A tragédia Trump

O que choca mais é a forma como Trump renega aos princípios de livre mercado, que nos habituámos a associar à América, ao mesmo tempo que abraça os métodos autoritários que associamos às ditaduras.

O conflito entre os Estados Unidos e a China acaba de atingir novo patamar, depois de Trump ter anunciado a decisão de expulsar dos Estados Unidos a subsidiária norte-americana da empresa chinesa TikTok. Insatisfeito, Trump exigiu ainda uma recompensa (ou uma comissão?), a ser paga ao Tesouro, no caso de a TikTok vir a ser adquirida pela Microsoft, de quem se fala como interessada, ou por outro alguém que nos Estados Unidos venha a adquirir a subsidiária daquela empresa chinesa. A TikTok tem até 15 de Setembro. Ou vende a subsidiária ou é expulsa da América. Enfim, como nunca imaginei ver tal coisa nos Estados Unidos, estou chocado.

Do presidente Trump já nada devia surpreender. A sua presidência está a terminar e, na política económica, com excepção da reforma que promoveu ao IRC norte-americano, que foi bem conseguida, a sua acção tem sido pouco mais do que uma lástima. Na política económica, tem-se destacado a guerra comercial com a China que, depois das escaramuças em redor das tarifas aduaneiras, tem evoluído mais recentemente para intervenções tão ou mais nefastas, de que é exemplo a expulsão arbitrária de empresas sob o argumento da ameaça à segurança interna.

Na relação com a China não pode haver lugar à ingenuidade. Sabemos que do outro lado está uma espécie de capitalismo de Estado e que no fim está o Partido Comunista chinês. O dinheiro chinês vem frequentemente envolto de ajudas de Estado, o que dependendo das jurisdições pode constituir concorrência desleal. Ao mesmo tempo, também sabemos que a abordagem da China às regras de privacidade e segurança segue princípios que não os ocidentais. Mas entre a necessidade de não sermos ingénuos e o desplante de Trump vai alguma distância.

O que choca mais nisto tudo é a forma como Trump renega aos princípios de livre mercado, que nos habituámos a associar à América, ao mesmo tempo que abraça os métodos autoritários que associamos às ditaduras. Putin não faria melhor. Esperar-se-ia, pois, alguma tentativa de justificação das medidas, que são selectivas e discricionárias, para além de uma vaga referência, politicamente conveniente, à segurança interna. Mas não. O que vemos é a total falta de noção de Trump que vai ao cúmulo de exigir uma recompensa por ter facilitado a expropriação.

O exemplo proveniente dos Estados Unidos levará a que amanhã outros países façam o mesmo. Pois se até a América recorre à expropriação, através da coerção do Estado, por que razão outros países deixarão de fazer igual (inclusive a empresas norte-americanas)? O resultado desta escalada será a redução do investimento directo estrangeiro, que já estava em declínio um pouco por todo o mundo e que agora mais vulnerável ficará. A outra vítima neste processo será o respeito pela lei (“rule of law”), matéria na qual também se reconhecia um papel à América.

Há quem argumente que Trump está a lidar com a China conforme esta lidou com certas tecnológicas norte-americanas, que outrora foram impossibilitadas de entrar no mercado chinês. Mas há diferenças. A imposição de barreiras à entrada, sejam estas na forma de tarifas ou de exigências regulatórias, reflectem a existência de regras relativamente previsíveis, gostemos ou não delas (e eu não gosto). Todavia, no caso da expulsão de empresas específicas, através de agências governamentais instrumentalizadas para o efeito, pressente-se o facho.

À medida que se aproximam as eleições norte-americanas, que constituirão outro problema – sobre isto recomendo um excelente artigo do Financial Times intitulado “Trump vs Biden: can America conduct a fair election?” –, é caso para perguntar: os Estados Unidos pretendem manter a liderança mundial ou vão relegar-se ao declínio? E onde estão os célebres freios e contrapesos da democracia norte-americana? Enfim, é trágica a direcção tomada pela América de Trump. Porém, como a alternativa não é nada inspiradora, é provável que demore algum tempo até que as peças voltem ao seu devido lugar. Vivemos tempos muito traiçoeiros. O mundo sofre.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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