A história da chuva que parecia o mundo a ralhar

  • Vera Eiró
  • 7:00

Agora, temos água a mais, para quem tão recentemente tinha água a menos, e, paradoxo adicional, tantas pessoas e populações com água a mais e sem água na torneira para beber.

Escrevo a 29 de janeiro de 2026. Escrevo de Lisboa e sei bem que o que vejo da janela não é o que se passa em muitas zonas do nosso país.

A situação é de crise e a minha palavra primeira é de solidariedade para com todas as comunidades mais afetadas. E espero que, até à data da publicação destas breves notas, já tenhamos conseguido, como país, dar resposta a tantas pessoas que enfrentam, na primeira pessoa, um paradoxo da água: têm água a mais e têm água a menos.

Explicando melhor e começando pelo princípio.

As crises climáticas são sempre crises de água no que importa o impacto para os seres humanos.

Os transtornos que afetam o nosso bem-estar começam tipicamente pela tempestade, que destrói e inunda, e pela escassez, que destrói e seca. E o que é paradoxal e tantas vezes difícil de explicar é que as zonas onde sentimos as tempestades que inundam são, frequentemente, também zonas onde experienciamos a escassez que seca.

Em Portugal, por exemplo, ocorreram eventos extremos e preocupantes no Algarve, em Trás-os-Montes, no Alentejo, com a situação de escassez que se viveu em 2022, 2023 e 2024.

Agora, a escassez de água que sentimos parece esquecida. Já nem nos lembramos. A chuva e o vento (que parecem o mundo a ralhar como escreveu Carolina Deslandes) assolam o país, de Norte a Sul, deixando um lastro de destruição. E, agora, temos água a mais, para quem tão recentemente tinha água a menos, e, paradoxo adicional, tantas pessoas e populações com água a mais e sem água na torneira para beber.

As crises climáticas são sempre crises de água. Não é demais repetir.

Por isso, temos de levar a gestão da água muito a sério e não nos confundirmos, nem perdermos o foco, nestes sinais de mais e de menos que se vão sucedendo e são, por vezes, coincidentes.

O mundo está, diz-nos as Nações Unidas no mais recente relatório publicado já em 2026 sobre o tema (“Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”), em estado de falência hídrica global. Já não é uma crise (que é temporária), nem é um problema técnico ou ambiental local. Trata-se de um fenómeno de natureza global, interligado, que compromete o bem-estar humano, a segurança alimentar, a estabilidade económica e a paz social. Portugal, não sendo, felizmente, uma das zonas mais críticas do globo, está numa Europa em falência hídrica silenciosa, disfarçada pelas infraestruturas robustas, e é uma das regiões europeias mais expostas à falência hídrica.

Reconheço, porém, que é muito difícil comunicar, a esta data, sobre escassez. É também difícil sinalizar, vai parecer que não vivo neste mundo!, que o recurso água (ou a potencial falta dele) tem de ser tomado em consideração quando se planeiam projetos assentes na eletrólise (da molécula da água, evidentemente), porque, realmente, a escassez pode mesmo chegar e projetos que assentam no uso de água têm de ser ponderados também a esta luz.

Tal como é muito difícil relembrar o que deve ser feito para evitar as faltas de água para beber, sentidas agora, por tantas e tantas pessoas, neste cenário de aparente excesso de água. A saber: as entidades gestoras dos serviços de abastecimento de água terem os reservatórios completamente cheios antes do início da tempestade, terem geradores e combustível para as zonas de abastecimento e, claro, terem comunicado a necessidade de a população regrar os consumos na pendência e no pós-tempestade, e falar-lhes do kit de emergência que deve ter 5 litros de água, por pessoa, pelo menos, para que as populações possam enfrentar o tempo de espera. O tempo de espera que é o tempo que é sempre necessário em situação de disrupção até que o Estado e as autarquias cheguem para socorrer, para cuidar e para dar a segurança que a população tem, sempre, de ter e de sentir.

É difícil relembrar tudo isto.

Não é hora para pensarmos no que devíamos ter feito. É hora de agir, em conjunto, porque a ação, como diria o poeta, é a forma da inteligência verdadeira.

  • Vera Eiró
  • Presidente da ERSAR -- Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, presidente da WAREG (European Water Regulators) e professora da Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Direito)

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