandemia determinou que fossem exploradas, pela Morais Leitão e pelos seus colaboradores, formas alternativas de trabalhar, pelo que foi assegurando cabalmente o acompanhamento e a orientação dada aos advogados estagiários”, reflete Raquel Goldschmidt.

Teletrabalho, escritório ou regime misto?

Enquanto alguns advogados estagiários têm a possibilidade de ficar em casa, em regime de teletrabalho, outros já se encontram a full time nas secretárias dos escritórios. Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro é um dos exemplos.

Depois de três meses em teletrabalho o escritório voltou à sua rotina habitual com todas as precauções e medidas de segurança exigíveis”, refere o advogado estagiário da SRS.

Na Morais Leitão foi inicialmente adotado um modelo misto, mas desde o dia 31 de agosto que foi retomado o modelo tradicional, com exceção dos grupos de riscos ou pessoas com particulares questões familiares.

Também na PLMJ preparou-se um regresso gradual ao escritório, sendo que atualmente já está em prática o regresso total e permanente, mas com exceções. “No entanto, a sociedade implementou um modelo mais flexível que permite aos advogados e colaboradores optarem por trabalhar alguns dias quer presencialmente, quer em teletrabalho”, refere António Brás Simões.

Mas será que os advogados estagiários, em pleno início de carreira, estão com receio de perder o seu primeiro emprego na área? Se para António Brás Simões esse receio é bom porque faz com que mantenham os “pés bem assentes na terra”, para Duarte de Almeida e Sousa Tenreiro, Miguel Dinis Lucas e Raquel Goldschmidt ainda não sentiram esse sentimento.

O receio de perder o emprego é um receio que, embora permanente, não obstaculiza, dificulta ou perturba o meu dia a dia; é um receio que me faz ter sempre os pés bem assentes na terra, que me dá motivação para fazer mais e melhor, para me superar. Nem chega a ser bem um receio: é a consciência de que a advocacia, atualmente, é altamente competitiva e exigente; quem aspira, como eu, completar o estágio profissional da OA e poder continuar a colaborar com a PLMJ tem de continuar a especializar-se (através, por exemplo, do mestrado e pós-graduações), continuar a investir no seu currículo e, obviamente, dar o seu melhor no trabalho que desenvolve no escritório”, explica António Brás Simões que acredita que a PLMJ tem os olhos postos no futuro, quer continuar a crescer de forma sustentável e a valorizar todos os seus advogados.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Carreiras: Estágios em tempo de pandemia

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião