É (mais do que) um restaurante. É um projeto de reinserção social

Pensado pela Crescer, este "É um restaurante" quer tirar, por ano, 24 pessoas das ruas, dando-lhes ferramentas para voltarem ao mercado de trabalho. Tudo a partir de um restaurante em Lisboa.

Rissóis de berbigão e salicórnia com sabor a mar. Tiborna de escabeche de pato e uvas tintas com sabor a memórias da casa dos avós. Salada de beterraba com laranja e sésamo com frescura de uma mesa de amigos. Trabalho como prenúncio de uma vida nova. “É um restaurante” onde se servem pratos de conforto e de partilha mas esta ementa inclui muito mais do que alimentos para o estômago. De cada vez que aqui entrar e comer, ajuda a faturar vidas novas.

Francisco é chefe de sala do É um restaurante.D.R.

“A ideia vem de 2016 e surge como uma maneira de integrar as pessoas no mercado de trabalho. Sentimos que as pessoas nos pedem diariamente para integrar o mercado de trabalho e há uma série de barreiras. Queremos ajudá-las a ser mais autónomas e saírem da situação de vulnerabilidade em que se encontrem”, explica Américo Nave, diretor executivo da associação Crescer, que desenvolveu o projeto, em entrevista ao ECO.

Pensada em conjunto com a câmara de Lisboa e, aliando a parceiros tão variados como a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, o Instituto do Emprego e Formação Profissional, a Adega Mayor, o projeto Crack Kids Lisboa, a agência The Hotel – Room for ideas, a fundação Ageas, a Segurança Social ou o chef Nuno Bergonse, este “É um restaurante” é muito mais do que um sítio de encontro de amigos. É um local onde as vontades se encontram e uma plataforma de transformação de vidas.

Direcionado para pessoas que vivem na rua ou que consomem ou consumiram substâncias psicoativas, a ideia é que durante um ano, os participantes do programa se preparem para reintegrar o mercado de trabalho. Este processo começa com um curso de formação de um mês na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. Seguem-se duas semanas de formação a Crescer, onde os participantes desenvolvem skills de relações interpessoais. Depois, seis meses on job no ‘É um restaurante’ e, finalmente, mais seis meses num estágio profissionais. “Depois integram o mercado de trabalho”, simplifica Américo.

"Não é um trabalho de apagar fogos, é uma inclusão na sociedade total, direta. ”

Nuno Bergonse

Chef consultor do É um restaurante

“O grande desafio inicial foi o sentido de grupo: sentirem que são uma equipa, que precisam todos de se ajudar mutuamente e de contar uns com os outros. Era uma coisa que não existia. Trabalhar estas características no início foi bastante complicado, mas com o tempo eles próprios foram-se entendendo enquanto equipa. O segundo grande desafio foi o facto de todos eles terem muitas dúvidas quanto às suas capacidades, por todas as razões. Foi sendo muito presente, e que ainda hoje é”, conta Alexandra Evaristo, psicóloga da Crescer e que acompanha de perto todas as pessoas que participam na iniciativa.

E se o caminho dos últimos meses foi exigente, com a abertura do restaurante, o trabalho não está feito, “de todo”. “Vai ser o arranque, o meu trabalho será permanente até as pessoas saírem do projeto — o objetivo é que sejam integradas em respostas de empregabilidade adequadas e nas quais eles tenham interesse em entrar”, explica Alexandra, acrescentando que “trabalhar com este público é desafiante em todos os sentidos, mas de forma muito positiva. Toda a motivação e toda a vontade que todos eles têm, apesar das dificuldades, é o motor que permite que eu, em conjunto com eles, consiga trabalhar aquilo que é necessário para que consigam efetivamente organizarem-se e estar aqui hoje“.

100 entrevistas, 14 escolhidos

“Não foi fácil e, obviamente, nem toda a gente tinha perfil”, confessa o chef Nuno Bergonse sobre as cerca de 100 entrevistas que fez para escolher os primeiros 14 empregados do ‘É um restaurante’. A trabalhar com a Crescer para o projeto Marhaba — que organiza eventos em volta da mesa, acolhendo refugiados vindos da Eritreia e da Síria –, Nuno recebeu com naturalidade o convite para ajudar em mais uma “empreitada”. Consultor do ‘É um restaurante’ desde o primeiro dia, tem ajudado o projeto a crescer, a partir da cozinha, da qual é chef consultor — o chef operacional e David Jesus, que estará todos os dias no restaurante.

A equipa da Crescer envolvida no projeto do É um restaurante.

A expectativa da Crescer, com este projeto, é poder formar e reintegrar no mercado de trabalho 24 pessoas por ano, que passarão por todo o processo de formação, capacitação e procura de um regresso ao mercado.

“Este é o projeto inicial mas é óbvio que é replicável em qualquer parte do mundo, porque infelizmente há pessoas num estado de pobreza grande no mundo inteiro. É um projeto piloto e podemos agarrar nesta fórmula e pô-la noutro canto do mundo”, diz o chef, acreditando no potencial escalável do ‘É um restaurante’.

“Acompanhei o projeto desde o início: as obras, a construção do projeto, a carta, a formação destas pessoas, as entrevistas, a parte da sala, o recrutamento das pessoas”, explica sobre esta “plataforma” que, mais do que alimentar pessoas desfavorecidas, “colocou essas pessoas em situação vulnerável a trabalhar e a cozinhar para alimentar toda a gente”. “O objetivo é criar um negócio sustentável à volta de uma ação. Não é um trabalho de apagar fogos, é uma inclusão na sociedade total, direta. E isso é mais difícil mas é muito mais interessante, mais útil e mais vantajoso”.

É um projeto piloto e podemos agarrar nesta fórmula e pô-la noutro canto do mundo.

Nuno Bergonse

Chef consultor do É um restaurante

Entre os principais desafios de execução do projeto estiveram, asseguram os mentores, a ausência de rotinas, um comportamento social “mais delicado e sensível” e, também, a falta de confiança nas próprias capacidades. “Muitas destas pessoas não trabalham há 10, 15 anos. Mas o que é comum a todas é que todos querem mudar de vida. Isso demonstra a todos os parceiros que vale a pena ajudar”, acrescenta o chef.

Numa primeira fase, o ‘É um restaurante’ abrirá apenas para jantares. A ideia é que a equipa esteja dividida em dois grupos: o da manhã trata das preparações enquanto o da tarde fica a cargo do serviço. “A ementa assenta numa cozinha de partilha e de conforto, sem ser assumidamente conservadora mas com uma essência de ingredientes portugueses. A comida é importante? Sim, é. Mas mais do que um restaurante, é relevante toda a filosofia que está por trás do projeto. O restaurante é importante mas o mais importante é a inclusão social destas pessoas: é daqui a dois ou três meses garantir que elas têm competências para estar no mercado de trabalho”, reforça Nuno Bergonse.

O primeiro restaurante da Crescer, que contacta com cerca de 2.000 pessoas anualmente, fica na Rua de São José, em Lisboa. O preço por pessoa varia entre os 20 e os 25 euros.

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