Dos EUA à Austrália, não faltam pretendentes para celebrar uma união com a Galp para explorar petróleo no apetecível complexo do Mopane, na Namíbia. Veja quem quer operar e comprar 40% do projeto.
- A Galp está na fase final de escolha de um parceiro para vender metade da sua participação no projeto de exploração petrolífera Mopane, na Namíbia, com TotalEnergies e Chevron como principais candidatas.
- O projeto Mopane é considerado crucial para a Galp, que confirmou a existência de pelo menos 10 mil milhões de barris de petróleo e gás, atraindo o interesse de mais de uma dúzia de empresas.
- A decisão sobre a parceria deve ser tomada até ao final do ano, com implicações significativas para o futuro da exploração petrolífera na Namíbia e para a estratégia da Galp.
“Vocês conhecem quais são os principais operadores em águas profundas no mundo e, portanto, podem olhar para eles e fazer as vossas apostas”, disse aos jornalistas João Diogo Marques da Silva. As regras éticas não permitem seguir a sugestão do co-CEO da Galp e apostar em quem vai comprar metade da participação de 80% que a empresa tem no projeto de exploração petrolífera no complexo do Mopane na Namíbia, mas nada nos impede de analisar os atributos dos pretendentes.
Marques da Silva sublinhou, num evento da Galp na semana passada, que o projeto é “muito importante” para o portefólio de exploração da Galp e por isso há dois critérios cruciais para escolher a parceira: que seja “altamente competente” e que tenha “experiência em águas profundas”, até porque não vai só ficar com uma participação de 40%, vai também ser a operadora do projeto.
Foi a 30 de abril de 2024, ainda era CEO Filipe Silva (acabaria por sair no início deste ano) que a Galp confirmou notícias que iria vender metade da participação no Mopane, meros dias depois de ter anunciado que o campo poderá conter o equivalente a pelo menos 10 mil milhões de barris de petróleo e gás. As notícias sobre as interessadas não demoraram, com a Reuters a referir a 2 de julho do ano passado que mais de uma dúzia de empresas manifestaram interesse ao assinarem acordos para ter acesso aos dados do bloco. Um lote alargado, que foi reduzido com a desistência da americana Exxon Mobil em setembro, sem explicar os motivos.
A escolha está na fase final, segundo Marques da Silva, com a Galp a querer fechar o assunto até ao fim do ano. A francesa TotalEnergies e a americana Chevron estão na liderança, segundo noticiou a Reuters há uma semana, mas nada está confirmado e as empresas não comentam. Veja aqui os perfis de algumas das petrolíferas interessadas numa união com a Galp na Namíbia:
Total Energies
- Nacionalidade: França
- Receitas (2024, em euros): 187 mil milhões
- Presença na Namíbia: A petrolífera francesa está na Namíbia há várias décadas. Iniciou operações no downstream (ou seja, na distribuição de combustíveis) em 1964 e, segundo os últimos dados disponíveis, em 2023 tinha 43 estações de serviço e a quarta maior rede na Namíbia. Em 2022, a empresa entrou no negócio upstream (exploração), ao estabelecer a subsidiária Total Energies EP Namibia, na capital, Windhoek. Em fevereiro desse ano, no Bloco 2913B (o “campo Venus”), fez uma importante descoberta de petróleo leve com gás associado — o poço “Venus 1-X”, tendo encontrado cerca de 84 metros de petróleo líquido num reservatório de alta qualidade. A Total Energies aumentou a sua participação no projeto em janeiro de 2024 ao adquirir mais 10,5% no bloco 2913B e 9,39% no bloco 2912 da parceira Impact Oil and Gas Namibia, ficando com participações de 45,25% e 42,5%, respetivamente, nos blocos. Já em setembro deste ano, o CEO, Patrick Pouyanné, disse que a petrolífera solicitou a prorrogação da licença na Namíbia para produzir por mais tempo e ampliar o patamar de produção, mas que ainda vai avaliar se poderá tomar uma decisão de investimento nos próximos seis meses. Pouyanné disse ainda que as autoridades namibianas gostariam de ter o primeiro petróleo até 2029, enquanto a empresa, que apresentou o seu plano de desenvolvimento, acredita que isso seja possível até 2030.
- Posição (e interesse) na corrida: Na liderança, com a Chevron, segundo a Reuters. Em setembro deste ano, Pouyanné admitiu ao jornal The Namibian que o campo Venus deve ter reservas de entre 700 e 800 milhões de barris, mas tem um problema de permeabilidade que poderá limitar a produção a 150 mil barris por dia. “Hoje, Venus é uma prioridade, mas é evidente que a Total Energies está disposta a usar a Venus como base para tentar avançar e crescer na Namíbia, e estamos à procura de diferentes oportunidades para o fazer”, sublinhou.
Chevron:
- Nacionalidade: EUA
- Receitas (2024, em euros): 179 mil milhões
- Presença na Namíbia: A petrolífera americana está em dois streams na Namíbia, retalho e exploração. No lado do retalho, em 2024, reintroduziu a marca de combustíveis Caltex no país, através de um parceiro local, permitindo a criação de uma rede de postos de abastecimento. Na exploração, a Chevron, em abril de 2024, assinou um contrato com a empresa petrolífera nacional da Namíbia (NAMCOR) que permitirá à gigante norte-americana adquirir uma participação operacional de 80% no bloco offshore PEL 82 na Bacia de Walvis. Para além desta aquisição, é a operadora do bloco offshore PEL 90 na Bacia de Orange, onde a Galp também fez a sua grande descoberta. No entanto, a 15 de janeiro deste ano, a Chevron informou que não encontrou reservas comerciais de hidrocarbonetos num poço do bloco PEL 90 de exploração na Bacia de Orange, na Namíbia.
- Posição (e interesse) na corrida: Na liderança, com a Total Energies, segundo a Reuters. Quando a produtora norte-americana afirmou que o poço no bloco PEL 90 não tem reservas comerciais adiantou, contudo, que a perfuração forneceu informações valiosas sobre a bacia e que a empresa prevê continuar a explorar a Namíbia. Em abril explicou que está considerar iniciar exploração na Walvis Basin em 2026 ou 2027.
Shell:
- Nacionalidade: Reino Unido
- Receitas (2024, em euros): 262,88 mil milhões
- Presença na Namíbia: A Shell opera na Namíbia através da sua divisão de upstream (exploração) sob uma licença para o bloco PEL39, que abrange uma vasta área offshore (cerca de 12.000 km²) na bacia de Orange. Desde 2022, em joint venture com a QatarEnergy e a NAMCOR, perfurou vários poços de exploração e avaliação. Em janeiro deste ano, tal como com a Chevron, surgiram as más notícias: uma perda de cerca de 400 milhões de dólares devido a uma descoberta no PEL39 que considerou comercialmente inviável.
- Posição (e interesse) na corrida: No segundo pelotão. A empresa britânica sentiu a desilusão do resultado no PEL39 e o CEO Wael Sawanc chegou a afirmar que a Namíbia já não é uma prioridade de topo no investimento na exploração, sinalizando uma posição cautelosa. Na apresentação de resultados trimestrais, no final de outubro, disse, no entanto, que a Shell “continua a ter apetite em investir na Namíbia,” alertando todavia que o país precisa de cumprir os requisitos da empresa. Com bolsos fundos e com interesse na região, entrar no Mopane com a Galp poderia ajudar a Shell saltar várias etapas.
Petrobras:
- Nacionalidade: Brasil
- Receitas (2024, em euros): 84,5 mil milhões
- Presença na Namíbia: Nenhuma.
- Posição (e interesse) na corrida: A interessada mais vocal. A petrolífera brasileira gaba-se de ser a melhor na exploração em águas profundas e quer levar essa vantagem para aproveitar oportunidades fora do Brasil, nomeadamente em África. Em julho do ano passado fez uma oferta não vinculativa para comprar a operação e uma fatia do bloco da Galp no Mopane. Sylvia dos Anjos, diretora de exploração e produção, recordou ainda as parcerias entre as duas empresas no Brasil como vantagem. “Se eles não escolherem a gente, estão perdendo”, sublinhou. Já em junho deste ano, a CEO da Petrobras, Magda Chambriard, revelou que a oferta da empresa brasileira para a participação no Mopane foi superada pela da TotalEnergies, mas adiantou que ainda espera ser chamada para uma parceria com a petrolífera francesa.
Woodside Energy:
- Nacionalidade: Austrália
- Receitas (2024, em euros): 12 mil milhões
- Presença na Namíbia: Nenhuma.
- Posição (e interesse) na corrida: Outsider. Parece ser a candidata mais deslocada. A petrolífera australiana não tem a escala das grandes petrolíferas, mas pode ser uma parceira júnior no Mopane. A Woodside tem uma participação de 82% no campo Sangomar, o primeiro offshore no Senegal, mas está em conflito com o governo senegalês devido a questões fiscais e poderá, portanto, querer diversificar a exposição.
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Quem são as petrolíferas que querem ‘casar’ com a Galp na Namíbia?
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