“Calamidade (política) Atrás de Calamidade”

Aproximam-se os Óscares. Talvez isso explique porque vimos atores políticos, guionistas ministeriais e realizadores governamentais a exibirem dotes cinemáticos com uma tragédia como pano de fundo.

O elenco para este disaster movie é, lamentavelmente, bastante alargado. O cenário era catastrófico, tempestades como nunca vistas a provocarem mortes e destruição em várias zonas país. Joseph, especialmente Kristin, e depois Leonardo davam nomes à depressão coletiva e imparável, mas os nomes de alguns atores políticos também figuraram nos créditos iniciais, daqueles que aparecem quando a ação já se está a desenrolar.

Tal como uma grande maioria do país, o Governo demorou um bocado a perceber a dimensão do evento meteorológico que caiu em cima da região de Leiria e outras. Estávamos todos distraídos com o debate da segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura? Talvez. Logo a seguir, ficámos como nação presos à TV a admirar as vitórias de Sporting e Benfica na Champions? Se calhar.

As autoridades têm de estar em alerta permanente e imunes a distrações, mas deve ser muito difícil para os governantes perceber o preciso momento em que um evento se torna numa catástrofe que precisa de ação focada, urgente e eficaz. O Governo demorou a entrar em cena, foi criticado pela oposição e começou a atuar. Escaldado pelos eventos do verão passado, quando não cancelou a Festa do Pontal enquanto várias partes do país ardiam, Luís Montenegro cancelou as viagens a Andorra e Croácia e apareceu em Leiria, numa visita rápida e improvisada, na qual o ar de pesar não conseguiu esconder por completo o bizarro ligeiro sorriso que produz sempre que fala aos jornalistas, qualquer que seja a circunstância.

A minha crítica principal a este filme não é o timing da ação do Governo, aí até há atenuantes. É no próprio guião, que especialmente nas cenas iniciais de cenas inverosímeis e fracas para uma película de ação que se queria de qualidade.

Qualidade de produção de facto não faltou no curto vídeo que António Leitão Amaro, o ministro da Presidência de Conselho de Ministro, publicou no X antes de rapidamente o despublicar. Cortes rápidos, com violinos na banda sonora e alternando entre imagens a cores e outras a preto e banco, o ministro aparecia de mangas arregaçadas, ao telefone, ao computador, a roer as unhas, concentrado, encostado em pose de reflexão. Tom Cruise estará certamente interessado em interpretar o papel no remake em Hollywood.

Inundado por críticas de autopromoção numa altura de crise, Leitão Amaro defendeu que o vídeo foi retirado e “não era o objetivo desejado”, “porque [a publicação] foi entendida de uma forma que não é a forma pretendida”, e claro “a interpretação que suscitou em algumas pessoas era injustificada”.

O foco tem de estar na ação do Governo. Montenegro fez bem em falar aos portugueses na quinta-feira, esclarecer os apoio e acrescentar mais alguns. Pode ter sido tarde, mas melhor tarde do que nunca. O primeiro-ministro acabou por sublinhar que os ministros estão muito focados. Ainda bem, mas teria sido melhor se tivessem estado mais focado logo no início em vez que tratarem os afetados pelas tempestades como meros extras e nós como o público.

Vários pontos sobre este momento cringe. Primeiro, se não era esse o objetivo, qual era? É difícil imaginar outro. Segundo, o ministro deixou no ar a ideia que delegou a produção e publicação do vídeo a alguém da equipa que não percebeu o objetivo. Se não controla a própria equipa em momentos de tensão então se calhar não devia estar a gerir crises. E terceiro, claro que a culpa é sempre dos outros (especialmente da oposição e dos jornalistas) porque interpretaram a curta metragem de forma injusta.

Se para o prémio de melhor ator principal o Governo apresentou a candidatura de Leitão Amaro, para o de melhor guião original submeteu a do ministro da Economia e da Coesão Territorial. Com um histórico de escrever deixas surpreendentes, Manuel Castro Almeida conseguiu cometer mais uma gaffe descuidada ao aconselhar as vítimas da depressão Kristin a usar o ordenado de janeiro para as primeiras necessidades até que cheguem os apoios do Estado. Acabou por recuar no dia seguinte, dizerndo que se as pessoas interpretaram como “falta de sensibilidade” é porque as palavras não foram felizes”. Ainda assim não conseguiu redimir-se completamente, fazendo um auto-elogio: “porque falta de sensibilidade é mesmo o oposto do que se passa comigo”.

Para a estatueta de efeitos visuais a campanha mais forte é a da ministra da Administração Interna, que conseguiu desaparecer do território durante os primeiros dois dias da calamidade, aparentemente sem alterar a agenda normal. Pior ainda, quando finalmente apareceu, pareceu confusa e pouco convincente perante as câmaras. Maria Lúcia Amaral já tinha sido muito criticada sobre a resposta aos incêndios no ano passado. Agora vai ter mais um teste de fogo quando for responder às perguntas da Comissão de Assuntos Constitucionais esta quarta-feira sobre a reação do Governo à Depressão Kristin.

O Óscar para a melhor produção deve estar bem encaminhado para Nuno Melo. O ministro da Defesa Nacional visitou o dispositivo militar destacado para apoiar a população afetada pela tempestade em Vieira de Leiria e em Figueiró dos Vinhos, mas foi fortemente contestado pelos populares, que o acusaram de destacar militares sobretudo para “montar o estaminé e tirar fotografias”, enquanto outras zonas mais afetadas continuavam a aguardar apoio urgente.

Podia ainda falar do Presidente da República, que deve ter sentido algum FOMO (fear of missing out) e também cancelou uma viagem a Espanha para poder fazer várias aparições nos locais afetados, sempre a falar muito e nem sempre da forma mais focada. Perto do fim do segundo mandato, e da carreira política, deve estar à procura do Lifetime Achievement Award. Ou ainda dos querem suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, que foram obrigados por um dos candidatos a discutir a ideia duvidosa de adiar as eleições por completo.

Mas o foco tem de estar na ação do Governo. Montenegro fez bem em falar aos portugueses na quinta-feira, esclarecer os apoio e acrescentar mais alguns. Pode ter sido tarde, mas melhor tarde do que nunca. O primeiro-ministro acabou por sublinhar que os ministros estão muito focados. Ainda bem, mas teria sido melhor se tivessem estado mais focados logo no início em vez de tratarem os afetados pelas tempestades como meros extras e nós como o público.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

“Calamidade (política) Atrás de Calamidade”

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião