E se Marques Mendes desistisse (a favor de Cotrim)?

As sondagens estão a apontar para um cenário de três candidatos fortes à segunda volta. Se Ventura for um dos três, vem aí uma nova dinâmica política com consequências na governabilidade.

A corrida às eleições presidenciais de domingo está a chegar ao fim e as cartas estão lançadas: Há, na verdade, três candidatos para dois lugares para a segunda volta no dia 8 de fevereiro. André Ventura, António José Seguro e João Cotrim Figueiredo, enquanto Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes estão virtualmente fora da corrida. Perante este cenário que tem uma elevadíssima probabilidade de se confirmar, como demonstram as sondagens, quais serão as consequências para a governabilidade do país e, em função disso, quais são as alternativas que se põem?

Em primeiro lugar, o que nos dizem as sondagens, quer a tracking poll da CNN/TVI/JN/TSF, quer a sondagem da RTP/Público? Além dos valores globais que podemos ver nos gráficos abaixo, a leitura dos dados nas entrelinhas permite perceber que Seguro tem… seguro o voto à esquerda enquanto Ventura tem a base de apoio do Chega também garantido. Já Cotrim Figueiredo, que ultrapassa em muito, nas intenções de voto, o peso da Iniciativa Liberal, vai buscar cerca de 25% dos votos dos eleitores da AD nas legislativas, tendo por isso margem para crescer, mas apenas à custa de Marques Mendes.

 

Outro dado: O Governo tem pela frente uma legislatura de mais três anos e meio, mas sempre dependente da capacidade de gestão política com o Chega e do tempo que o PS precisará para se reconstruir (coisa, aliás, que também poderá acelerar com uma vitória de António José Seguro). Mas se este é o cenário central, é possível antecipar um outro, bem diferente, que resulte da passagem de Ventura à segunda volta. Neste caso, com o líder do Chega legitimado em voto direto, e provavelmente até com uma uma votação superior à do próprio Montenegro nas legislativas, é mais do que provável o regresso dos portugueses às urnas dentro de um ano. Dito de outra, o pior dos resultados para a governabilidade do país é mesmo a passagem de André Ventura à segunda volta. Montenegro ficará entre um Presidente socialista em Belém e um líder da oposição do Chega no Parlamento que mudam as regras do jogo. Passará, ele próprio, a governar a partir de fevereiro para as eleições antecipadas, como o fez, de resto, no primeiro Governo, e se não cair por causa do orçamento, cairá por outro qualquer diploma.

João Cotrim Figueiredo, em recuperação de um início de semana horrível, mandou uma carta a Luís Montenegro a pedir o apoio do PSD. Não o deveria ter feito. Obviamente, é uma estratégia que quer criar um novo facto político e pressionar o eleitorado do PSD, mas sem qualquer ambição de convencer o primeiro-ministro. Montenegro empenhou-se na campanha de Luís Marques Mendes, o PSD declarou o seu apoio em devido tempo, mas nem isso chegou para convencer os eleitores da AD a seguirem esta ‘indicação de voto’, medido pelos dados das sondagens: Apenas cerca de 30% dos eleitores da AD admitem votar em Marques Mendes, e muito dele fugiu para Cotrim (e também para Gouveia e Melo e para António José Seguro). Neste quadro, qual é a melhor alternativa possível para o Governo? Não poderá, obviamente, deixar de manter o apoio a Marques Mendes, já foi longe de mais, mas isso significa que a derrota será também do PSD, por isso a única solução seria mesmo a desistência do antigo comentador da SIC.

Do ponto de vista legal, Marques Mendes, ou qualquer outro candidato, poderá desistir até 72 horas antes do ato eleitoral, portanto, esta quinta-feira até ao final do dia. O problema não é obviamente jurídico, é político. A probabilidade de haver uma desistência de Mendes é pouco superior a zero por cento, seria necessário um golpe de rins político de Mendes que não se adivinha, seria necessária uma ousadia de Montenegro que não se antecipa. E por isso, preparem-se, os mini-ciclos políticos de legislatura estão aí ao virar da esquina.

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