De 0 a 1.000 milhões. Como nasce um unicórnio?

"Não muda nada" mas muda tudo. Ser unicórnio é valer 1.000 milhões e muito mais. Outsystems e Talkdesk juntam-se ao provável "senhor que se segue", a Feedzai, para tentar explicar como chegaram lá.

“Internamente não muda nada.” É assim, sem artifícios e com os pés bem assentes na terra, que Rui Pereira, cofundador da OutSystems, descreve um dia a dia “normal” de uma empresa portuguesa para o mundo.

“Para já, pelo facto de sermos unicórnio para nós, internamente, não aconteceu nada. Foi um dado novo e muito mediatismo, há mais pessoas a conhecer-nos mas, do ponto de vista da organização, não mudou grande coisa“, desmistifica Rui. No entanto, algo mudou. Pelo menos, cresceu.

Foi a 5 de junho de 2018 que se soube da notícia. Na sequência de uma ronda de financiamento internacional, a empresa chegava a uma avaliação de 1.000 milhões de dólares, tornando-se a segunda fundada por portugueses — depois da Farfetch — a atingir o estatuto de unicórnio. “A OutSystems anuncia o levantamento de 360 milhões de dólares numa ronda de investimento por parte do KKR e do Goldman Sachs”, pode ler-se no documento. “O valor do financiamento coloca a empresa bem acima dos mil milhões de dólares e vai ser utilizado para acelerar a expansão do negócio e novos avanços em I&D em software de automação”.

"Não é por sermos unicórnio que as pessoas ficam mais tempo na empresa.”

Rui Pereira

Cofundador da OutSystems

O processo começou há 18 anos anos quando Paulo Rosado, o CEO da empresa, e os seus quatro cofundadores, decidiram criar uma organização virada para o mundo. “A OutSystems não é uma startup, tem 18 anos. E o principal de todos eles foi ter um propósito, que é o que nos faz levantar todas as manhãs”, explicava Rui Pereira na “Clinic Unicórnios Portugueses”, um evento para colaboradores internos, dirigido sobretudo a trabalhadores envolvidos na transformação digital do grupo (Digital Global Unit), e para alguns convidados.

“Em 18 anos há altos e baixos. Mas há muito mais baixos do que altos. A única maneira de resistir 18 anos é realmente acreditar no que se está a fazer”, acrescentou.

Ao lado de Rui estavam representantes de outro unicórnio, a Talkdesk, e também da Feedzai, apontada por muitos como a próxima startup portuguesa a chegar à avaliação dos 1.000 milhões.

No caso de Raoul Félix, a seu primeiro contacto com um “unicórnio-to-be” foi através de um tweet. No dia em que Cristina Fonseca e Tiago Paiva ganharam o concurso que os levou a Silicon Valley para apresentarem a sua recém-criada ideia de negócio — a Talkdesk — Raoul, ex-colega dos dois engenheiros no Técnico, deu-lhes publicamente os parabéns através do Twitter. Dias depois, a empresa, ou melhor, os dois fundadores, convidavam-no a integrar a equipa. “Mal eu sabia”, conta CTO da Talkdesk, o mais recente unicórnio fundado por portugueses.

No palco do auditório da EDP, Raoul explicou por que fases passou a empresa até chegar à avaliação de mil milhões de dólares. É que se em 2011 a Talkdesk era apenas um protótipo, chegou agora àquilo a que Raoul chamou de Adulthood phase. Isso implica a gestão de equipas maiores — 500 pessoas globalmente –, 1.400 clientes, 200 milhões de chamadas e a gestão de 500 milhões de contactos.

“Temos muitos desafios que queremos resolver, muitas alterações de produto e novas funcionalidades que queremos atacar e estamos à procura de pessoas que consigam ajudar-nos a levar esses desafios para a frente e que queiram fazer parte deste rocket ship, deste desafio que é a Talkdesk”, explicou Raoul.

Mariana Jordão, diretora de operações da Feedzai, fala desse propósito por outras palavras. “Na Feedzai combatemos os bad guys”, brinca. E esse propósito, assegura, serve de trigger na hora de trabalhar, dia após dia, no crescimento de um objetivo comum: a empresa. A Feedzai trabalha em conjunto com 10 dos maiores bancos a nível mundial no combate ao crime financeiro. “A partir do momento em que nós trabalhamos essencialmente com bancos, entidades importantes e muito conservadoras, têm de acreditar que a empresa a nível tecnológico vai ser future proof”, que é como quem diz, à prova de futuro.

Criada por três amigos em 2011, a empresa abriu recentemente um novo escritório, na Austrália, e quer continuar a crescer “de forma rápida e ágil”, reinventando a aproximação ao mercado. “Queremos estar um passo à frente e não um passo atrás”, assegura Mariana.

O segredo para o crescimento, aponta a COO, passa também pela maneira como se olha para cada característica. “A inteligência artificial (AI) é ‘like running water‘, uma autêntica commodity“, assegura. “Sem internet, o mundo para. E a AI tem as mesmas características”.

Gerir o não

Rui Pereira diz que o caminho do zero a unicórnio assenta numa aprendizagem específica: a gestão do não. O “propósito” é importante, as pessoas “e a capacidade de nos agruparmos”. Mas a resiliência, acredita, é fundamental.

É que o caminho para unicórnio prevê muitos zeros. “Quando éramos muito mais pequenos e colocámos a ambição que resulta, de certa maneira, no tema ‘unicórnio’, longe nós estávamos de ter a consciência de que iríamos ser unicórnios. Mas colocámos uma meta que é suficientemente ambiciosa”, conta. Mas como se avalia a “medida da ambição”? “Quando a primeira vez que estabelecemos um objetivo, ele nos parece… parvo”.

“Temos outra meta que é também muito ambiciosa: quando é que chegamos a 10B, aos 10 mil milhões de valorização que agora também parece um bocadinho parva, mas também chegará o tempo, julgamos nós, que não vai ser. Colocamos metas para chegar lá. A única coisa que queremos é continuar a fazer crescer a empresa. E não nos distraímos com unicórnios, A, B ou C. Porque com consistência e resiliência vamos chegar aí”, acrescenta Rui.

Como nasce um unicórnio?

(A)tração de Unicórnio?

Mas, ser unicórnio muda o poder de atratividade da empresa? Rui Pereira acha que não. “Não é por sermos unicórnio que as pessoas ficam mais tempo na empresa (…) Unicórnio não serve para nada a não ser um certo reconhecimento dos media e consequentemente de quem lê os media. Mas para quem estava na dúvida sobre ir para a OutSystems ou não, ser unicórnio ou não ser é ali um incentivo extra. Além disso, não há grandes vantagens em ser unicórnio”, refere.

O nosso grande desafio é ir crescendo a equipa à mesma velocidade que crescemos o negócio.

Mariana Jordão

COO da Feedzai

Raoul discorda. “Talvez mude o nosso poder de atração para o mercado, o facto de agora passarmos a ser chamados de unicórnio nas notícias, realmente mostra presença nesse sentido. Acho que ajuda mas, acima de tudo, não é suficiente. Temos de nos mostrar às pessoas, o espaço em si tem de ser atrativo mas [também] os desafios para as pessoas e a noção de que há espaço para crescimento, missão. Isso é muito mais importante, captar e reter as pessoas para elas continuarem a fazer o seu percurso de crescimento até para outras áreas da empresa. Diria que sim, dá alguma visibilidade mas deve ser usado para reforçar a marca e mostrar às pessoas o que estamos a fazer”.

“Como se consegue crescer em termos geográficos without your wheels falling off. Todas as reuniões implicam que há gente noutro sítio qualquer. O maior desafio de escalar tem a ver com o facto de estarmos a trabalhar numa área tecnológica, precisamos de talento especializado mas de repente há imensas empresas, com imensas vantagens, e muitas contratações competitivas”, assegura Mariana. Por isso mesmo, o “grande desafio é ir crescendo a equipa à mesma velocidade que crescemos o negócio”.

Comentários ({{ total }})

De 0 a 1.000 milhões. Como nasce um unicórnio?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião