Editorial

André Ventura pode mesmo ser Presidente da República?

Numa segunda volta entre André Ventura e Gouveia e Melo, os primeiros derrotados seriam os partidos do centro. E se a rejeição dos eleitores for ao sistema, mais do que a Ventura?

Os debates presidenciais estão a chegar ao fim e as sondagens estão progressivamente a afunilar para um cenário central, com André Ventura, Marques Mendes e Gouveia e Melo como os principais candidatos a passarem à segunda volta, enquanto António José Seguro e João Cotrim Figueiredo estão à espreita, mas com um caminho muito estreito. A pergunta, incómoda, ganha força: André Ventura pode mesmo vir a ser Presidente da República?

Quem acompanha mais ou menos de perto os debates presidenciais — e as sondagens — percebe uma mudança de estratégia de André Ventura na corrida a Belém. Começou por ser uma candidatura por falta de alternativas: Arrependeu-se do apoio inicial ao “socialista” Gouveia e Melo e não foi capaz de convencer Pedro Passos Coelho. Depois, percebeu que tinha nesta corrida uma oportunidade para afirmar e reforçar o papel do Chega com o objetivo de ganhar as legislativas, mas chega a este ponto do debate e começa a convencer-se de que, afinal, pode mesmo vir a ganhar as presidenciais. E já intuiu qual é o cenário da segunda volta em que tem melhores condições para o atingir.

Ventura tem o seu eleitorado natural conquistado, e agora, está a afinar a estratégia de comunicação para alargar a sua base potencial a eleitores querem castigar os partidos o sistema mas, ainda assim, não gostam do estilo agressivo e confrontacional de Ventura. Querem um Presidente mais contido, mais institucional e ao mesmo tempo exigente e que dê murros na mesa.

Nos debates com António Filipe e com Gouveia e Melo, viu-se outro Ventura, embora aqui e ali com deslizes que têm a ver com a sua natureza. Deixou o adversário falar, foi mais cuidadoso na linguagem, evitou ataques de caráter pessoal. Mas estes debates, e particularmente o de ontem, segunda-feira. revelou outra coisa: Ventura está convencido de que tem vantagens em ir à segunda volta com Gouveia e Melo.

No debate da RTP, o líder do Chega pareceu sempre daqueles condutores que podem ir mais depressa mas escolhem não o fazer. Ventura permitiu um debate equilibrado, e isso favoreceu Gouveia e Melo, que teve a sua melhor prestação televisiva nesta campanha). Mas esta estratégia não foi apenas resultado da necessidade de alargar o potencial de eleitores. Às tantas, Ventura confessou que há duas eleições, a da primeira e a da segunda volta, e acrescentou saber que na segunda eleição, se lá chegar, vai ser uma espécie de ‘todos contra um’. Mas isto é especialmente verdade se estiver em causa a defesa do sistema atual, com Mendes, tendo em conta até a enorme taxa de rejeição que as sondagens apontam relativamente a Ventura.

Henrique Gouveia e Melo, como Ventura, vai buscar votos a todos os partidos, mas é no centro, onde diz estar, que há mais eleitores. E Ventura percebe que uma queda do Almirante significará um reforço de Marques Mendes (e também de Seguro), por isso, se atropelasse Gouveia e Melo, estaria a dar uma ajuda ao candidato apoiado pelo PSD… e pelo sistema.

Numa segunda volta entre André Ventura e Gouveia e Melo, os primeiros derrotados seriam os partidos do centro. Seria a confirmação de que os portugueses querem castigar o sistema, seja por via de uma candidatura que vem de fora ou de uma candidatura que está contra o próprio sistema. Gouveia e Melo e Ventura têm pontos em comum, mais do que aqueles que gostariam de ter, mas o ponto relevante é outro: E se a rejeição dos eleitores for ao sistema, mais do que a Ventura? E se é para romper com o sistema, quem é que os portugueses vão escolher?

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