Os empregos do futuro são verdes

72 milhões de empregos vão desaparecer até 2030 devido ao efeito das alterações climáticas, como as secas, inundações, desastres ambientais, entre outros.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) define empregos verdes como: “empregos decentes que contribuem para preservar ou restaurar o ambiente, seja em setores tradicionais, como manufatura e construção, ou em novos setores verdes emergentes, como energia renovável e eficiência energética.”

Identifica também que os empregos verdes ajudam a:

  • Melhorar a eficiência energética e de matérias-primas
  • Limitar as emissões de gases de efeito estufa
  • Minimizar o desperdício e a poluição
  • Proteger e restaurar ecossistemas
  • Apoiar a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas

Os empregos verdes estão mais presentes no mundo, do que inicialmente possamos pensar.

De certo modo todos os empregos existentes estão relacionados com o equilíbrio ambiental. De acordo com a OIT, os empregos em muitos setores (por exemplo, agricultura, mineração e energia baseada em combustíveis fósseis) dependem diretamente dos recursos naturais e das emissões de gases com efeitos de estufa, enquanto outros setores, em virtude das ligações económicas, dependem deles indiretamente. Direta e indiretamente, certos empregos dependem também dos serviços que os ecossistemas fornecem gratuitamente, como por exemplo empregos na agricultura, pesca, silvicultura e turismo.

Em muitas situações, os empregos e a qualidade do trabalho também dependem da ausência de riscos ambientais (como tempestades e poluição) e a manutenção da estabilidade ambiental (por exemplo, temperaturas dentro de uma faixa particular e padrões de precipitação previsíveis). Em 2014 cerca de 1,2 mil milhões de postos de trabalho, ou seja 40% do emprego mundial, foram sustentados por indústrias que dependem direta ou fortemente de serviços dos ecossistemas.

Mesmo num cenário de mitigação eficaz das mudanças climáticas, o aumento da temperatura resultante levará à perda do equivalente a 72 milhões de empregos em tempo integral até 2030 devido ao stress sobre o planeta que esse aumento da temperatura irá originar (1).

Se a luta contra as alterações climáticas vai originar o surgimento de novos setores de atividade por um lado, indo também levar à perda de emprego por parte de outros setores, o que sabemos é que, de qualquer forma 72 milhões de empregos vão desaparecer até 2030 devido ao efeito das alterações climáticas, como as secas, inundações, desastres ambientais entre outros.

Apenas para o setor da energia, a OIT, estima que as mudanças na produção e uso de energia para alcançar a meta de 2°C pode criar cerca de 18 milhões de empregos em toda a economia mundial até 2030. Estas alterações incluem uma mudança para fontes de energia renováveis e maior eficiência, a adoção significativa de veículos elétricos e a existência de uma reabilitação e construção para maior eficiência energética. Esta estimativa de crescimento líquido do emprego resulta da criação de cerca de 24 milhões de novos empregos e da perda de cerca de 6 milhões de empregos até 2030.

A definição de empregos verdes está intimamente relacionada com a ambição do Pacto Ecológico Europeu em transformar a Europa numa sociedade eficiente na utilização dos recursos e descarbonizada. Na realidade, o Pacto Ecológico da Comissão Europeia é uma “nova estratégia de crescimento que visa transformar a UE numa sociedade equitativa e próspera, dotada de uma economia moderna, eficiente na utilização dos recursos e competitiva, que, em 2050, tenha zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa e em que o crescimento económico esteja dissociado da utilização dos recursos” (2).

A Comissão Europeia reconhece que “para se concretizar o Pacto Ecológico Europeu, é preciso repensar as políticas com vista a um aprovisionamento energético limpo transversal a toda a economia: indústria, produção e consumo, grandes infraestruturas, transportes, alimentação e agricultura, construção, política fiscal e prestações sociais” (3).

Assim, a economia verde abrange de forma direta os seguintes setores (Burkart, 2012) (4).

  • Energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, das ondas marinhas, biogás e células de combustível);
  • Edifícios verdes (reaproveitamentos e auto-geração de energia e eficiência hídrica, avaliações residenciais e comerciais; produtos verdes e materiais, construção e LEED);
  • Transportes limpos (combustíveis alternativos, transportes públicos, veículos híbridos e elétricos, carsharing)
  • Gestão da água (recuperação de águas fluviais poluídas, manutenção das paisagens marítimas, purificação de água, gestão de águas pluviais);
  • Gestão de resíduos (reciclagem, recuperação de resíduos sólidos urbanos, recuperação de terrenos industriais, limpezas dos solos, embalagens sustentáveis, logística reversa);
  • Gestão da terra (agricultura orgânica, conservação e restauração de habitats, parques e florestas urbanas, sequestro de carbono);

Abrangendo de forma indireta muitos outros setores, como por exemplo:

  • Indústria Transformadora, através dos materiais que estava pode produzir para serem utilizados nos setores acima;
  • Indústria Automóvel, através das mudanças no fabrico dos automóveis associados à necessidade de se terem transportes mais limpos;
  • Indústria das Tecnologias de informação, através dos serviços e tecnologias digitais que podem ser produzidas para a obtenção de equipamento mais eficiente;
  • O setor agropecuário, através das mudanças no processo de produção agrícola e animal, de forma a que estas atividades tenham um menor impacte ambiental;
  • O setor do turismo, através da utilização de equipamento mais eficiente e da oferta de serviços de turismo que tenham um menor impacte ambiental e maior ligação com a comunidade;
  • O setor financeiro, através da análise do risco ambiental dos projetos que procuram por financiamento e da disponibilização de fundos para investirem em projetos que promovam uma economia de baixo carbono e com impacte social positivo;
  • O setor da educação através da necessidade que existe em capacitar os cidadãos para estas matérias.

Se pensarmos que um emprego verde é aquele que contribui para preservar ou restaurar o ambiente, então conseguimos compreender que o número de empregos verdes será crescente, sendo necessário que as empresas consigam reportar os seus empregos verdes. Recorde-se que, no âmbito da Diretiva de informação não financeira em revisão final pela Comissão Europeia de momento, as empresas abrangidas poderão ter de reportar o OPEX verde, o que implica também calcular os empregos verdes criados na organização. Se a política fiscal evoluir, também poderá fazer sentido existir uma fiscalidade específica para aquelas organizações com uma maior % de empregos verdes.

É assim importante que as organizações comecem a usar a definição da OIT para poderem contabilizar os empregos verdes diretos e indiretos que consegue criar. Esta será uma variável relevante para as empresas em transição para um paradigma sustentável, mas que ainda têm uma pegada ecológica significativa.

1 – https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—dgreports/—dcomm/—publ/documents/publication/wcms_628654.pdf

2 e 3 – https://eur-lex.europa.eu/resource.html?uri=cellar:b828d165-1c22-11ea-8c1f-01aa75ed71a1.0008.02/DOC_1&format=PDF

4 – Burkart, K., 2012. How to define the ‘green economy’. Disponível em: http://www.mnn.com/greentech/researchinnovations/blogs/how-do-you-define-the-green-economy

  • Economista especializada em sustainable and climate finance

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