A ideologia que queria ser teoria

A tentação de abraçar a Teoria Monetária Moderna vai revelar-se irresistível para muita gente, mas é muito melhor para vender sonhos do que para gerar crescimento económico sustentado.

Volvida uma década desde a Grande Crise Financeira e, não obstante a recuperação económica global, o endividamento mundial, sobretudo dos estados, não parou de crescer. Tal circunstância constitui uma restrição à política económica, pois à medida que os rácios de dívida pública crescem torna-se mais difícil e oneroso financiar os défices nos mercados de capitais. A não ser, claro, que se dispensem os investidores dessa tarefa.

Mas como?

É simples. O Estado gasta. Se os investidores não cederem os seus fundos a baixo custo, o banco central emite moeda e financia a despesa pública.

Mas isso não viola todas as regras de política económica?

Sim, à luz das teorias convencionais. Acontece que para um coro cada vez mais estridente de ativistas o mundo precisa de uma visão moderna da economia que liberte os nobres intentos do estado do jugo dos detentores do capital. A solução é a chamada Teoria Monetária Moderna (TMM).

A TMM parte da ideia de que a moeda é um monopólio do banco central de cada país e, como tal, pode ser produzida nas quantidades suficientes para satisfazer as necessidades financeiras do estado, quaisquer que estas sejam.

Daí decorre o postulado essencial da TMM de que os défices orçamentais são irrelevantes. O facto do desprezo pela sobriedade orçamental poder constituir um risco para os investidores que financiam o estado é um dano colateral de somenos importância que não pode obstar à construção de um futuro mais justo. Resulta como corolário que políticas de consolidação orçamental não só não produzem benefícios para a sociedade, como impedem o estado de prover bens e serviços críticos para a população.

Seria ótimo que a prosperidade dependesse da possibilidade do Estado gastar sem limite. Mas só para as mentes menos versadas nas minudências da economia é que a TMM equivale a um visto para um mundo sem restrições. Na verdade, a TMM é muito melhor para vender sonhos do que para gerar crescimento económico sustentado.

Como tentativa de racionalização de uma ideologia que vê no Estado a solução de todos os problemas económicos, falta muita coisa a esta teoria. Desde logo, falta perceber que a inflação monetária é um imposto que afeta primordialmente os pequenos aforradores, pelo que a presunção de que um elevado nível de despesa pública não implica agravamento da fiscalidade é de uma cândida ingenuidade.

Falta, também, perceber que o abuso da prerrogativa monopolista dos bancos centrais na produção de dinheiro pode destruir a fé dos cidadãos na moeda, que é a quintessência das moedas fiduciárias. Se tal acontecer, as pessoas abandonam o dinheiro oficial em favor de meios de pagamento alternativos (ouro ou a moeda de outro país), num cenário provável de hiperinflação, com consequências económicas e sociais dramáticas. Veja-se a Venezuela.

Na melhor das hipóteses, o financiamento endémico dos défices orçamentais, ao inundar o sistema financeiro de liquidez, impede a regeneração dos tecidos podres do setor empresarial, o que conduz a uma estagnação perene, de que as quase três décadas perdidas do Japão são um eloquente exemplo.

A tentação de abraçar a TMM vai revelar-se irresistível para muita gente, o que promete um incessante crescimento da sua popularidade. Como muitas vezes acontece com estes fenómenos, quem questionar a bondade desta teoria arrisca-se a ser acusado de insensibilidade social, de indiferença para com os mais pobres, de desprezo pelo planeta e de outros pecados na religião do politicamente correto. Mas, demagogia à parte, a TMM não é uma teoria, não é monetária e muito menos moderna.

  • Não é teoria, é um expediente para legitimar uma ideologia, que não sendo economicamente sustentável, é politicamente atrativa num mundo onde os instrumentos convencionais de política económica já foram esgotados.
  • Não é monetária porque postula a total irrelevância da moeda como mecanismo de alocação dos recursos económicos.
  • Não é moderna porque desde tempos imemoriais que reis e príncipes ignoram a restrição orçamental na prossecução dos seus desideratos políticos e militares, incumprindo nas suas obrigações de dívida ou, simplesmente, depreciando a moeda através de emissão ilimitada de moeda.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

A ideologia que queria ser teoria

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião