Gestores portugueses pedem mais 'leveza' fiscal e regulatória para as empresas poderem enfrentar com força uma época de desafios tecnológicos e geopolíticos.
- O Governo português deve reduzir a carga fiscal e burocrática, para aumentar a competitividade e o investimento, segundo gestores de grandes empresas.
- Os CEO destacam a necessidade de um ambiente fiscal estável e simplificado, com apelos para a redução de escalões do IRS e desburocratização dos processos administrativos.
- A incerteza geopolítica e a transformação digital são desafios significativos para os setores, exigindo ações rápidas para garantir o crescimento e a inovação em 2026.
O Governo tem de reduzir o peso fiscal e burocrático, de forma a permitir às empresas portuguesas competirem e contribuírem para o acelerar do crescimento económico ao investirem no talento e na tecnologia, numa era marcada por enormes desafios geopolíticos, digitais e energéticos. A par de prioridades mais específicas – como a resolução dos problemas no Aeroporto Humberto Delgado – é esta a linha geral da lista de tarefas que os gestores de grandes empresas portuguesas, principais sociedades de advogados e consultoras têm para o Executivo de Luís Montenegro para 2026.
“Fiscal” é uma das palavras mais frequentes nos depoimentos que 44 CEO partilharam com a redação do ECO. Os apelos neste campo têm três vertentes. Questionado sobre a principal decisão que o Governo deve tomar em 2026, João Bento, CEO dos CTT, responde que, “tendo que escolher uma, optaria por prosseguir de forma muito mais vincada a política de redução do garrote fiscal para as pessoas e as empresas, concretamente, reduzindo para cinco ou menos o número de escalões do IRS e eliminando a derrama estadual que penaliza as empresas bem-sucedidas, a começar nas médias que são rentáveis”. O mesmo termo ilustrativo – garrote fiscal – é empregue também por António Portela, CEO da Bial.
A segunda vertente tem a ver com a previsibilidade. Para Manuela Vaz Soares, CEO da Accenture Portugal, uma das “prioridades claras” é “garantir um ambiente fiscal e regulatório estável que incentive a modernização tecnológica das PME e atraia mais investimento estrangeiro”.
Marta Graça Ferreira, CEO da Real Vida Seguros, sublinha que é preciso estabilizar a fiscalidade dos PPR, fundos de pensões e seguros de capitalização, “introduzindo benefícios fiscais específicos que sejam uma parcela isolada dos demais, e premiando quem mantém a poupança até à reforma e desencorajando o uso destes produtos como depósitos líquidos. Pede também para as PME “um incentivo fiscal com um regime simples de planos de pensões e seguros de capitalização, para que possam oferecer benefícios de reforma de forma competitiva”.
A CEO da seguradora leva-nos, dessa forma, para a terceira vertente fiscal sobre a qual os CEO querem ação governativa — a simplificação. Para Miguel Farinha, country managing partner da EY em Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde, a decisão mais transformadora será simplificar o sistema fiscal e aliviar a carga sobre o trabalho. “Hoje, a complexidade fiscal e os custos elevados para quem emprega e para quem trabalha são barreiras à competitividade e ao crescimento”, vinca.

Burocracia não pode atrasar investimento
Mas o apelo à simplificação não se esgota à esfera fiscal e, aliás, o pedido para o Governo acelerar a desburocratização e descomplicar a regulação é quase transversal. Thomas Hegel Gunther, diretor-geral da Volkswagen Autoeuropa diz que seriam de principal importância decisões que contribuam para o aumento da competitividade nacional, “como exemplo, a simplificação dos processos administrativos e em especial os licenciamentos associados a novos investimentos, novos processos, adaptação a nova legislação, com diminuição dos tempos de resposta de entidades envolvidas“. O gestor alemão explica que “tendo em conta a rápida transformação em curso na indústria automóvel, as decisões de investimento estrutural não podem ser atrasadas pela burocracia”.
Ricardo Pires, CEO da holding industrial Semapa, acredita que o Governo deve criar condições reais para que as empresas invistam, cresçam e sejam competitivas. “Isso passa por simplificar processos, reduzir a incerteza regulatória e melhorar os fatores de competitividade como, por exemplo, a energia a preços competitivos”.
Alerta ainda que “o país não pode continuar a perder oportunidades por excesso de burocracia, falta de previsibilidade ou atrasos na execução”.
Segundo Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, processos mais simples e eficientes estimulam o investimento, “reforçam a competitividade e impulsionam a inovação, maximizam o valor da Inteligência Artificial (IA) e potenciam novas tecnologias”.
As oportunidades, os desafios e os riscos da IA

Ao Governo, António Brochado Correia, CEO da PwC Portugal, pede “o fortalecimento nacional de formação em matérias de inteligência artificial, onde o país está atrasado relativamente aos seus pares“. O tema da IA é, naturalmente, abordado por quase todos os CEO, mas especialmente nas respostas à segunda pergunta que o ECO colocou, nomeadamente sobre os riscos e oportunidades que anteveem para os respetivos setores em 2026.
Vitor Ribeirinho, CEO KPMG Portugal e Angola, também salienta que “é necessária uma aposta estruturada na capacitação e formação transversal da sociedade”. “O crescimento económico sustentado depende diretamente da preparação das pessoas, pelo que é essencial um investimento claro em programas de requalificação e aprendizagem contínua que acompanhem a evolução tecnológica”, defende.
“Em 2026, o setor bancário deverá continuar a evoluir num contexto exigente, mas também com oportunidades”, refere Mark Bourke, CEO do Novobanco. “A integração num dos maiores grupos financeiros europeus – o BPCE – reforçará a nossa missão de ser o banco de confiança que apoia as famílias e as empresas ao longo da sua vida”, explica, adiantando, contudo que “por outro lado, os progressos na digitalização e na aplicação da inteligência artificial continuarão a ser alavancas fundamentais para melhorar a experiência dos clientes, aumentar a eficiência e apoiar de forma ainda mais próxima e personalizada as famílias e empresas portuguesas”.
Bruno Ferreira, managing partner da PLMJ, identifica no lado dos “desafios” do setor da advocacia “mais do que riscos”, a adoção da inteligência artificial. “Mais do que pensar no impacto que terá num futuro mais ou menos próximo em termos de pessoas, preocupa-me sobretudo que a adoção de IA possa, numa primeira fase, comprometer a qualidade do trabalho – como é que garantimos que a adoção é generalizada e feita com total rigor ético e profissional é algo que os vai ocupar certamente em 2026 e nos anos seguintes”.
Inovação e talento de mãos dadas

A tecnologia e as questões do talento são inseparáveis para muitos CEO. “Vamos continuar a assistir a um período de acelerada transformação na área de serviços profissionais e tecnologia, em que a nova realidade tecnológica está a redefinir o mercado de trabalho e, de forma mais abrangente, o próprio conceito de sociedade”, salienta António Lagartixo, CEO da Deloitte Portugal, sobre o impacto nas consultoras. “Perante este cenário, parece-me que as organizações destes setores têm de olhar de forma cuidada para dois importantes eixos estratégicos de desenvolvimento: a inovação tecnológica e o talento”.
Ricardo Mendes, CEO da Tekever, empresa líder na produção de drones de reconhecimento e que se tornou no mais recente ‘unicórnio’ português com uma avaliação acima de mil milhões de libras, também fala em capacidades e tecnologia. Portugal deve assegurar previsibilidade nos programas de defesa, respondendo ao contexto europeu que exige maior coordenação e resiliência, refere.
“Priorizar tecnologia nacional reforça capacidades críticas, fortalece cadeias de valor internas e gera impacto económico duradouro”, explica, sublinhando que “uma estratégia estável permite planear com responsabilidade e garantir que o país mantém autonomia e relevância internacional”.
Perturbações geopolíticas

Outro pano de fundo que deverá marcar o ano de 2026 é o da geopolítica, depois de um 2025 turbulento. “Como principal risco vejo o ambiente geopolítico, em particular na Europa. Teremos que viver com um grau de incerteza muito superior ao que nos habitámos nos últimos 40 anos…”, lamenta Isabel Castelo Branco, CEO da BPI Vida e Pensões.
A incerteza geopolítica é referenciada por gestores de empresas em setores variados. “Não podemos subestimar a incerteza geopolítica nem a concorrência asiática, fatores com impacto relevante na indústria automóvel”, alerta Hegel Gunther, da Autoeuropa. Por sua vez, o setor agroalimentar enfrentará um contexto exigente, marcado por tensões geopolíticas e instabilidade nas trocas comerciais”, antecipa Jorge de Melo, CEO da Sovena.
“Em 2026, o retalho será impactado pela instabilidade económica, incerteza geopolítica e pressão regulatória, o que exigirá equipas ágeis e resilientes”, avisa, Pedro Cid, CEO da Auchan Retail Portugal.
No lado eletrónico do comércio, João Bento, dos CTT, reconhece que as crescentes tensões geopolíticas “podem causar perturbações nas cadeias de abastecimento”. Mas há o outro lado da moeda. “Apesar da instabilidade, o e-commerce deverá continuar a crescer a um ritmo acelerado na Península Ibérica e a introdução de taxas aduaneiras sobre os produtos extracomunitários poderá servir como impulsionador das vendas dos comerciantes locais, tornando-os mais globais”.
Salvador de Mello, CEO do Grupo José de Mello, reconhece que, do lado dos riscos, “a instabilidade geopolítica e a crescente competição oriunda da China exigem da Europa tomadas de decisão corajosas e das empresas europeias maior escala, agilidade e resiliência”.
O sucesso dependerá “da nossa capacidade de inovar, de crescer e de nos afirmarmos internacionalmente e de qualificar as nossas pessoas para enfrentar um mercado global cada vez mais exigente e fragmentado”, conclui.
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Menos burocrático e mais tecnológico. Como 44 CEO querem ver Portugal em 2026
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