À caça da virtude perdida
Nas segundas voltas de presidenciais, passamos do candidato mais desejado para o mal menor, para o que menos rejeitamos.
As segundas voltas não são fáceis. O panorama político é diametralmente oposto. Do candidato mais desejado, passamos para o mal menor, para o que menos rejeitamos. Claro que até podemos gostar do candidato em que vamos votar, seja porque era o nosso, seja porque simplesmente gostamos. Contudo, a forma de estar muda. Acresce que é apenas a segunda vez que temos coletivamente esta experiência.
Esta segunda volta é, para mim, parlamentarista convicto, a derradeira prova das vantagens de fugirmos da polarização do presidencialismo. É impossível que isto faça bem a qualquer sociedade democrática. Discutir a rejeição, votar ‘apesar de algo’, ao invés de ‘por algo’, sofrer com a abstenção dos que se recusam a tomar partido: não pode ser são. A passagem de Seguro e Ventura era o sonho de ambos, mas o pesadelo do regime.
Não porque Seguro venha a ser um mau presidente, porque não creio. Não porque Ventura tenha hipóteses de ganhar, porque ninguém acredita. Mas por esta disputa de dicotomias narrativas a que temos assistido na última semana. Para Ventura, a leitura Direita – Esquerda, Freitas – Soares era evidente, mas só cai quem quer. Do lado de Seguro, a narrativa dos democratas contra os autoritários não era inevitável, foi uma escolha. Escolha errada, parece-me.
É evidente que a esquerda não pode ser desguarnecida, tendo como agravante o facto de as boas sondagens poderem incentivar a abstenção, porém, não é aí que a eleição vai ser disputada. As segundas voltas são decididas no espaço dos perdedores da primeira e Seguro é simpático ao centro-direita. A responsabilidade que demonstrou quando foi líder do PS e a moderação que tantos anticorpos lhe gerou no seu próprio partido a isso contribuíram.
Seguro até reagiu bem à vitória da primeira volta e fez uma boa semana. Tem corrido em pista própria e lembrado que nada está ganho. Escrevo antes do debate desta terça-feira, sabendo que o rumo da campanha pode mudar, mas não tem sido Seguro a trazer ostensivamente a discussão entre democracia e autoritarismo ao debate: têm sido os recém-convertidos.
Falo sobre isto com a tranquilidade de votar confortavelmente em Seguro, mas preocupado com as assistências que muitos apoiantes vão fazendo a Ventura. Se Seguro faz ações de campanha sem referir o nome do adversário, como assisti esta semana na FEP, os seus mais extremosos apoiantes garantem que Ventura não saia da agenda mediática.
Encaro como natural que quem apelou ao voto na primeira volta num candidato o faça de novo na segunda. Encaro também como natural que estrategicamente se possa concluir que o melhor é não se apelar diretamente ao voto. Já não me parece natural o apelo ao voto, seguido da sinalização dos que não o fazem. Não me parece natural que o apelo ao voto se torne uma proclamação de dignidade, em contraponto aos defeitos democráticos dos demais.
Em democracia, não há cidadãos de primeira nem de segunda, de bem ou de mal e isto serve para ambos os lados. Estigmatizar não costuma levar a grandes resultados e, neste caso, apenas favorece a fidelização no candidato que está contra todos. Em democracia, não há votos cativos ou perdidos, não há temas monopolizáveis. As razões para não votar Ventura são imensas, fazer dele um fascista é o que ele mais quer. Em democracia, a normalização dá-se nas urnas, num processo a que chamamos eleições. Os que achamos perigosos devem ser combatidos da mesma forma que os demais, na base das ideias.
Esta busca pela virtude não é democrática. Não porque a virtude não tenha lugar no espaço democrático, onde deve ser central, mas porque a estigmatização ou a sinalização não passam de hábitos pidescos, nefastos ao regime. Foram várias as eleições onde mais de um milhão de portugueses votaram num partido estalinista e a nossa democracia só ficou mais forte porque fomos capazes de os absorver democraticamente, através do debate e das ideias. Façamos o mesmo esforço.
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