Teletrabalho até ao fim do ano? Tech sem resistências mas no têxtil a realidade é outrapremium

Nas empresas tecnológicas, trabalhar remotamente não é um problema mas no setor têxtil a realidade é outra. Para estes, a possibilidade de prolongar o teletrabalho é considerada um "desastre".

O Governo anunciou esta quinta-feira que decidiu prolongar até ao final deste ano o teletrabalho obrigatório e o desfasamento dos horários de entrada e saída nas empresas com estabelecimentos nas áreas territoriais mais afetadas pela pandemia da Covid-19. A notícia foi recebida, por um lado, sem grande surpresa mas, por outro, de forma quase "inesperada", tendo em conta a sua extensão temporal. Contudo, trabalhar a partir de casa não é fácil nem óbvio em todos os setores.

Se, no setor tecnológico, trabalhar remotamente não é um problema e já era uma prática aplicada em várias empresas mesmo antes da pandemia, no setor têxtil, por exemplo, a realidade é outra. A medida que prolonga o teletrabalho é vista, neste caso, como "um desastre". Dos 1.100 colaboradores da têxtil Riopele, apenas seis pessoas estão em teletrabalho. O número contrasta com a percentagem de 100% da tecnológica New Work Portugal. No meio está a banca.

Indústria preferia não repetir teletrabalho

"No nosso caso, não se enquadra de forma nenhuma o teletrabalho no setor têxtil", começa por dizer o presidente da têxtil Riopele, José Alexandre Oliveira. Tendo em conta as imposições do Governo e, para evitar "problemas", a Riopele tem implementado desfasamentos de horários de entradas e saídas, evitando a concentração das pessoas no refeitório, vestuários, linhas de produção e na sede da empresa. No entanto, estas novas práticas causam "imensos constrangimentos", assinala ao responsável.

"Tudo o que é desorganização acarreta transtornos. As empresas funcionam para atingir o máximo de produtividade e, desde o momento em que há incertezas -- no sentido de as medidas mudarem a cada dia --, são situações que só criam transtornos no bem-estar da empresa", explica.

Para o presidente da Riopele, que viu o volume de negócios baixar de 79 milhões de euros, em 2019, para 67 milhões, em 2020, o teletrabalho é uma experiência que "não gostaria de repetir", e espera o retomar da atividade com normalidade "o mais depressa possível".

Também a AMF Shoes vê a implementação do teletrabalho na sua fábrica como algo muito difícil. Neste momento, a empresa tem oito dos seus 148 colaboradores a trabalhar a partir de casa, mas sempre na área das não-operações, pois em "tudo o que é operações é difícil de aplicar o teletrabalho, para não dizer impossível", refere Albano Fernandes, presidente da AMF Shoes. "Não vejo com muitos bons olhos manter numa empresa tão produtiva e tão operativa como é a nossa o teletrabalho. Preocupa-me e vai prejudicar o nosso bom desenvolvimento", acrescenta.

Não vejo com muitos bons olhos manter numa empresa tão produtiva e tão operativa como é a nossa o teletrabalho. Preocupa-me e vai prejudicar o nosso bom desenvolvimento.

Albano Fernandes

Presidente da AMF Shoes

Já o desfasamento de horários nas linhas de produção foi "pacífico" e tem reduzido significativamente o fluxo de pessoas na empresa em simultâneo. Contudo, Albano Fernandes não tem dúvidas quando diz que as indústrias "não podem viver com estas restrições". "Estamos a ser muito penalizados. Vamos cumprir estas medidas, mas não fazem sentido para a indústria", continua.

Na Diera, devido às características da empresa, nenhum trabalhador está em regime de teletrabalho. Adotou-se, em alguns casos, desfasamentos de horários e um modelo de "espelho", mas, mais do que isso, é impossível.

Setor tech focado na flexibilidade

Ao contrário do que está a acontecer na indústria, que não pode parar a linha de produção, nas empresas do setor tecnológico, "flexibilidade" tem sido a palavra de ordem. A New Work Portugal tem estado à espera da "luz verde" do Governo para reabrir as suas instalações em Matosinhos. No entanto, isso não significa voltar a receber os colaboradores, porque essa será uma decisão deles. O objetivo do grupo que engloba a rede social profissional alemã Xing é dar "liberdade e conforto" para que os trabalhadores decidam onde querem trabalhar.

"Não vemos necessidade de forçar ninguém a nada. Queremos respeitar a vontade e dar tempo para que também se possam adaptar e decidir quando faz sentido para elas regressar e em que moldes. Estamos conscientes das diferentes circunstâncias e perspetivas das nossas pessoas. Se, por um lado, temos colegas muito preocupados e até, de alguma forma, relacionados com grupos de risco e, portanto, não querem correr riscos, por outro lado, temos colegas que, dada a sua situação familiar, a sua habitação ou até a necessidade de saúde mental, estão desejosos de voltar ao escritório", diz Miguel Garcia, general manager da New Work Portugal.

No entanto, até à "luz verde" do Governo, o trabalho à distância será mantido e não há qualquer tipo de constrangimento ou dificuldade nisso. Neste momento e, desde há cerca de um ano, todos os colaboradores da tecnológica estão em teletrabalho.

A Bosch tem cerca de 700 colaboradores em Aveiro em regime de teletrabalho, mas a prática não é nova. Antes da pandemia, já algumas funções podiam ser desempenhadas a partir de casa e a Covid-19 veio mostrar que o teletrabalho "é viável para o futuro e é um tema a aprofundar ainda mais", considera Jónio Reis, manufacturing vice president da Bosch Termotecnologia.

Com um universo bem mais pequeno, de 50 colaboradores, a Barkyn também não teve dificuldades em adaptar-se. Apesar da mudança "inesperada e imposta", a empresa conseguiu implementar um modelo de teletrabalho de forma "rápida, produtiva e acertada". André Jordão, CEO e cofundador da startup de saúde e nutrição canina, afirma que estão, agora, "melhor preparados para o bom funcionamento do teletrabalho". Já com uma experiência de mais de um ano, reuniões semanais, coffee breaks, regalias e benefícios para os colaboradores são algumas das estratégias implementadas com sucesso.

Manter a organização atual não é problema para a banca

Bancos e seguradoras também têm vindo a adaptar-se às novas dinâmicas e ritmos de trabalho, e alguns até já dão passos mais largos.

Na Liberty Europa, o que começou por ser uma medida temporária, ditada por razões sanitárias, passou a ser definitiva. A seguradora anunciou recentemente aos dois mil colaboradores em Portugal, Espanha, Irlanda e Irlanda do Norte que, de forma definitiva, passarão a trabalhar a partir de qualquer lugar, seguindo um modelo de trabalho remoto. A empresa passa, assim, a ser 100% digital, o que implica deixar de ter atendimento presencial aos clientes, como já vinha a acontecer devido às medidas de confinamento em território nacional.

Já na banca, fonte oficial do Millennium bcp diz que, logo no primeiro confinamento, as condições necessárias para o trabalho remoto foram asseguradas para todos os colaboradores que podiam executar as suas funções à distância. Já os que tiveram de continuar a trabalhar presencialmente viram os níveis de segurança reforçados. Neste momento, o banco está "a acompanhar as decisões do Governo e a evolução da pandemia, para ajustar os modos de trabalhar numa ótima de defender as pessoas e servir o melhor possível os clientes".

O Montepio, por sua vez, considera que será fácil respeitar a nova medida do Governo, na medida em que se trata apenas de manter a organização atual. Neste momento, os funcionários dos serviços centrais, que representam 35% da empresa, estão em teletrabalho, enquanto os que desempenham funções nos serviços da rede comercial, que representam os restantes 65%, estão em regime presencial, "com os ajustamentos necessários face ao contexto pandémico atual", avança Sandra Brito Pereira, diretora de recursos humanos do banco.

A Kelly Services, empresa da área de recursos humanos, adotou muito rapidamente o teletrabalho, transformando processos e a própria organização do trabalho. Num primeiro momento, 99% da equipa foi para casa e o número não tem variado muito ao longo destes meses. "Do nosso universo de mais de 200 colaboradores, apenas dois mantiveram o regime presencial integral durante o último ano e uma pequena percentagem faz deslocações pontuais", conta Vanda Brito, HR manager da Kelly Services.

Apesar de a experiência estar a correr relativamente bem, assim que a situação sanitária e as medidas de proteção o permitam, a empresa diz estar pronta para reabrir portas e permitir que os colaboradores usufruam do espaço de trabalho. No entanto, também não descarta a possibilidade de ser mantida alguma flexibilidade na medida em que as pessoas possam optar pela modalidade que mais as motive.

Aproveitar para digitalizar processos. O desafio é a comunicação

Apesar de todos os desafios, a pandemia e o teletrabalho também vieram acelerar a transformação digital que muitas empresas já tinham começado. Na AMF Shoes, depois de algumas experiências com a área de contabilidade, chegou-se à conclusão de que a dinâmica funcionava bem, sendo que alguns dos processos são, agora, mais digitais do que nunca, e isso "acaba por ser positivo".

Por outro lado, o líder da empresa salienta que também se perderam metodologias que funcionavam muito bem. A comunicação torna-se mais complicada, e um dos grandes desafios. "O cruzamento de horários e como não estamos todos no mesmo horário acaba por nos limitar, algumas reuniões que eram regulares ficam limitadas e acabam por perder-se. Eu raramente sei quem está a trabalhar e em que turno está", refere.

Nunca a comunicação foi tão importante como agora e os nossos esforços estão totalmente direcionados para apoiar de todas as maneiras a nossa equipa.

Vanda Brito

HR manager da Kelly Services

Para a Kelly Services, o grande desafio para as organizações passa por manter a cultura da empresa e a relação com os seus colaboradores num cenário remoto. "Nunca a comunicação foi tão importante como agora e os nossos esforços estão totalmente direcionados para apoiar de todas as maneiras a nossa equipa", afirma a HR manager da empresa.

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