Assim se prepara o Natal na Science4You, a “Autoeuropa dos brinquedos”

No coração da Science4You, há mais de duas centenas de operários a preparar o Natal de milhares de crianças. No piso de cima, Miguel prepara o processo de entrada em bolsa, adiada para 8 de fevereiro.

Em Loures, há uma pequena Lapónia. Entre os tão diversos armazéns do Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, vai nascendo o Natal, passo a passo, peça a peça. Os jovens operários organizam-se ao longo da linha de montagem e vão casando as várias componentes dos kits de ciência que tantas crianças encontrarão debaixo da árvore. As máquinas ronronam e o leve burburinho dos trabalhadores vai marcando o compasso.

“Somos uma Autoeuropa em ponto pequeno”, explica o homem de fato azul e barba escura, que acompanha o ECO nas várias etapas da preparação em curso da tão afamada “época mais mágica do ano”. Chama-se Miguel Pina Martins e, em 2008, com 50 mil euros no banco e “muita vontade de trabalhar”, começou a Science4You, marca portuguesa de brinquedos que está agora a preparar a sua estreia na praça bolsista nacional. O processo está a ser mais difícil do que o previsto e, no final da semana passada, foi decidido prolongar o prazo da operação até 1 de fevereiro.

Na fábrica de 12 mil metros quadrados, Miguel move-se com confiança, cumprimentando todos os trabalhadores (quase todos, com rostos visivelmente juvenis) pelo primeiro nome. Está em casa em todo o espaço compreendido entre os quatro cais de entrada e os quatro cais de saída, que constitui o berço de todos os produtos desta marca. Uma marca que quer competir com os grandes clássicos da indústria: do Monopólio à Barbie, não esquecendo o Lego.

Enquanto conta ao ECO essas aspirações, Pina Martins fita com atenção a linha de montagem que ocupa o centro da fábrica (uma de um total de três). Sobre essa passadeira rolante, múltiplos exemplares de uma das “novidades deste ano” vão tomando forma. “Está a sair pela primeira vez”, adianta, com orgulho visível, o empreendedor.

Uma caixa rosa, múltiplos frascos com corantes, ácidos e algumas outras poções e uns óculos de proteção compõem o Ciência Brilhante. Cada kit que sai desta passadeira rolante é, nota o empresário, como um dos carros fabricados em Palmela, já que as suas múltiplas partes têm origens diversas, mas a sua montagem e preparação para o mercado acontecem num único local.

“Já não estamos no pico”, sublinha Miguel, adiantando que os momentos mais intensivos, em termos de produção — de preparação para o Natal — acontecem em setembro. Esta tarde, essa azáfama já está longe, estando na fábrica pouco mais de 200 operários (o mínimo). De acordo com Miguel Pina Martins, essa equipa que se mantém para lá da sazonalidade já pertence aos quadros da empresa, enquanto que as mãos emprestadas para a preparação da grande noite de dezembro são, geralmente, temporárias.

Ainda que o pico produtivo seja em setembro, Miguel confessa, por outro lado, que, na Science4You, o Natal é “um bocadinho como as campanhas eleitorais”. Isto é, começa a ser preparado no dia a seguir às eleições. “Em janeiro, já estamos a produzir material para o Natal, porque será aí que haverá um boom de vendas”, explica. Para o Natal de 2017, revela, foram produzidos um milhão de kits.

Em 10 anos, 500 produtos. Como nascem?

Ainda junto à linha de montagem onde estão a nascer os kits Ciência Brilhante, Miguel Pina Martins explica como, ano após ano, a sua marca tem criado novos produtos para “divertir e educar” as crianças.

A origem de tudo, diz o empreendedor, são as sessões de brainstorming com cientistas, marketeers e outros membros da empresa, contando ainda a inspiração colhida nas feiras internacionais e, claro, na própria concorrência.

Em dez anos de existência, a Science4You já desenvolveu mais de 500 produtos diferentes: do tradicional vulcão ao best-seller Fábrica de Slime. Desses, estão ainda à venda cerca de 150, ganhando essa linha, este Natal, pelo menos, dois novos companheiros: o Ciência Brilhante — que está a nascer na linha de montagem central — e a Fábrica de Bolachas — cuja montagem está a acontecer na passadeira mais atrás.

“O nosso grande ponto é conseguir ter sempre ideias novas. O mercado precisa de inovação. Os produtos que divertem as crianças enquanto essas aprendem são o futuro”, conta Miguel, agarrando, desta vez, uma das formas incluídas na segunda novidade referida. “Estamos numa chamada fashion industry, precisamos de estar na moda, o que funciona um bocadinho como uma montanha russa”, acrescenta.

Sobre o produto mais popular da marca, o empreendedor mostra-se esperançoso e diz que é “apenas a ponta do iceberg“. “O futuro está direcionado para produtos em que as crianças estão a aprender e a divertir-se”, insiste.

Mercado luso é “difícil”. Vive-se “clima promocional”

Mais à direita no largo berço onde nascem os brinquedos científicos de Miguel Pina Martins, entre as altas pilhas de encomendas prontas a serem concretizadas, o empreendedor confessa que o mercado português é “muito agressivo”, porque vive “muito em clima promocional”. Por isso, o fundador da Science4You vê a exportação como o caminho certo para o futuro da sua marca, porque não acredita “que possa haver uma expansão muito grande” por terras lusitanas.

Apesar disso, o mercado português ainda é o mais forte desta empresa, seguindo-se o britânico e o espanhol. No total, a Science4You já está em 50 países de todo o mundo.

Uns metros à frente, no cais de saída, onde as caixas com destinatários hispânicos, polacos e até russos formam um pequeno labirinto, Miguel adianta que o Reino Unido é o mercado que mais tem captado a sua atenção e sublinha que até o mercado russo tem um potencial “muito grande” na indústria dos brinquedos.

Britânicos e russos à parte, o empreendedor acrescenta rapidamente que o seu melhor cliente é mesmo a Amazon. “É onde vendemos mais brinquedos”, assegura.

Ir para a bolsa? “Sabemos que é um risco”

Foi a 8 de novembro deste ano, durante a segunda edição lisboeta da maior feira de tecnologia do mundo, que Miguel Pina Martins anunciou a entrada da sua empresa na bolsa. A Science4You lançou, assim, uma Oferta Pública de Distribuição de ações correspondente a até 45% do seu capital. Na operação serão vendidos títulos já existentes, mas também novas ações a emitir no âmbito de um aumento de capital. E, na passada sexta-feira, a empresa pediu ao regulador para alargar a oferta de ações, que iria terminar a 21 de dezembro, para contratar um “market maker”. A oferta, aprovou a CMVM mais tarde, será prolongada até 1 de fevereiro, sendo o apuramento dos resultados feito a 4 de fevereiro. A entrada em bolsa no índice Euronext Growth está prevista para 8 de fevereiro.

“É uma oportunidade para os fundos mais antigos saírem e aumentar capital”, explica ao ECO, o empreendedor, sentado agora na grande sala de reuniões da empresa. As paredes estão forradas com brinquedos: do primeiro da marca ao mais recente.

Sobre a sua chegada à praça nacional, Miguel diz que tem “expectativas muito altas”, mas garante: “Sabemos que é um risco, mas também sabemos que, na vida, temos de arriscar. Não temos medo de não correr bem. Não há problema nenhum, a vida continua”.

Admitidamente inspirado pela operação da pequena Raize, o pai da Science4You salienta que o “risco, a diferença e a inovação” fazem mesmo parte do ADN da sua marca.

A propósito, de largo sorriso no rosto, Miguel recorda a história deste projeto, nascido no seu último ano no ISCTE, durante uma das cadeiras do seu curso. Depois de ter passado quatro meses na sala de mercados do Banco EuroBic, o empreendedor entrou nesta aventura com 45 mil euros da Portugal Ventures, 1.125 euros do seu próprio bolso e mais algumas notas, fruto de um peditório que foi fazendo pela universidade.

“A 30 de janeiro de 2008 nasce a Science4You, com 50 mil euros na conta bancária, um plano de negócios e muita vontade de trabalhar”, lembra, referindo que, nesse ano, fizeram 50 mil euros em vendas. No ano passado, nove anos depois, passaram a fasquia dos 20 milhões de euros, frisa. Apesar disso, 2017 não foi o ano dos sonhos, já que a queda do império da Toys’R’Us deixou “mazelas”.

“Errei muito, a empresa começa com muitos erros, com muito pouco dinheiro e com uma ideia que não é completamente disruptiva“, continua o empresário.

Miguel admite que, na altura, não tinha muito em risco, mas conclui que, em Portugal, não é fácil arriscar, porque “quando se falha é-se um falhado”, fica-se com uma “nódoa” no currículo.

No seio deste cofre das suas vitórias e derrotas dos últimos dez anos, o empreendedor apela, por isso, à inovação e ao diferente, sublinhando que só assim poderá Portugal crescer verdadeiramente e voltar, quiçá, à glória desses primeiros empreendedores: os heróis da época áurea dos Descobrimentos.

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