A pessoa antes da vitória
Antes da vida que queremos, antes da carreira que ambicionamos, antes das batalhas que teremos de enfrentar, devemos perguntar-nos: quem estamos a escolher ser?
Há uns tempos, recomendaram-me o livro “Build the Life You Want”, de Oprah Winfrey e Arthur C. Brooks. O título prometia, assim à primeira vista, a resposta para uma das maiores aspirações humanas: como construir uma vida bem vivida, de que nos orgulhemos e que nos preencha.
Depois de o comprar, e enquanto o folheava, lembrei-me de um outro livro escrito há mais de dois mil anos e que, aparentemente, nada tem em comum com este: “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. Um fala de felicidade. O outro de estratégia militar. Um procura ensinar-nos a viver melhor. O outro ensina a vencer batalhas. Em comum? Ambos parecem partir da mesma convicção de que aquilo que acontece no fim (seja de um projeto, de uma decisão ou da vida!) depende, em larga medida, da preparação que fazemos antes.
Sun Tzu escreve que “toda a batalha é vencida antes de ser travada”. Não porque o resultado esteja determinado, mas porque quem se prepara melhor para (qualquer) batalha aumenta significativamente as probabilidades de sucesso. Talvez o mesmo aconteça com a vida (ainda que esta não precise de ser encarada como uma batalha e ganhe muito mais em ser vista como uma viagem).
Dizia-me um amigo, no outro dia, que vivemos tempos incríveis (ou, nas palavras dele, “temos uma sorte em viver nestes tempos”). Nunca tivemos acesso tão rápido e quantidades tão massivas de conhecimento. Aprendemos novas competências, frequentamos formações, ouvimos podcasts, atualizamos currículos, procuramos acompanhar a velocidade da inteligência artificial e das transformações do mercado de trabalho… Investimos muito (e bem!) naquilo que sabemos ou que queremos saber fazer.
A questão que se levanta, no entanto, é se investimos com a mesma dedicação e empenho na pessoa que escolhemos ser? É verdade que as competências nos tornam profissionais mais preparados. Mas o carácter torna-nos pessoas em quem os outros podem confiar.
As competências ajudam-nos a conquistar oportunidades ou a especializar-nos mais, mas é o carácter que nos ajuda a honrá-las. As competências podem abrir portas, mas o carácter determina aquilo que acontece depois das portas se abrirem.
No mundo empresarial, fala-se frequentemente das competências do futuro, da importância do pensamento crítico, da criatividade, da inteligência emocional, da adaptabilidade e da comunicação. Todas elas serão (são!) decisivas. Mas existe uma construção silenciosa e mais determinante que as deve anteceder e correr sempre a par com elas: a construção do nosso carácter.
O carácter que se revela quando ninguém está a avaliar o nosso desempenho, a ver o que fazemos e como fazemos. Quando escolhemos entre o caminho mais fácil e o mais correto. Quando reconhecemos um erro. Quando damos crédito à equipa ou às pessoas com quem trabalhamos. Quando cumprimos uma promessa que ninguém nos cobraria. No fim do dia, são estas decisões discretas que acabam por construir aquilo a que chamamos reputação.
Ao longo da minha atividade profissional, tenho conhecido pessoas extremamente competentes. Algumas deixam uma marca inesquecível. Outras passam quase despercebidas. Raramente, a diferença está apenas no talento. Mas, muitas vezes, está na forma como tratam os outros, na coerência entre aquilo que dizem e aquilo que fazem, na serenidade com que enfrentam as dificuldades e na confiança que inspiram.
Oprah Winfrey e Arthur Brooks convidam-nos, assim, a pensar na vida que queremos. Sun Tzu recorda-nos a importância da preparação. Estes livros fizeram-me juntar ambas as ideias e acrescentar uma terceira.
Antes da vida que queremos, antes da carreira que ambicionamos, antes das batalhas que teremos de enfrentar, devemos perguntar-nos: quem estamos a escolher ser?
Porque, no fim (seja qual e quando for), a maior vitória não vai ser alcançar resultados. Vai ser perceber que, enquanto caminhávamos para eles, nos tornámos alguém de quem nos orgulhamos.
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