Hospitais criam linhas de apoio psicológico para ajudar quem ajuda

Devido à pandemia, há linhas de apoio psicológico para os profissionais de saúde em hospitais do Serviço Nacional de Saúde e no privado, para ajudar a superar a pressão laboral em tempos de crise.

Um vírus desconhecido e sem cura. Medo, ansiedade, stress, frustração, burnout e sensação de culpa. Estes são alguns dos sentimentos experienciados pelos profissionais de saúde que têm estado na linha da frente do combate ao novo coronavírus, que chegou a Portugal em março deste ano, tornando-os um dos grupos profissionais mais vulneráveis para as questões da saúde mental. Para dar apoio a estes profissionais, foram criadas linhas telefónicas de apoio psicológico internas, nos hospitais do SNS e do setor privado. Do outro lado da linha estão psicólogos que, em turnos rotativos, asseguram que este apoio está disponível 24 horas por dia.

“Não é verdadeiramente uma psicoterapia ou um apoio psicológico prolongado, mas é para trabalhar medos, receios, ansiedade, culpa, raiva e o burnout que todos os profissionais, pela Covid-19, necessitam”, começa por contar André Carvalho, neuropsicólogo no grupo Lusíadas Saúde e do Hospital Amadora Sintra, e um dos psicólogos que trabalha nestas linhas de apoio.

André conhece a realidade do setor hospitalar público e privado mas não faz distinções. Para os profissionais de saúde, a pandemia gera “medo do desconhecido”, sentimentos de culpabilidade e frustração por não saberem se estão contagiados e receio de poderem contagiar os mais próximos. Por isso, a necessidade deste apoio é urgente, nem sempre pelo excesso de doentes de Covid que têm de ser tratados, mas porque de repente, os hospitais tiveram de se ajustar a ritmos e procedimentos completamente diferentes.

Uma das coisas mais stressantes é cumprir as normas de segurança e proteção individual, tal como a colocação dos equipamentos de proteção individual (EPI), que muitas vezes têm uma sequência muito rígida”, esclarece o neuropsicólogo. Além disso, estes equipamentos aquecem muito o corpo, desidratam e submetem os profissionais de saúde a condições ambientais de trabalho muito diferentes das que são habituais dentro de um hospital.

O impacto de não estar sozinho

“Começou a perceber-se rapidamente que os profissionais, devido ao stress e ao medo do desconhecido, começavam a apresentar padrões de alteração do ritmo do sono, muito stress e conflituosidade entre si”, relata. Para quem atende o telefone, o primeiro passo é tentar compreender o problema, perceber os recursos que a pessoa tem para lidar com esse problema e o que deve fazer para atuar.

“Se percebermos que a pessoa serena, numa segunda fase o profissional está no hospital e combinamos uma consulta presencial com um psicólogo clínico e com um psiquiatra”, esclarece André Carvalho. No Hospital Amadora Sintra, o apoio presencial é possível, quando necessário, porque muitos dos psicólogos continuam a trabalhar no local.

Uma das coisas mais stressantes é cumprir as normas de segurança e proteção individual, tal como a colocação dos equipamentos de proteção individual (EPI), que muitas vezes têm uma sequência muito rígida e as pessoas também precisam de ajuda para os colocar.

André Carvalho

Neuropsicólogo no grupo Lusíadas Saúde e no Hospital Amadora Sintra

O neuropsicólogo conta que estas linhas de apoio psicológico são procuradas por enfermeiros, médicos, diretores de serviço, de qualquer profissional de saúde, clínico ou não clínico. Para os profissionais de saúde, esta ajuda pode ter um impacto positivo, principalmente em contexto de pandemia, na forma como gerem equipas, tomam decisões e, em último caso, comunicam com os doentes. Por outro lado, a pandemia e o contexto de crise funcionaram como “gatilho” para a consciencialização de problemas que já existiam. Este apoio psicológico pode representar uma “experiência reparadora” com grande impacto em pouco tempo.

“O facto de se sentirem ouvidos, de sentirem que existe uma equipa que os pode ajudar a suportar, que não estão sozinhos, que validamos que aquilo que estão a sentir é normal, e tentamos negociar uma rotina nova, são coisas mínimas que fazem muita diferença num curto espaço de tempo“, assegura André Carvalho.

É importante frisar que isto está a ser experienciado pelos profissionais de saúde que são decisores, que dirigem este serviço e equipas. Eles próprios estão a sentir a eficácia e a gratificação deste apoio em termos de saúde mental.

André Carvalho

Neuropsicólogo no grupo Lusíadas Saúde e no Hospital Amadora Sintra

Também importante é considerar os hospitais como organizações, que têm lideranças e equipas que precisam de trabalhar em conjunto. “É importante frisar que isto está a ser experienciado pelos profissionais de saúde que são decisores em serviço e equipas. Eles próprios estão a sentir a eficácia e a gratificação deste apoio em termos de saúde mental”, ressalva o neuropsicólogo.

No futuro, uma das soluções poderá passar pela integração deste tipo de medidas nos departamentos de saúde organizacional das empresas, na medicina do trabalho ou através de um “gabinete da saúde mental”, defende. “Uma intervenção pontual ou uma semana num serviço resolver uma situação de conflito na equipa: é impressionante o rápido efeito que estas medidas têm junto dos profissionais e das equipas”, exemplifica.

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