A contraofensiva
Mesmo a guerra sendo impopular, Vladimir Putin sabe que tem tempo. Zelenskyy não sabe ao certo quanto tempo tem.
Há meses que ouvimos falar da grande contraofensiva ucraniana que vai acontecer na primavera. Forças armadas com novo e moderno equipamento militar ocidental, pessoal treinado nos países da NATO e stocks de munições reabastecidos aumentam a expectativa de que a operação pode ser um momento decisivo no conflito.
O facto é que a estação já vai avançada e a operação continua por acontecer. O presidente Volodymyr Zelenskyy afirmou na quinta-feira que está adiar a ofensiva porque o país não dispõe ainda de armas suficientes para ser bem sucedido sem sofrer demasiadas baixas. “Ainda precisamos de mais algum tempo”, porque “em termos de equipamento nem tudo chegou”, disse a um conjunto de meios de comunicação europeus. No mesmo dia, o Reino Unido anunciou o envio dos mísseis de longo alcance Storm Shadow.
A cautela justifica-se pelo que está em jogo. E não é só a perda de vidas humanas. Uma derrota militar teria um impacto severo na moral das tropas ucranianas. Além disso, o apoio da opinião pública ocidental, que tem permitido canalizar dezenas de milhares de milhões em ajuda militar, pode sair fragilizado.
Kiev sabe-o bem. Daí a tentativa de baixar a fasquia. “A expectativa do mundo em relação à nossa contraofensiva é sobreestimada”, disse na semana passada ao Washington Post o ministro ucraniano da defesa, Oleksii Reznikok. “A maioria das pessoas estão à espera de algo incrível”, acrescentou, o que pode conduzir a uma “desilusão emocional”.
O elemento de surpresa ajudou ao sucesso das ofensivas do verão e outono do ano passado em Kherson e Kharkiv, permitindo recuperar cerca de 13 mil km2 de território. Desta vez não existe. Os ataques e o material a usar têm sido escalpelizados nos media ocidentais.
Com os combates no terreno entregues ao grupo Wagner em Bakhmut, as tropas russas passaram os últimos meses a fortificar as suas defesas ao longo da linha de cerca de 1500 kms que separa as duas forças, preparando-se para resistir às pré-anunciadas manobras militares da Ucrânia. A ausência dos meios aéreos tantas vezes pedidos por Zelenskyy cimenta as dúvidas.
A ofensiva acontecerá. O armamento enviado pelo ocidente tem esse propósito. O timing dependerá do grau de prontidão das tropas e do clima seco, para que a lama não atrase as manobras da infantaria. Têm sido referidos indícios de uma preparação, nomeadamente uma série de incidentes em território russo ou ocupado pela Rússia, como ataques a depósitos de combustível na Crimeia ou descarrilamentos de comboios de mercadorias.
Apostar tudo numa contraofensiva ucraniana armada com tanques Leopards e Abrams ou mísseis Patriot e Himars é uma ideia perigosa, porque cria um vácuo e uma incerteza sobre o que acontecerá no dia seguinte, o que só beneficia o Kremlin.
“É crítico que os parceiros ocidentais da Ucrânia desenvolvam uma teoria a longo prazo de vitória para a Ucrânia, uma vez que mesmo no melhor dos cenários, é improvável que a contraofensiva acabe com o conflito”, salientam Michael Kofman e Rob Lee num artigo publicado na Foreign Affairs. E alertam que sendo a história um guia imperfeito, ela “sugere que as guerras que duram mais de um ano têm uma elevada probabilidade de se prolongarem por vários e são tremendamente difíceis de pôr fim”.
É improvável que a contraofensiva leve as partes para a mesa de negociações, seja qual for o desfecho. Ambos os lados travam um guerra existencial. O Expresso publica esta sexta-feira uma entrevista com Aleksandr Dugin, filósofo e ideólogo de Putin, cuja filha foi morta num atentado em Moscovo que o visaria a ele.
“Estamos num momento muito difícil e numa posição incómoda, porque não conseguimos vencer com a facilidade que queríamos. Mas não podemos perder, porque isso seria o fim da Rússia”, afirma Dugin. A derrota no terreno significaria perder também a luta contra a unipolaridade que os EUA querem impor, abrindo caminho à dissolução da própria Rússia.
“A Rússia não queria ter de invadir a Ucrânia, mas não podia tolerar a agressiva russofobia no nosso território tradicionalmente histórico. Para o Ocidente, não se trata de um interesse vital, é apenas um ato de agressão contra um polo emergente no sistema multipolar. A Ucrânia é o território onde acontece esta luta entre a visão unipolar e a multipolaridade”, considera Dugin.
As sanções ocidentais penalizam a economia russa, mas não tanto como se chegou a acreditar. O FMI chegou a prever uma contração de 8,5% do PIB no ano passado, mas terá recuado apenas 2,1%. Para este ano estima um crescimento moderado de 0,7%. A recuperação no pós-covid, a redução lenta das exportações de bens energéticos para a Europa ou o preço muito elevado que estes atingiram nos mercados almofadaram o impacto, como assinala um artigo no Bruegel, um think tank europeu.
A Rússia tem, além disso, encontrado expedientes para contornar as sanções, como o recurso a uma frota de petroleiros fantasma ou o transvase em alto mar. A necessidade da União Europeia em avançar com o décimo primeiro pacote para atingir pessoas, empresas e até países que ajudam Moscovo a fintar as restrições é revelador dos buracos na sua eficácia. Pequim já começou a levantar o sobrolho.
A médio e longo prazo as sanções deixarão, no entanto, marcas na economia russa. O potencial de crescimento futuro, que já era fraco, será ainda mais afetado pela falta de investimento e uma imigração recorde (1,3 milhões em 2022) que leva do país sobretudo os jovens mais qualificados.
Mesmo a guerra sendo impopular, Vladimir Putin sabe que tem tempo. Zelenskyy não sabe ao certo quanto tempo tem. Com a subida das taxas de juro a apertar os orçamentos públicos, o rio de apoios tenderá a correr mais estreito. Nos EUA, as finanças públicas estão agora sujeitas à vontade do Partido Republicano, que exige cortes substanciais para deixar subir o teto da dívida, colocando mais uma vez o país sob a ameaça de um incumprimento de consequências potencialmente catastróficas.
Putin pode até esperar para ver se as eleições presidenciais americanas, em novembro de 2024, lhe sorriem. Se Trump for candidato e ganhar, as suas chances de sair do conflito com algo que possa vender como uma vitória aumentam substancialmente. A Ucrânia teria provavelmente de aceitar perder o território sob domínio russo. O ex-Presidente recusou-se esta semana a dizer num debate na CNN se gostaria que a Ucrânia vencesse o conflito. “Não acho que seja vencer ou perder. Penso em termos de que como o resolver”.
Um posicionamento que aumenta ainda mais a parada na contraofensiva ucraniana. Daí a importância do tal compromisso sobre um apoio militar a médio e longo prazo. Falta-lhe, no entanto, um ingrediente essencial: a clareza política de que esse será o rumo a seguir, venha quem vier.
Nota: Este texto faz parte da newsletter Semanada, enviada para os subscritores à sexta-feira, assinada por André Veríssimo. Há muito mais para ler. Pode subscrever a Semanada neste link.
E na próxima semana?
- Previsões da Primavera
A Comissão Europeia atualiza na segunda-feira as suas estimativas para a economia da UE e da Zona Euro. Nas previsões de Inverno, Bruxelas apontava para um crescimento de 0,8% para o conjunto dos 27 Estados-membros e de 0,9% para o bloco da moeda única. Para Portugal a previsão era de 1% e deverá ser revista em alta, depois do desempenho do primeiro trimestre.
- Resultados do BCP
Depois da Caixa Geral de Depósitos (CGD) ter apresentado na quinta-feira um lucro de 285 milhões no primeiro trimestre, quase duplicando o resultado do ano anterior, segundo-feira será a vez do BCP divulgar as contas dos primeiros três meses do ano.
- Zona Euro evita recessão
É essa, pelo menos, a previsão dos economistas, que apontam para um crescimento de 0,1% do PIB no primeiro trimestre, face aos três meses anteriores. A confirmar-se, será o mesmo ritmo já verificado no último trimestre de 2022. A estimativa rápida é divulgada na terça-feira.
- Vendas a retalho nos EUA
Como é que anda o bolso dos consumidores norte-americanos? É o que se vai descobrir na terça-feira, quando for conhecida a evolução das vendas no retalho em abril. Depois da quebra de 0,6% em março, agora é esperado um crescimento de 0,7%, insuficiente para afastar os receios de uma recessão ligeira mais para o final do ano. No mesmo dia sai a produção industrial, que deverá ter estagnado em abril.
- Bilderberg em Lisboa
Após 24 anos, o exclusivo Grupo Bilderberg volta a reunir-se em Portugal, entre sexta-feira e domingo. Segundo o Público, o espaço escolhido deverá ser o Pestana Palace Lisboa, mas a localização foi mantida em segredo. A cimeira junta algumas das pessoas mais poderosas do mundo, entre chefes de Estado, membros de governos, chefes de alianças militares, presidentes de empresas multinacionais e bancos. Segundo o mesmo jornal, é provável que o Presidente da República e o primeiro-ministro sejam convidados para o jantar de sábado.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
A contraofensiva
{{ noCommentsLabel }}