Estes são os 18 nomes que Centeno usa para se legitimar no Banco de Portugal

Mário Centeno não é caso único. O ex-ministro das Finanças e futuro governador do Banco de Portugal disse existirem 18 precedentes por esse mundo fora. Fomos à procura deles.

Afinal, um ministro das Finanças pode sair do Terreiro do Paço e ir diretamente para a Rua do Comércio sem levantar questões relacionadas com potenciais conflitos de interesse e independência?

O atual governador Carlos Costa acha que não e até deu o exemplo de Silva Lopes, que foi ministro e depois “um dos grandes construtores do Banco de Portugal moderno que nós temos”.

O Presidente da República também não vê grandes problemas nessa transição e até deu os exemplos Miguel Beleza (em democracia) e Pinto Barbosa (em ditadura). “Aconteceu sem reparo nenhum quer num caso quer noutro, mas a decisão não é minha, é do senhor primeiro-ministro”, afirmou em maio o Presidente da República.

A decisão é do primeiro-ministro e está tomada. Mário Centeno vai mesmo para o Banco de Portugal, mas primeiro tem de cumprir algumas formalidades, nomeadamente uma ida ao Parlamento para uma audição (não vinculativa) com os deputados da comissão de orçamento e finanças.

Esta formalidade aconteceu esta quarta-feira, numa audição em que, à exceção dos socialistas, quase todos os deputados se mostraram contra a ida de Centeno para o Banco de Portugal por suscitar potenciais conflitos de interesse.

Duarte Pacheco do PSD disse que Centeno “desertou” de ministro das Finanças na atual crise e questionou o ex-governante sobre como vai gerir os conflitos de interesses de decidir no futuro sobre dossiês em que interveio como governante e se irá pedir escusas em matérias relativas ao Novo Banco ou à Caixa Geral de Depósitos. Outros partidos, como o PAN, querem avançar com uma lei que imponha um período de nojo no trânsito entre Governo e Banco de Portugal.

Para Mário Centeno a questão não se coloca: “não há nenhuma lei, em nenhum país do mundo, em que constitua um impedimento” passar de governante a governador do Banco de Portugal.

E falou da Alemanha, Grécia ou Espanha que são países onde vários governantes rumaram dos executivos para os bancos centrais, tendo falado na existência de pelo menos 18 casos. Mas que casos já são esses? O ex-ministro das Finanças não os detalhou no Parlamento, mas o ECO apurou que são estes os casos a que se referia Mário Centeno.

O espanhol Luis de Guindos e o português Mário Centeno.Jasper Juinen/Bloomberg

Podemos começar pelo outro lado da fronteira. Luis de Guindos foi ministro da Economia, Indústria e Competitividade de Espanha até ao dia 23 de fevereiro de 2018. Pouco tempo depois, a 1 de junho, estava a sentar-se na cadeira de vice-presidente do BCE, desocupada na véspera pelo português Vítor Constâncio.

Mark Carney tem tripla nacionalidade: canadiana, irlandesa e britânica. Começou a carreira no Goldman Sachs, depois foi secretário de Estado das Finanças no Canadá e, mais tarde, governador do Banco Central do mesmo país (2008 a 2013). A seguir atravessou o Atlântico para ser governador de um outro banco central, desta feita no Reino Unido. Uma travessia inédita.

Governador do Banco de Inglaterra entre 2013 e 2020.Wikimedia Commons

Jens Weidmann na Alemanha passou diretamente do cargo de assessor pessoal de Angela Merkel para os assuntos económico, um cargo político, para a presidência do todo-poderoso Bundesbank.

Mas na Alemanha há mais casos. Ernst Welteke teve a pasta das Finanças no Estado alemão de Hesse e depois foi designado por Gerhard Schröder para a presidência do Bundesbank.

Depois da demissão de Ernst Welteke, que saiu após um escândalo [conteúdo em inglês] quando se soube que tinha passado, com a família, um fim de ano num hotel de luxo, em Berlim, às custas do Dresdner Bank, entrou o banco central Axel Weber. Weber foi antes membro do German Council of Economic Experts, um grupo de sábios que aconselham o Governo em matérias económicas. Muito antes, Hans Tietmeyer já tinha ocupado a cadeira de governador do Bundesbank, tendo sido também secretário de Estado das Finanças no Governo de Helmut Kohl.

Da Finlândia Mário Centeno foi buscar mais três exemplos. Olli Rehn, o mais conhecido dos portugueses por ter sido comissário europeu responsável pelos Assuntos Económicos e Monetários durante o período da troika, é desde 2018 governador do banco central da Finlândia, dois anos depois de ter sido ministro. Ahti Karjalainen foi duas vezes primeiro-ministro da Finlândia e mais tarde governador do Banco Central. E Erkki Liikanen também foi banqueiro central e ministro das Finanças finlandês.

Olli Rehn é governador do banco central da Finlândia, dois anos depois de ter sido ministro.

Peter Kažimír, esteve dois mandatos como ministro das Finanças da Eslováquia, entre 2012 e 2019, e depois assumiu o lugar no topo do banco central do país. Eslovaco, deixou o Ministério das Finanças cerca de um mês e meio antes de tomar posse. Kažimír foi o “colega eslovaco” no Eurogrupo que Mário Centeno deu como exemplo quando foi questionado em dezembro passado pelo jornal Expresso (acesso pago]) sobre se veria alguma incompatibilidade política ou conflito de interesses no facto de um ex-ministro das Finanças ser governador do banco central.

Do banco central da Noruega chegam mais três exemplos: Svein Gjedsen (foi subsecretário de Estado das Finanças), Kyell Storvik (secretário de Estado das Finanças) e Torstein Moland, secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro e nomeado, em 1994, para o cargo de governador.

Ainda no norte, da Suécia, existem os precedentes de Urban Backstrom que veio da política e da pasta das Finanças para o cargo de governador, tal como o eurodeputado Lars Wohlin.

Finalmente chegamos à Grécia. Yannis Stournaras foi nomeado governador em junho de 2014, o mesmo mês em que pôs fim ao seu mandato de dois anos como ministro das Finanças grego. George Provopoulos e Lucas Papademos fecham a lista dos 18 governadores. O primeiro foi ministro das Finanças e o segundo chegou a primeiro-ministro no tempo da troika, tendo ocupado a vice-presidência do BCE, um lugar que mais tarde viria a ser ocupado por Vítor Constâncio.

Lucas Papademos, foi governador e primeiro-ministro grego.Kostas Tsironis/Bloomberg

Em Portugal, onde Constâncio foi governador, foi prática corrente nos últimos anos uma porta giratória entre as Finanças e a Rua do Comércio. Entre 1986 e 2000, todos os governadores do Banco de Portugal vieram diretamente das Finanças: Tavares Moreira, Miguel Beleza e António de Sousa.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Estes são os 18 nomes que Centeno usa para se legitimar no Banco de Portugal

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião