E se a Carris fosse privada e operasse em concorrência?
Se a Carris fosse privada e operasse em concorrência, o que aconteceria à sua gestão? Teria de sair imediatamente, cairia de imediato sob pressão dos acionistas, dos clientes e do mercado.
Carlos Moedas falou pela primeira vez desde a tragédia do Elevador da Glória — para lá das intervenções de circunstância dos primeiros dias — e falou bem (em quase tudo). O presidente da Câmara de Lisboa explicou de forma cristalina o que considera ser a condição para apresentar a demissão — e que, do que é público, manifestamente não se cumpre –, recuperou a iniciativa política e mostrou empatia. Mas falhou nas ilações que retirou da primeira avaliação à tragédia da Glória.
Vamos por partes: Como já tinha escrito aqui no Login no dia seguinte à tragédia, pede-se a demissão dos políticos por tudo e por nada, quando esse caminho deve estar sempre associado a uma decisão com impacto direto ou indireto no desfecho de uma crise, qualquer que ela seja. E Moedas, do que se sabe, não tomou decisões que contribuíssem para o descarrilamento da cabina do Elevador da Glória. Mais ainda, a um mês de eleições, os eleitores de Lisboa vão ter a oportunidade de avaliar o que tem sido a liderança do presidente da Câmara depois daquela tragédia (além, claro, da governação da cidade nos últimos quatro ano).
Coisa diferente é a análise que o Carlos Moedas faz da primeira avaliação do descarrilamento. Não houve falha humana? Houve, claro, falha humana na capacidade de proteger passageiros, de prestar um serviço em segurança. Morreram 16 pessoas, há feridos, e para pôr em contexto, o mais violento dos ataques russos com drones a Kiev não matou tanta gente. É a medida da gravidade do que se passou.
O Presidente da República disse de forma clara que tem de haver quem assuma as responsabilidades, e isso só pode ser feito pela Carris, e pela sua gestão. O descarrilamento no Elevador da Glória não resultou de um terramoto, não foi um fenómeno natural, não foi uma fatalidade fora do controlo humano. Foi uma falha técnica num sistema operado pela Carris, uma empresa pública que tinha uma obrigação primeira: garantir a segurança dos passageiros.
O relatório do GPIAAF mostra que o sistema dependia de um único cabo, sem redundância eficaz, e que os travões nunca poderiam suster uma descida descontrolada. Não é preciso ser engenheiro para concluir que a empresa falhou. Quinze pessoas morreram num equipamento que deveria estar sob máxima vigilância — e não estava. Qual é mesmo a dúvida?
E aqui impõe-se uma reflexão: se a Carris fosse privada e operasse em concorrência, o que aconteceria à sua gestão depois de uma tragédia destas? Teria de sair imediatamente — coisa que, aliás, já se sabe, o presidente da Carris defendeu de forma digna –, cairia de imediato sob pressão dos acionistas, dos clientes e do mercado. No setor público, a tentação é dispersar responsabilidades até se diluírem. Essa diferença é também política.
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