2018: unicórnios, IPO e um ano de ouro das startups em Portugal

Farfetch entrou na bolsa de Nova Iorque, Raize na Euronext. E a Talkdesk foi a startup fundada por portugueses que mais rápido se transformou em unicórnio. Passamos em revista o ano 2018.

Dois unicórnios e dois IPO fizeram o ano das startups com DNA português. 2019 será melhor?Ana Raquel Moreira

Dois novos unicórnios, dois IPO concretizados e um anunciado e um grande anúncio para as startups com dedo português. 2018 foi ano rico em novidades e… em boas notícias. A Farfetch, que já dava que falar no ano passado, entrou finalmente em bolsa. E José Neves, português, fundador e CEO da empresa, colocou DNA português em Wall Street, pela primeira vez.

A entrada do capital da empresa em bolsa aconteceu três anos depois de a Farfetch ter alcançado o estatuto de unicórnio — empresa avaliada em mil milhões de dólares — na sequência de uma ronda de investimento de 86 milhões levantada em 2015 e liderada pela DST Global. Na estreia na maior praça financeira do mundo — e depois de uma oferta pública inicial em que foram vendidas 44,2 milhões de ações ao preço de 20 dólares cada, o unicórnio apresentou-se no mercado com uma avaliação de 5,8 mil milhões de dólares.

A empresa, fundada em 2008 em Leça do Balio, foi desde sempre alvo de muito interesse por parte de business angels, sobretudo pela forma como se posicionou no mercado de luxo. No entanto, não foram apenas estes investidores privados que ganharam com a abertura do capital da plataforma de moda de luxo: a Caixa Capital, braço de capital de risco da Caixa Geral de Depósitos, investiu na empresa por altura da Série E de financiamento, aplicando 905.842 euros, o equivalente a um milhão de dólares ao câmbio da altura, e fez o seu investimento crescer na altura da ronda de Série F. Assim, com a chegada da empresa à bolsa nova-iorquina, o valor multiplicou-se por quase seis vezes com o número fixado para o IPO.

Na sessão de estreia, de 20 dólares, as ações passaram para os 27 dólares nas primeiras transações e foram subindo até ao máximo de 30,60 dólares por ação, o que reflete uma valorização de 53%. No final do primeiro dia, o saldo não poderia ser melhor. As ações fecharam a valer 28,45 dólares, uma valorização de 42,25%. Ou seja, uma avaliação em bolsa de 8,11 mil milhões de dólares, mais de oito vezes o valor a que a Caixa Capital entrou. Atualmente, a posição do fundo vale mais de oito milhões.

De IPO em IPO

Mas a Farfetch não foi a única. A Raize, startup portuguesa que é uma plataforma de crowdfunding para PME, anunciou no início do ano que estava a preparar o IPO na bolsa nacional. A entrada na Euronext aconteceu meses depois do anúncio e, na estreia, a startup viu os títulos darem um pulo de 10% para 2,20 euros por ação, com mais de 49 mil ações a trocarem de mãos e com a procura a superar em quase quatro vezes a oferta. A oferta foi subscrita em 369% numa operação avaliada em 1,5 milhões de euros, para uma capitalização inicial de dez milhões. No total, participaram 1.419 investidores, a maioria investidores de retalho, mas também alguns investidores institucionais.

A mesma Raize terá servido de inspiração à Science4You, cuja entrada em bolsa — agendada inicialmente para 21 de dezembro — foi adiada para 8 de fevereiro. Ainda que não tenha cancelado a Oferta Pública de Venda (OPV), a empresa que produz brinquedos anunciou que iria prolongar a operação — que dura desde 28 de novembro — até 1 de fevereiro. Miguel Pina Martins, CEO da empresa, justificou a decisão com um novo contrato de liquidez com um intermediário financeiro.

Promovidos a unicórnio

Em junho, a abrir o segundo semestre o ano, a OutSystems tornou-se unicórnio. O feitiço, como escreveu o ECO na altura, foi avançado pelo jornal Financial Times e confirmado pela empresa em comunicado.

“A OutSystems anuncia o levantamento de 360 milhões de dólares numa ronda de investimento por parte do KKR e do Goldman Sachs. (…) O valor do financiamento coloca a empresa bem acima dos mil milhões de dólares e vai ser utilizado para acelerar a expansão do negócio e novos avanços em I&D em software de automação”. Com 700 trabalhadores e a operar em 52 países, a OutSystems quer ser líder no mercado do desenvolvimento rápido de aplicações. A empresa tinha, segundo o FT, receitas de 100 milhões de euros e um crescimento anual a 70%.

Liderada por Paulo Rosado, a empresa fundada há 17 anos dedica-se a combater um dos maiores problemas que as empresas enfrentam atualmente: a falta de velocidade e agilidade do desenvolvimento tradicional de software, um impedimento da transformação digital em todo o mundo. A empresa, que tem a sede no Porto, continua a crescer em território nacional e anunciou, em fevereiro deste ano, a instalação de um centro de inteligência artificial e machine learning — o Projeto Turing — para desenvolver e transformar o atual ciclo de desenvolvimento de software.

Mais tarde, a surpresa-unicórnio do ano. Ao contrário das apostas — que apontavam para que o próximo unicórnio português fosse a Feedzai –, a ronda de financiamento liderada pela Viking Global no valor de 100 milhões de dólares garantiu à Talkdesk o título de unicórnio, o terceiro com ADN português e o segundo de 2018.

A empresa fundada por Cristina Fonseca e Tiago Paiva em 2011, que desenvolve software usado por empresas para os serviços de call center, passou a estar avaliada em 1,2 mil milhões de euros depois da ronda de financiamento. Com a ronda de financiamento, a Talkdesk deverá desenvolver três áreas específicas. “Temos um plano ambicioso de chegar aos 1.000 engenheiros até 2020 e investir no produto; para expansão comercial, com a contratação de equipas de marketing; e numa terceira área, para reforçar a aposta no mercado europeu”, contava Marco Costa, diretor-geral da Talkdesk, em conversa com o ECO no início de outubro.

WS x 10

E, depois de três anos em Lisboa — e de muita especulação e até apostas — o Web Summit decidiu ficar em Portugal por mais uma década. A continuidade, avançada pelo ECO em agosto e confirmada pelo Governo, pela Câmara Municipal de Lisboa e a organização do evento a 3 de outubro, fechou meses de negociações. Lisboa venceu a competição contra cidades como Madrid, Berlim, Valência, Londres ou Paris.

Os números da continuidade do Web Summit em Lisboa.Infografia: Lídia Leão

Portugal vai pagar, por ano, 11 milhões de euros para manter o maior evento de tecnologia e empreendedorismo do mundo em Lisboa. Mas o número mais impressionante vai para a cláusula de rescisão: 340 milhões de euros por ano, se a organização irlandesa decidir ir embora antes do período acordado.

Na edição de 2018, o Web Summit contou com uma assistência de quase 70 mil pessoas durante os quatro dias de evento na FIL e no Altice Arena, no Parque das Nações. O retorno do evento, para 11 milhões anuais de investimento, está estimado em 300 milhões de euros, de acordo com as contas do Governo.

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