Preço do gás natural pode duplicar para os 100€/MWh no inverno, avisam analistas

Diz a Bloomberg que os preços do gás natural estão tão altos que equivalem a mais de 100 euros por barril de petróleo. E ainda podem duplicar no inverno. As contas da luz podem subir 20% na Europa.

Os preços futuros do gás natural estão a bater recordes na Europa, ao mesmo tempo que a quantidade de matéria-prima que chega da Rússia não para de cair (menos 20% face à média para esta altura do ano). No início desta semana, os contratos de gás TTF (Title Transfer Facility), transacionados na Holanda e que são uma das principais referências para o preço do gás na Europa, chegaram a máximos históricos de 53,68 euros por MWh (+4,2%) de acordo com a Bloomberg, acabando por estabilizar nos 52,55€/MWh. A marca dos 50 euros por MWh tinha já sido ultrapassada no início do mês.

Para a segunda metade de 2021 é já esperado que o preço do gás neste índice seja 60% mais caro do que a média histórica dos cinco anos anteriores (isto sem considerar 2020, em que o preço esteve em mínimos, devido à pandemia).

Com o inverno à porta, basta uma tempestade ou uma vaga de frio mais rigorosa no continente para que os preços do gás dupliquem e cheguem aos três dígitos, acima de 100 euros por MWh, dizem os analistas.

“Os preços do gás nos mercados internacionais estão tão altos que estão a ser negociados com um prémio raro em relação ao petróleo bruto”, diz a Bloomberg na sua análise. Ou seja, o gás natural custa neste momento o equivalente a mais de 100 euros por barril de petróleo, é a conclusão a que se chega.

Os resultados estão à vista, a começar por um verdadeiro choque de preços na eletricidade (produzida sobretudo a partir do gás natural), que, na Europa, ameaçam já fazer disparar em 20% as faturas de energia dos consumidores de países como o Reino Unido ou a Alemanha, de acordo com os analistas do Citigroup, citados pela Bloomberg.

E se no Mibel o MWh está agora já abaixo dos 130€/MWh, depois de já ter valido mais 10 euros na semana passada, na Alemanha esta segunda-feira trouxe picos de 90€/MWh, o dobro face ao início do ano, e acima dos anteriores recordes atingidos no verão de 2008 quando o petróleo chegou a 105 dólares por barril. Também no mercado britânico, os preços quadruplicaram neste início de semana para 1,52 euros por unidade, com algumas centrais elétricas a serem pagas até 4.662 euros por MWh para produzirem energia. O vento apenas foi responsável por 4,9% da energia produzida (face a 18% no ano passado), o que obrigou a recorrer mais às centrais a gás e a carvão para acomodar a procura.

Face a estes valores, por terras britânicas, várias comercializadoras em mercado já aumentaram as tarifas para os clientes domésticos, o que pode revelar-se desastroso assim que comece o tempo mais frio e os sistemas de aquecimento estejam ligados em permanência neste país do norte da Europa.

Mais a sul, e com os preços grossistas no Mibel três vezes mais caros do que há um ano, o Governo espanhol também já veio dizer que as contas da luz podem disparar 25% até ao fim de 2021. Só em Portugal o Governo está atento à situação, mas sem alarmismos, e garante que tem “almofadas” suficientes (do lado das energias renováveis e não só) para impedir que o preço da luz dispare em 2022, tanto no mercado regulado como no livre, por via das tarifas de acesso à rede. Resta saber como serão impactadas as tarifas de energia nos dois mercados.

Europeus à mercê da meteorologia: “Tudo vai depender de quão frio é o próximo inverno”

Voltando aos preços do gás nos mercados internacionais, estes têm vindo a subir a pique por vários motivos: recuperação económica em curso pós-Covid; um inverno 2020/2021 mais frio e mais longo do que o normal na Europa, que deixou os níveis de armazenamento desta matéria-prima em mínimos de 10 anos; um aumento exponencial da procura e uma diminuição da oferta.

A somar a tudo isto, a Rússia (o maior fornecedor) está a limitar os fluxos para os gasodutos europeus e o mercado asiático continua a aumentar a procura de gás (e a pagar mais pelo mesmo) para produzir eletricidade e alimentar a economia em expansão.

Na Europa não há dúvidas que falta gás e aquele que chega é pago a preços exorbitantes, fazendo disparar a inflação (3,4% em agosto, na Alemanha, acima dos 2% previsto pelo BCE para a Zona Euro), impactando já o preço dos alimentos e dos transportes e ameaçando travar a recuperação económica, já que as indústrias eletrointensivas (do aço aos fertilizantes) podem ser obrigadas a racionar o gás que queimam para produzir. Dizem os analistas que o cenário vai piorar quando chegar o inverno.

“O verdadeiro problema ainda nem sequer começou. A Europa vai enfrentar um inverno muito difícil. Com eventos climáticos extremos, os preços do gás podem chegar aos três dígitos, acima de 100 euros por MW/h”, garante Julien Hoarau, responsável da EnergyScan, unidade de análise da francesa Engie, citado pela Bloomberg.

Alfred Stern, CEO do produtor austríaco de petróleo e gás OMV AG, garante que os “europeus estão à mercê da meteorologia e da trajetória dos preços. Tudo vai depender de quão frio é o próximo inverno”.

Além disso, a Europa não pode contar com a sua própria produção de gás natural, com várias interrupções nos fluxos a partir do Mar do Norte. Já o gigantesco campo de gás de Groningen, na Holanda, deverá encerrar três anos antes do previsto.

As notícias são más e afetam todos os setores económicos, sem exceção, dos produtores de açúcar em França às fábricas de cerâmica na China. “A energia está na base da economia. Preços elevados na energia têm consequências em todas as cadeias de valor e podem impactar a recuperação pós- Covid e causar instabilidade social”, disse Bruce Robertson, analista do Institute for Energy Economics and Financial Analysis, à Bloomberg.

Esta tendência atual de preços recorde do gás natural fazia já adivinhar-se a meio do ano, quando no final do mês de junho os quatro hubs de referência analisados pelo boletim da ERSE — Zeebrugge (ZEE), National Balancing Point (NBP), Title Transfer Facility (TTF), e Henry Hub (HH) — fecharam o primeiro semestre de 2021 em valores máximos relativamente aos últimos dois anos em análise, mas ainda assim longe dos recordes registados agora em setembro.

Mais de metade do gás natural que chega a Portugal, via Sines, vem da Nigéria

A Portugal, que importa todo o gás que consome, a matéria-prima chega por duas vias: de navio, ao Porto de Sines, a partir de todo o mundo e com o preço indexado ao mercado spot ao qual acresce ainda o valor do frete; e por gasoduto, por interligação com Espanha, sendo que aqui o valor é negociado com os fornecedores em contratos de longo prazo.

De acordo com o data Hub da REN, em 2020 (ano da pandemia) entraram na rede nacional de transporte 44.412 GWh de gás natural: 40.137 GWh via Terminal GNl e 2.592 GWh via interligações (gasodutos), sendo que em 2021, até agosto, o valor acumulado do ano vai já nos 45.802 GWh, com a esmagadora maioria a chegar por navio a Sines (50,2% da Nigéria, 22,1% dos EUA, 14,7% da Rússia, 8,2% do Qatar e 4,7% das interligações com Espanha).

Tal como existe um Mibel, existe também um Mibgas (Mercado Ibérico do gás), onde o preço para esta terça-feira foi de 53,77€/MWh em Espanha e 54,80€/MWh em Portugal.

 

No mercado ibérico, o preço do gás passou a marca dos 50 euros por MWh também no final de agosto, no dia 29, tendo chegado agora a um recorde de 53,77€/MWh. Para outubro, o preço previsto é de 54,30€/MWh.

Para os consumidores nacionais, e face à perspetiva de “uma subida no custo de aprovisionamento do gás natural”, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos decidiu já aumentar em 0,3% o preço do gás natural no mercado regulado, nas tarifas reguladas que vigoram de outubro deste ano a setembro de 2022.

Diz o regulador que isso justifica o acréscimo nas tarifas transitórias de venda a clientes finais.

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