E se um diploma não bastar?

  • Miguel Copetto
  • 14:00

Hoje, preparar-se já não significa apontar a um destino seguro, mas cultivar a capacidade de aprender, desaprender e reaprender ao longo da vida.

As últimas décadas revelaram que o mundo deixou de caber na linearidade que outrora o descrevia. A vida profissional, antes organizada em etapas previsíveis, tornou-se um território moldado pela incerteza, pela aceleração tecnológica e por uma exigência contínua de reinvenção. As instituições de ensino superior, por natureza conservadoras e estruturadas em ritmos longos, enfrentam hoje um desafio que já não é conjuntural: o de preparar estudantes para um futuro feito de competências que ainda não existem e de oportunidades que ainda não sabemos antecipar.

É neste contexto que cresce a procura por uma segunda licenciatura — não como adorno académico ou adiamento da entrada no mercado de trabalho, mas como uma escolha ponderada para enfrentar a imprevisibilidade que marca o futuro profissional.

A investigação recente ajuda a explicar esta tendência. Um estudo da Ohio State University (2024) demonstra que graduados com duas áreas de formação revelam maior resiliência salarial em períodos de crise, sofrendo perdas significativamente menores do que os seus pares com formação única.

Já a análise clássica da Cambridge University Press (2016) confirma benefícios privados e sociais da dupla formação, sobretudo quando as áreas combinadas são distintas e ampliam o campo de visão do estudante. E os dados federais analisados pelo The Hechinger Report (2025) mostram que, nos Estados Unidos, um número crescente de estudantes opta por um segundo major, muitas vezes sem aumentar o tempo total de estudo, tirando partido de créditos sobrepostos e de estruturas curriculares mais flexíveis.

Perante estes estudos, duas questões sobressaem.

Vale mais investir numa segunda licenciatura ou seguir para um mestrado?

Não existe resposta universal. Para quem pretende reorientar de forma profunda o seu percurso — por exemplo, de gestão para enfermagem ou de direito para engenharia informática — uma segunda licenciatura pode fornecer bases estruturantes que um mestrado, por definição mais especializado, não consegue oferecer. Pelo contrário, quando a intenção é aprofundar a área inicial, consolidar competências técnicas ou progredir numa carreira já definida, o mestrado mantém-se como o caminho lógico.

A segunda questão é igualmente relevante: deve a segunda licenciatura aproximar-se da primeira ou ser claramente distinta?

A literatura aponta para duas conclusões complementares. A investigação da Cambridge sugere que a combinação de áreas diferentes — tecnologia e humanidades, artes e negócios, saúde e gestão — tende a produzir perfis mais versáteis, criativos e adaptáveis. Mas estudos posteriores lembram que combinações dentro da mesma família científica também podem gerar valor, sobretudo quando promovem domínio simultâneo de fundamentos e aplicações — como acontece com economia e finanças, engenharia e ciência de dados, psicologia e educação.

A escolha, portanto, depende menos da distância entre as áreas e mais da coerência da estratégia pessoal, da profundidade da reorientação desejada e da natureza das oportunidades que surgirem.

Essa incerteza, que antes poderia ser lida como oscilação conjuntural, tornou-se a marca estrutural do mundo do trabalho. Hoje, preparar-se já não significa apontar a um destino seguro, mas cultivar a capacidade de aprender, desaprender e reaprender ao longo da vida. E, se a aprendizagem ao longo da vida figurou durante décadas como ideal pedagógico, impõe-se agora como a resposta indispensável a um horizonte profissional intrinsecamente mutável.

No essencial, a questão não é saber se uma segunda licenciatura vale a pena?

A questão é saber se, em Portugal, estamos a criar as condições — institucionais, curriculares e culturais — que permitam a cada pessoa aprender ao longo de toda a vida, com a liberdade e a flexibilidade necessárias para enfrentar um mercado de trabalho impossível de antecipar.

A revisão em curso do regime jurídico dos graus e diplomas oferece uma oportunidade rara para aproximar o sistema deste futuro. Resta saber se estaremos à altura do desafio. Porque tudo indica que caminhamos para um tempo em que um único diploma poderá, com toda a probabilidade, não bastar.

*Este artigo reflete a opinião do autor e não, necessariamente, da APESP

  • Miguel Copetto
  • Diretor-executivo da APESP

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