“Born to Die”? Só se o Porto arriscar hipotecar o futuro
Entre ser um postal medieval ou uma plataforma de inovação, o Porto que saiba escolher.
No extraordinário novo álbum, “Pain to Power”, dos britânicos Maruja a canção “Born to Die” carrega um tom fatalista, de inevitabilidade. A vida nasce já marcada pela morte, o percurso começa já com um fim anunciado. É uma metáfora poderosa para pensar o destino de cidades que, por opção da sua liderança política, recusam a mudança e confundem qualidade de vida com a ideia de “menos gente, menos densidade, menos confusão” e, portanto, falam de “cidade do futuro”.
No Porto, tem sido apresentado um discurso que associa prosperidade à contenção, como se a cidade apenas pudesse garantir bem-estar afastando novos habitantes e limitando a construção. Esta visão parte de uma premissa enganadora: que a qualidade de vida se mede pela baixa densificação. Na realidade, as cidades que hoje se destacam como exemplos de vitalidade económica, inovação tecnológica e sustentabilidade são precisamente aquelas que souberam articular densidade com qualidade urbana.
Veja-se o caso de Seul, uma metrópole de mais de 10 milhões de habitantes, que conseguiu transformar áreas sobrepovoadas em distritos vibrantes, com transportes públicos de excelência e uma cultura tecnológica que alimenta todo o país. Não é a baixa densidade que dá qualidade de vida em Seul, mas sim a capacidade de gerir a concentração de pessoas com inteligência urbana e investimento público.
Mais próximo de nós, Bilbau é outro exemplo. Cidade industrial em declínio nos anos 80, reconfigurou-se através da cultura, da reabilitação urbana e de um modelo de densidade equilibrada que sustenta hoje serviços, habitação e emprego. A transformação bilbaína mostra que a densidade pode ser motora de regeneração e não inimigada qualidade de vida.
Manchester, precisamente a cidade dos Maruja, é outro exemplo de como não ter medo do futuro pode transformar uma comunidade. Marcada pelo declínio industrial e pelo desemprego massivo no final do século XX, soube reinventar-se através da cultura, da música, da ciência e da economia criativa. Investiu em universidades, em clusters tecnológicos e em regeneração urbana, tornando-se um dos polos mais dinâmicos do Reino Unido. O que poderia ter sido um destino de estagnação foi convertido em plataforma de inovação e diversidade. Ao contrário da visão que teme a densidade, Manchester mostra como a vitalidade nasce da capacidade de atrair pessoas, ideias e empresas, exatamente o que o Porto arrisca comprometer se optar por fechar-se em vez de se continuar a abrir.
Copenhaga, frequentemente citada como capital verde da Europa, também não assenta o seu sucesso em dispersão urbana. Pelo contrário: é a densidade que permite a bicicleta ser meio de transporte maioritário, que sustenta comércio de proximidade e que alimenta uma rede de serviços sociais robusta. Qualidade de vida aqui não é isolamento, é comunidade.
O mesmo vale para Viena, que alia habitação pública de qualidade com forte densidade. A cidade oferece rendas acessíveis a mais de metade da população e sustenta um dos sistemas culturais mais ricos da Europa. A densidade bem gerida torna-se condição de igualdade de oportunidades, e não obstáculo ao conforto.
Perante estes exemplos, o risco para o Porto é claro. Ao insistir numa visão que recusa crescimento e densificação, parte-se do pressuposto de que a cidade só será habitável se for pequena, quase ruralizada, um espaço de exceção reservado a poucos. É uma leitura que mais se aproxima de um imaginário medieval, em que o “intramuros” protege contra o exterior, do que de uma estratégia moderna de desenvolvimento urbano.
O contraste torna-se ainda mais gritante quando olhamos para os últimos 12 anos do Porto. A cidade registou um aumento da população residente, atraiu milhares de novos estudantes e profissionais estrangeiros, viu nascer um ecossistema de start-ups reconhecido internacionalmente e consolidou-se como polo turístico e tecnológico. O PIB regional cresceu, a oferta cultural diversificou-se e a projeção internacional da cidade nunca foi tão forte. Este dinamismo, que resulta da abertura ao mundo e da capacidade de atrair pessoas, está em total contradição com a narrativa de medo e retração que agora alguns defendem.
Uma cidade pouco densa e pouco dinâmica acaba inevitavelmente por aumentar a sua dependência de Lisboa. Sem escala demográfica, sem vitalidade económica e sem capacidade de atrair talento, o Porto arrisca tornar-se satélite de um país excessivamente centralizado.
A falta de densidade não gera qualidade de vida, mas sim fragilidade: serviços que deixam de ser sustentáveis, empresas que preferem instalar-se na capital, jovens que partem em busca de oportunidades. O resultado é uma cidade que abdica da sua autonomia e se resigna a viver à sombra do centralismo lisboeta, em vez de afirmar a sua própria voz no espaço nacional e europeu.
Portugal precisa de se assumir como um país multipolar, capaz de valorizar diferentes centros urbanos e não apenas Lisboa. E o Porto tem aqui uma responsabilidade histórica: não se pode contentar em ser uma cidade envergonhada, pequena ou retraída, mas sim afirmar-se como motor da sua área metropolitana e da região Norte.
Só com uma liderança clara, orgulhosa e ambiciosa o Porto poderá fixar talento, atrair investimento e dar escala ao país no contexto europeu. Uma cidade que se fecha é uma cidade que declina; uma cidade que lidera é uma cidade que projeta futuro.
Se a canção dos Maruja sugere que estamos “nascidos para morrer”, a política do “pequeno Porto” corre o risco de adotar essa profecia como programa: uma cidade que recusa densidade, recusa novas pessoas e recusa futuro está de facto a preparar a sua própria irrelevância. Ao contrário do enunciado, olhar para Seul, Bilbau, Manchester, Copenhaga e Viena é perceber que não é o número de pessoas, a construção que ameaça a qualidade de vida, mas sim a falta de políticas inteligentes para integrar mais pessoas na cidade.
Deste modo, parece-me claro que o verdadeiro desafio do Porto não é afastar novos habitantes, mas antes acolhê-los de forma integrada e sustentável. Não é limitar densidade, mas geri-la com inovação, habitação acessível e espaços públicos de qualidade. O medo do futuro leva ao imobilismo; a confiança no futuro, pelo contrário, leva à construção de cidades vivas e prósperas. Entre ser um postal medieval ou uma plataforma de inovação, o Porto que saiba escolher.
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