Presidente deve trabalhar para criar pontes e unir os partidos para uma estratégia de longo prazo, defendem empresários. Representação internacional também é "muito importante" num mundo em mudança.
A três dias de os portugueses irem às urnas escolher o próximo Presidente da República, os empresários ouvidos pelo ECO traçam o perfil que gostariam de ver em Belém. Ser mobilizador em torno de uma estratégia de futuro, colocar o país à frente dos interesses partidários e ter capacidade de representação num mundo que enfrenta desafios, lideram a lista de prioridades definidas para o próximo Presidente da República.
As presidenciais do próximo dia 18 de janeiro terão o maior número de candidatos a Belém. Com tudo em aberto, é quase certa uma segunda volta para escolher o próximo chefe de Estado. Com um primeiro-ministro em São Bento com um Governo minoritário e um mundo em grande mudança, em que relações bilaterais e “amizades” são postas em causa, o Presidente da República deve procurar manter a estabilidade e assegurar a representação institucional do país a nível internacional, argumenta um grupo de empresários questionados pelo ECO.
Sem identificar preferências entre candidatos, os empresários avisam que o país precisa de uma estratégia de futuro. Ainda que não caiba ao chefe de Estado governar, nem fazer leis, o mais alto representante da Nação pode — e deve — mobilizar os partidos em torno desta estratégia de longo prazo, ajudando o País a convergir com a Europa e a melhorar as condições de vida dos portugueses.

“Já gastámos as pilhas todas”, avisa José Germano de Sousa. Ao próximo Presidente da República, o CEO do Grupo Germano de Sousa e presidente da Associação das Empresas Familiares pede “estabilidade“. “Tem de se pensar a longo prazo e definir uma estratégia para o país. É preciso criar consensos para construir políticas de futuro, associadas à produtividade para o país. O presidente tem de ser um mobilizador disto”.
O empresário defende que, em termos macroeconómicos, “é preciso pensar grande, para o futuro e ser muito pragmático em relação à produtividade“. “Senão é como o monopólio quando já se vendeu as coisas grandes e em três voltas vamos à falência“.
É preciso pensar grande, para o futuro e ser muito pragmático em relação à produtividade, senão é como o monopólio quando já se vendeu as coisas grandes e em três voltas vamos à falência
“Eu acredito muito em política de mercado, agregada a uma política social. Há dois ou três candidatos que se encaixam neste perfil”, refere o líder da empresa de análises clínicas. “Tem de haver regras muito claras para o empresário conhecer as regras do jogo. Tudo isto acoplado a políticas sociais”, reforça.
Vítor Neves, presidente da AIMMAP (Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal) e chairman da Colep Packaging Portugal, concorda com esta visão de futuro. “Além das funções que lhe estão atribuídas pela Constituição portuguesa, como o garante das instituições e ser um unificador do Povo português, o Presidente da República deve ser um catalisador e provocador de mudança, no sentido de sermos mais exigentes para podemos convergir com a Europa e melhorar as condições de vida dos portugueses. Nos últimos 10 anos perdeu-se esse sentido de exigência”, lamenta.

O empresário reforça o papel do Presidente como um “catalisador de mudança e fator de exigência de progresso dentro do país para mudarmos no sentido que o povo vota”. Ou seja, cabe-lhe a “responsabilidade de garantir que se faz o máximo esforço para que esses objetivos — votados em eleições legislativas — possam ser executados”, permitindo ao país “progredir e alcançar os objetivos votados e que são muito poucas vezes alcançados.
O chairman da Colep Packaging Portugal, que fatura 119 milhões de euros e emprega cerca de 700 colaboradores em Portugal, Espanha, Polónia e México, considera que “falamos demasiado em estabilidade e pouco em exigência“. “A estabilidade deverá ser um meio para atingir um fim e nunca pode ser um fim em si própria”, justifica, acrescentando que “devemos ser exigentes para convergir com a Europa”.
António Carlos Rodrigues, CEO do Grupo Casais, também destaca a necessidade de manter uma visão de longo prazo, focada na competitividade. “O próximo Presidente da República deve ter a capacidade de criar pontes entre o Governo e os partidos da oposição. Vivemos com um Governo sem maioria e, nos últimos 52 anos, tivemos cinco Presidentes da República e 25 Governos constitucionais (mais 6 provisórios) — esta rotatividade dificulta uma visão de longo prazo e limita a nossa competitividade”, alerta.
O próximo Presidente da República deve ter a capacidade de criar pontes entre o Governo e os partidos da oposição. Vivemos com um Governo sem maioria e, nos últimos 52 anos, tivemos cinco Presidentes da República e 25 Governos constitucionais (mais 6 provisórios) — esta rotatividade dificulta uma visão de longo prazo e limita a nossa competitividade.
“Para ajudar o país a ganhar estabilidade e previsibilidade, o Presidente deve conhecer bem o funcionamento das instituições e a dinâmica política, para exercer a magistratura de influência com sentido de equilíbrio”, acrescenta.
Já no plano internacional, o líder da construtora bracarense nota que o chefe de Estado “precisa de uma leitura sólida das dinâmicas internacionais”. “O mundo está em mudança acelerada e o Presidente deve saber gerir essas alterações com diplomacia, sentido estratégico e muita astúcia, defendendo o interesse nacional e a posição de Portugal”.

Carlos Moreira da Silva, empresário e acionista da BA Glass, destaca que “em Portugal temos um regime semi-presidencialista, o presidente tem um papel muito institucional que é importante para garantir o equilíbrio e a relação entre várias forças de poder”.
Quanto ao “estilo [presidencial] tem muito a ver com a pessoa. Pode ser igualmente eficaz com diferentes formas de atuar”. Independentemente do perfil do novo Presidente, diz que “todos devem estar disponíveis para trabalhar com quem os portugueses elejam. Se é mais interventivo ou menos depende muito da pessoa”.
O também presidente da Associação Business Roundtable Portugal, que representa as maiores empresas nacionais, destaca ainda que espera que o futuro chefe de Estado “ajude na representação externa”. “O presidente tem um papel mais importante na representação”, aponta. “É muito importante para Portugal quer a União Europeia, quer a NATO, mas também outros países com quem temos uma relação muito importante, sobretudo num tempo muito desafiante de formação ou ‘desformação’ de blocos. O Presidente tem de ter a capacidade de ouvir e articular posições“, avisa.
“O presidente deve ser quem faz o equilíbrio de poderes. Tem a capacidade de magistratura dos diferentes poderes”, conclui.
Para Maria Cândida Rocha e Silva, presidente do Conselho de Administração do Banco Carregosa, a função de representação do Presidente da República é também destacada como uma das mais importantes. “O lugar do presidente da República é um lugar que tem duas vertentes: como alto magistrado da Nação, em que promulga ou não determinado decreto-lei; e outra de representação”, explica a histórica banqueira que fundou o Banco Carregosa e que foi a primeira mulher a exercer o cargo de corretora oficial da bolsa de valores portuguesa.
Lembro-me sempre da visita do professor Marcelo Rebelo de Sousa à Rainha Isabel II de Inglaterra. A maneira como se encontrou com a senhora e o fez de maneira tão natural, desempenhou as suas funções de maneira exemplar e ao mesmo tempo de maneira tão natural. Achei fantástico. Isto é o que esperamos do presidente da República. Espero que o futuro presidente da República nos represente desta maneira. Passou a ideia que estamos habituadíssimos a um encontro ao mais alto nível. E não estamos.
“Lembro-me sempre da visita do professor Marcelo Rebelo de Sousa à Rainha Isabel II de Inglaterra. A maneira como se encontrou com a senhora e o fez de maneira tão natural, fez de um encontro dificílimo – não temos reis nem rainhas em Portugal – e desempenhou as suas funções de maneira exemplar e ao mesmo tempo de maneira tão natural. Achei fantástico”, recorda. “Isto é o que esperamos do presidente da República. Espero que o futuro presidente da República nos represente desta maneira“, aponta, destacando que Marcelo “passou a ideia que estamos habituadíssimos a um encontro ao mais alto nível. E não estamos“.
“Estas devem ser as grandes exigências de um povo para com o seu presidente da República, a parte da representação: E queremos ser bem representados”, reforça. Para a banqueira, “devem ser estes os parâmetros a dirigir a nossa escolha. Nesta multidão de candidatos, o que lhe pedimos é pouco. É só isto“, destaca, notando que “faz parte a figura e a maneira como estão habituados a relacionar-se”.
Maria Cândida Rocha e Silva salvaguarda que “o papel do Presidente da República não se resume a isto, mas tudo o resto deve ter passado noutros filtros anteriores”. “A parte da legislação que tem de ir à sua aprovação e a representação, são as duas vertentes mais sensíveis“, conclui.

Para César Araújo, presidente da Calvelex e da ANIVEC (Associação Nacional das Indústrias de Vestuário, Confeção e Moda), o Presidente da República “deve ter independência política, ter autoridade moral e ética”. “Deve ter capacidade de diálogo com os partidos e em situações de crise tem de se olhar para o bem do país. Tem de ter sentido de Estado e dever de responsabilidade, separado dos partidos”, acrescenta.
O líder e fundador da Calvelex, empresa que tem cerca de 600 trabalhadores, três unidades de produção e dois centros logísticos, sublinha que “numa situação de crise é que se vê a capacidade de diálogo e responsabilidade que [o Presidente] deve ter”.
Além do seu papel interno, “o presidente também deve ter um papel muito ativo em representação de Portugal lá fora”, destaca o empresário.
Ricardo Silva, CEO da Tintex Textiles e presidente da ATP (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal”, a outra associação do setor, realça que, enquanto empresário, espera “ter estabilidade no país” e “que haja liberdade de fazer negócio e o bem-estar social esteja garantido”.
“Que o presidente possa influenciar numa estratégia de futuro e ajudar a dar uma trajetória ao país“, defende o líder da empresa de Vila Nova de Cerveira fundada pelo pai. “O Presidente deve ter um papel mais de longo prazo e duradouro”, defende.
[Numa situação de crise política] espero que seja imparcial, sem um foco partidário muito definido e consiga ver o país em primeiro lugar, pôr o povo à frente das máquinas. Tenha esta imparcialidade.
“[Numa situação de crise política] espero que seja imparcial, sem um foco partidário muito definido e consiga ver o país em primeiro lugar, pôr o povo à frente das máquinas. Tenha esta imparcialidade”, afirma.
Carlos Barbot, presidente do Grupo Barbot Barbot, destaca que “o Presidente tem de cumprir a constituição”. O líder do grupo centenário, que está presente em Espanha, Angola, Cabo Verde e Moçambique, e vende para mais de 25 países na Europa, África e América, refere que o cargo de Presidente “é muito institucional e cumpre a constituição”. “Tem pouco a ver com a economia do país“, conclui o empresário.
Albano Fernandes, CEO da AMF Safety Shoes, considera que “o mais importante é o Presidente da República garantir a estabilidade institucional e governativa, garantir que o Governo consiga manter o seu mandato, nos próximos três anos”. “Já chegam os problemas geopolíticos a nível internacional, com pouca previsibilidade para os negócios“, alerta a empresa de calçado técnico com sede em Guimarães.

“O Presidente da República deve ter isso como claro e ter a capacidade de fazer pontes entre as várias sensibilidades”, pede, acrescentando que “quando temos um Governo de minoria, a solução passa por um Presidente da República dialogante. Além destas prioridades, Albano Fernandes destaca ainda que o Presidente “tem de fazer cumprir a constituição“.
Com mais de 90% da produção vendida para o exterior, o empresário mostra-se preocupado com a situação internacional, lembrando o papel do mais alto representante da República em termos de representação internacional. “A nível internacional é importante manter uma imagem de respeito pelo direito internacional. Somos um país de direito, democrático. A nossa reputação é fundamental“, aponta.
Em relação à economia, “o Presidente tem de conhecer o que está a acontecer e sensibilizar o Governo do ponto de vista da economia“. “Por fim, tem de ser uma pessoa com ética e credibilidade”.
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Empresários pedem Presidente “mobilizador” e capaz de representar o país lá fora
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