Fundos de investimento sustentável: Têm melhor desempenho e também falam português

Os investimentos sustentáveis/responsáveis, são estratégias e práticas de investimento que incorporam os fatores ambientais, sociais e de governação nas decisões de investimento.

De acordo com um artigo de janeiro de 2020 da Bloomberg, “nove dos maiores fundos mútuos ESG do mundo nos EUA, tiveram um melhor desempenho do que o S&P 500 em 2019, e sete desses fundos tiveram performances superiores aos seus benchmarks, durante os últimos quatro anos”. Se durante os dez primeiros anos do século XXI muitas dúvidas existiam sobre a rentabilidade deste tipo de fundos, hoje os factos comprovam que os fundos com algum tipo de critérios ambientais, sociais e de governação têm, no mínimo desempenhos semelhantes, e na maioria das vezes, desempenhos superiores aos benchmarks tradicionais.

Os investimentos sustentáveis/responsáveis, são estratégias e práticas de investimento que incorporam os fatores ambientais, sociais e de governação nas decisões de investimento, com o objetivo de melhorar a gestão do risco e gerar retornos de longo prazo (1). Tal significa que as obrigações e as ações que compõem os fundos passaram por uma análise exigente sobre as práticas de sustentabilidade da empresa ou do Estado.

Porquê investir nestes fundos?

De acordo com os dados mais recentes divulgados pela Global SustainableInvestmentAliance, entre 2016 e 2018 o investimento sustentável cresceu em valores absolutos e relativos na maior parte das regiões do mundo. Por isso, o investimento sustentável representa mais de 50% do total de ativos sob gestão no Canadá, Austrália e Nova Zelândia, 48% na Europa, 26% nos Estados Unidos e 18 % no Japão. O estudo avança que este crescimento reflete a crescente conscientização do valor financeiro associado a este tipo de fundos, sendo que muitos investidores afirmam que as principais motivações para investirem neste tipo de fundos são:

  • desejo de minimizar os riscos e melhorar o desempenho financeiro ao longo do tempo;
  • desejo dos investimentos também terem um impacte positivo, de forma a poderem originar benefícios sociais e ambientais ou de cumprir as missões das suas empresas;
  • ajudar no combate às alterações climáticas a ajudar na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

Proporção de fundos ESG sob gestão relativamente ao total de fundos sob gestão

 

Fonte: Global SustainableInvestment Aliance, 2018

Estratégias existentes

Os fundos ESG podem ter várias estratégias de investimento que darão origem a políticas de investimento específicas. A Associação Europeia de Investimentos Sustentável (Eurosif) define a existência das seguintes estratégias que podem ser usadas pelos Fundos ESG:

  • Exclusões por base em valores: Exclusão de empresas que têm uma parte significativa da sua receita ou lucro vindo atividades consideradas negativas pela sociedade, como por exemplo: armas, jogos, pornografia, tabaco, álcool, GMO, energia nuclear, extração de combustíveis fósseis, entre outros.
  • Exclusões por base normas: Exclusão de empresas que violam internacionalmente (ou nacionalmente) normas ou convenções reconhecidas, como os Princípios do Pacto Global da ONU; a Declaração universal dos direitos humanos; a Declaração da Organização Internacional do Trabalho sobre Princípios e direitos fundamentais no trabalho; a Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento, a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, entre outras.
  • Melhores por classe: Seleção de empresas com as melhores práticas ambientais, sociais e governação, existindo uma tendência para de escolher grandes empresas e obrigações.
  • Temas de sustentabilidade: Seleção de empresas em setores ou temas relacionados aos desafios do desenvolvimento sustentável. Os principais temas estão associados às energias renováveis; água; mobilidade; eficiência de recursos; demografia e envelhecimento.
  • Integração ESG: Seleção de empresas cujo Conselho de Administração inclui no processo de decisão, os aspetos sociais, ambientais e de governação. Os principais motivos para se obtar por esta estratégia são a obtenção de vantagens financeiras decorrente da integração dos aspetos ESG e existência de indicadores, gestão de risco e de reputação.
  • Diálogo e Votação: Seleção de empresas com base no diálogo que estabelecem com os investidores e com as práticas de votação para com os vários accionistas.
  • Investimento com impacte: investimentos realizados em empresas, organizações e fundos com a intenção de gerar impactes positivos sociais ambientais, juntamente com um retorno financeiro. Os investimentos geralmente são específicos do projeto, e investidor mantém a propriedade do ativo e espera um retorno financeiro positivo.

Como se pode ver pelo gráfico abaixo, as principais estratégias usadas pelos gestores de ativos são as exclusões com base em valores da sociedade, integração dos temas ESG e, de forma crescente, as práticas da empresa relativamente ao diálogo com investidores e práticas de votação para os vários accionistas.

Estratégias de Investimento Sustentável, 2018

Fonte: Global SustainableInvestment Aliance, 2018

Alguns Fundos de Investimento Sustentáveis em Portugal

Caixa Investimento Socialmente Responsável
“Este Fundo pretende proporcionar aos participantes o acesso a uma carteira diversificada de ativos com diferentes graus de risco/rentabilidade procurando investir em empresas que apresentam as melhores práticas em áreas como por exemplo respeito pelos direitos humanos, impacto ambiental ou gestão de recursos humanos e excluir entidades envolvidas em setores considerados controversos. Para implementar essa filtragem, na componente de ações, o fundo investirá somente em empresas que estejam presentes no STOXX®EuropeSustainabilityIndex, garantindo-se a exclusão de entidades com envolvimento significativo nos setores de tabaco, jogo, armamento ou energia nuclear e, adicionalmente, selecionar as que têm práticas de responsabilidade social no mínimo acima da média do seu setor”.
Prospeto do produto

Santander Sustentável Fundo Misto
“O Fundo Santander Sustentável pauta-se por uma lógica de investimento socialmente responsável (ISR) em empresas que cumprem, para além de critérios financeiros tradicionais, critérios de sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e de melhores práticas de governo corporativo […] seleção individual dos instrumentos financeiros é baseada no resultado do estudo combinado da análise dos elementos de sustentabilidade Ambiental Social e de Governação e da análise dos critérios económico financeiros das empresas ou Estados: estratégias das empresas, gestão dinâmica e direcionada à criação de valor para os acionistas, análise financeira e avaliação das empresas, e os principais rácios da bolsa de valores (preço/lucro, dividendyield, EV/EBITDA, endividamento, composição do balanço).

Para a seleção dos instrumentos e ativos, a Entidade Gestora utilizará um conjunto de informações e ferramentas divulgadas por diversas entidades externas, como por exemplo a Vigeo-EIRIS e Bloomberg. A informação prestada por estas entidades e as correspondentes ferramentas são baseada em normas, recomendações e iniciativas de consenso internacional, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, Convenções fundamentais da Organização Internacional do Trabalho, de entre outras.”
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CAESG Sustentável 2025
“Este é um produto de investimento com base em seguros (PRIIPs), Cupão potencial anual indexado à evolução do Índice STOXX® Global ESG Leaders Select 50 Index® […] Numa primeira fase, são excluídas as sociedades que não cumprirem um ou mais dos dez princípios do Pacto Global da Organização das Nações Unidas. Estes dez princípios universais são relativos a direitos humanos, normas laborais, ambiente e combate à corrupção. A SUSTAINALYTICS determina o risco das sociedades que não respeitam os referidos princípios, atribuindo-lhes um nível de risco que varia entre 1 (risco reduzido) e 5 (risco muito elevado). São excluídas as sociedades classificadas com o nível 5, envolvidas com armamento controverso ou que detenham, de forma indireta, uma participação superior a 10% do capital de tais sociedades. A SUSTAINALYTICS atribui às sociedades uma classificação de 0 a 100 com referência a critérios Ambientais, Sociais e de Governação (ESG). De modo a serem selecionadas, as sociedades deverão ser classificadas no primeiro trimestre relativamente a pelo menos um dos três critérios ESG, e relativamente a todos os três critérios ESG no primeiro semestre. As componentes do STOXX® Global ESG Leaders Select 50 Index são selecionadas com base neste processo”.
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Futuro dos Fundos ESG

Uma das ações que a Comissão Europeia está a realizar no âmbito do Plano de Ação para a Sustainable Finance, está relacionada com divulgação de informação sobre como os temas ESG foram, ou não, incorporados na criação de um fundo. Esta iniciativa da CE chama-se “Institutional investors and asset managers duties regarding sustainability” e já existiu uma proposta de de regulação sobre a informação a divulgar relativamente a investimentos sustentáveis e riscos ESG, que teve um período de consulta pública, aguardando-se por decisões sobre o texto final.

Podemos concluir que os Fundos ESG, passarão a ser mais e mais difundidos, uma vez que existirá uma regulação que irá exigir que se comunique de que forma os temas ESG foram incorporados na seleção dos ativos. Pode-se, obviamente, continuar a construir fundos sem critérios ESG, mas as entidades terão de dizer expressamente que esse fundo não incluiu critérios ESG nem uma análise de risco ESG quando se selecionou os ativos do seu portfólio.

(1) Fonte: https://www.unpri.org/pri/an-introduction-to-responsible-investment/what-is-responsible-investment

  • Economista especializada em sustainable and climate finance

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