Numa altura em que a administração renova o ataque à independência da Fed, Donald Trump prepara-se para nomear o sucessor de Jerome Powell. Primeiro requisito: concordar sempre com o presidente.
“Quem discordar de mim nunca será presidente da Reserva Federal”. A frase, proferida a 23 de dezembro, é, claro, de Donald Trump, que está há meses a criticar (e insultar) a liderança de Jerome Powell no banco central, nomeadamente pelo ritmo nos cortes das taxas de juro, lento demais para o presidente americano.
No mais recente episódio desta ‘guerra’, o Ministério Público Federal do Distrito de Columbia abriu uma investigação criminal sobre o presidente da Fed em relação à renovação da sede do banco central em Washington e se Powell mentiu ao Congresso sobre o âmbito do projeto, noticiou o New York Times este domingo.
Trump já veio negar qualquer conhecimento sobre a investigação, mas Powell defendeu que “esta ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e pressões contínuas do Governo para reduzir as taxas de juro e, de forma mais ampla, para ter mais influência sobre a Fed“.
O ataque recebeu um coro de críticas, com 13 antigos líderes da instituição e do Tesouro americano que estiveram no cargo em administrações democratas e republicanas e que incluem nomes como Ben Bernanke, Alan Greenspan, ou Janet Yellen, a saírem em defesa de Jerome Powell e da independência da Fed.
Em paralelo aos constantes ataques públicos a Powell, Donald Trump tem estado a preparar a escolha de quem irá nomear para substituir o presidente da Fed quando este terminar o mandato, em maio deste ano.
Segundo a Reuters, o republicano entrevistou três candidatos em dezembro: Kevin Hassett (conselheiro económico da Casa Branca), Kevin Warsh (antigo membro da Fed e com ligações fortes a Wall Street) e Christopher Waller (membro do atual board da Fed). A estas três possibilidades junta-se Rick Rieder, senior managing director na BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, informou na semana passada Scott Bessent, secretário do Tesouro.
Rieder não foi entrevistado ainda, adiantou Bessent, mas está na shortlist para uma nomeação que Trump deverá anunciar nos próximos dias, antes ou depois de participar no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, entre 19 e 23 de janeiro.
Uma coisa é certa, nenhum dos quatro discorda com Trump sobre a necessidade de acelerar os cortes das taxas de juro para estimular a maior economia do mundo. E esse parece ser o requisito principal para ser o escolhido. Veja aqui os perfis e as ideias sobre a política monetária e a independência do banco central:
Kevin Hassett

Economista conservador, dirigiu o Council of Economic Advisers da Casa Branca durante o primeiro mandato de Donald Trump na presidência. Aos 63 anos é atualmente o diretor do National Economic Council (NEC). Hassett obteve uma licenciatura em economia em 1984, seguida de um doutoramento com foco em econometria aplicada pela Universidade da Pensilvânia, sob a orientação de Alan J. Auerbach.
“Se os dados sugerirem que podemos fazê-lo agora, acho que há muito espaço para o fazer”, afirmou sobre cortes nas taxas de juro, em dezembro, na véspera da última redução pela Fed. Mas Hassett também revelou alguma cautela, notando que “se a inflação passar de 2,5% para 4%, não se pode reduzir as taxas”.
Em relação à independência da Fed, o economista explicou que “a função mais importante do presidente da Fed é analisar os dados económicos e evitar envolver-se na política.” Questionado sobre o que faria se Trump quisesse que reduzisse as taxas e ele não achasse que isso fosse a coisa certa a fazer, respondeu de forma diplomática: “seguiria o meu julgamento, no qual acredito que o presidente confia”.
Sobre a investigação a Powell, Hassett afirmou esta segunda-feira que não esteve envolvido, mas adiantou que se chegar a presidente da Fed irá apoiar a ação, porque “temos um edifício com custos exorbitantes e planos para os edifícios que parecem inconsistentes com o testemunho [de Powell]”.
Christopher Waller

Assumiu o cargo de membro do board de governadores da Fed em 18 de dezembro de 2020, para preencher um mandato que termina em 31 de janeiro de 2030. Antes disso o economista atuou como vice-presidente executivo e diretor de pesquisa do Banco da Reserva Federal de St. Louis desde 2009. Na academia, foi professor e titular da Cátedra Gilbert F. Schaefer de Economia na Universidade de Notre Dame.
Tal como Hassett, Waller vê “espaço” para a Fed cortar as taxas de juro. Em dezembro afirmou até que, ao nível atual, o custo do dólar está entre 50 em 100 pontos base acima de ser ‘neutral‘.
Waller não vê necessidade, no entanto de fazer os cortes a um ritmo elevado. O mercado de trabalho não está a apresentar quedas dramáticas, mas continua a “enfraquecer”, disse em dezembro, por isso, no que diz respeito a novos cortes nas taxas de juro, “podemos avançar a um ritmo moderado, não creio que tenhamos de tomar medidas drásticas“.
“Não há pressa em baixar as taxas de juro”, sublinhou e “podemos simplesmente baixar a taxa de política monetária de forma constante até um nível neutro”, numa posição que diverge da de Trump.
Dias antes de ser entrevistado pelo presidente em dezembro, Waller disse que “se [a independência da Reserva Federal] fosse contestada… eu defendê-la-ia com toda a convicção“. Recordou que passou 20 anos a trabalhar na independência do banco central e na importância disso, mas vincou que “a única coisa que todos sempre esquecem sobre a independência do banco central é que há outro lado disso, que é a responsabilidade”.
“Não há nenhuma instituição neste país que não preste contas ao eleitorado… Queremos que a independência do banco central esteja livre de interferências políticas, mas ainda assim temos de prestar contas ao público americano”, adiantou.
Kevin Warsh

Um advogado com experiência de banco central. Estudou políticas públicas, com ênfase em economia e estatística, na Universidade de Stanford, onde se formou 1992. Warsh entrou na Faculdade de Direito de Harvard, onde concentrou os seus estudos na interseção entre direito, economia e política regulatória, obtendo o diploma em 1995.
Depois de sete anos a trabalhar na área de M&A do banco de investimento Morgan Stanley, foi convidado em 2002 pelo presidente George W. Bush como assessor especial para a política económica e secretário executivo do NEC. Em 2006, vai para o board da Fed, nomeado por Bush, um cargo que ocupa por cinco anos.
Tal como Trump, Warsh tem criticado a política monetária de Powell, dizendo que vários “erros” têm prejudicado quem quer comprar casa. E até vai mais longe. “Cortes nas taxas são o primeiro passo para o que venho dizendo há uma década: uma mudança de regime necessária na Reserva Federal“, disse em julho de 2025. “Isso significa uma mudança de regime na forma como pensamos sobre a inflação, como conduzimos as políticas e como comunicamos e é também uma mudança de regime em termos de como regulamos e supervisionamos os bancos”.
Para Warsh, “a história mostra-nos que a independência na condução da política monetária é essencial.” No entanto, acrescenta uma nuance: “mas isso não significa que a Fed seja independente em tudo o que faz“, explica, referindo-se a áreas como a regulação e as metas sociais.
Rick Rieder

“Os Estados Unidos precisam de um corte de 50 pontos base nas taxas de juro“, disse o executivo da BlackRock a 11 de setembro do ano passado. Na semana seguinte o Federal Open Market Committee (FOMC, Comité de Política Monetária) quebrou uma longa pausa nos juros que durava desde o início do ano, mas com um corte de apenas 25 pontos. Rieder, que é também chief investment officer (CIO) do negócio de fixed income da gestora de ativos, justificou a opinião com base no desacelerar do mercado de trabalho. “Uma redução das taxas de juro estaria em linha com o que sabemos hoje, ou seja, que o mercado de trabalho está claramente a abrandar, ao ponto de atingir uma velocidade de estagnação potencial”.
Rieder acredita ainda que a Fed devia deixar de sinalizar as decisões futuras. “Deveriam eliminar os pontos”, disse, referindo-se ao dot plot, gráfico de pontos que reflete as expectativas individuais dos membros do FOMC sobre as taxas futuras. “Eliminem o outlook, pois uma das coisas que se tem na Fed é a arte da surpresa”.
“Se se está a tentar chocar o sistema, faça um [corte de] 50. … Mover a taxa de fundos overnight 25 pontos base a cada seis semanas não [significa] nada“, sublinhou.
Licenciado em gestão com especialização em finanças pela Emory University em 1983, Rieder concluiu um MBA em 1987 na conceituada Wharton School da University of Pennsylvania. Nesse mesmo ano entrou na Lehman Brothers, onde ficou até à estrondosa queda do banco de investimento, em 2008. No ano seguinte entrou na BlackRock. No campo institucional, foi vice-presidente e membro do Comité de Empréstimos do Tesouro e membro do Comité Consultivo de Investimentos da Reserva Federal sobre Mercados Financeiros.
A longa experiência nos mercados leva Rieder a enquadrar a questão da independência da Fed nessa perspetiva. Sublinhou em setembro que a independência é “crucial” porque os investidores precisam de confiança no dólar, na dívida e no seu financiamento, acrescentando ainda assim que o banco central poderia ser mais “inovador”.
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