Elites frágeis
A discussão que sucedeu a morte de Manuel Reis diz muito sobre nós. Mais importante que a porta do Frágil é a porta giratória em que vivem as elites portuguesas.
Deixem-me começar este texto com uma confissão: se o título da notícia da morte de Manuel Reis, há quase duas semanas, não tivesse incluído o aposto ou continuado “fundador do Lux-Frágil”, eu não saberia a quem se referia. E, já que estamos numa de partilha, conto também que nunca entrei no Frágil. Nos anos 80, eu dava milho aos pombos no Jardim da Estrela, actividade que então fazia parte do modo castiço de educar uma criança lisboeta. E nos anos 90, a menoridade (legal) não me proporcionou muitas saídas nocturnas. Mas este artigo não é sobre mim. Nem sequer é sobre o Man(u)el Reis. É sobre a discussão que sucedeu a sua morte. Ou melhor sobre o que ela diz sobre nós.
Num excelente texto (e não vou acrescentar um “apesar dos seus 24 anos”, porque a idade não é um posto), a Mafalda Pratas fala do paroquialismo e da falta de mundo das elites portuguesas (conceito de cuja existência há quem duvide). Sucede que as nossas elites, para o serem, não precisam de qualquer substrato intelectual. Vivem na endogamia (metafórica), pelo que se dispensa que tenham mundo, só necessitam de pertencer a um certo mundo. Veja-se o exemplo das universidades, que deviam ser um bastião de abertura ao exterior, de reconhecimento do mérito, mas que ironicamente se comportam de modo corporativo, privilegiando “os seus”.
Mais importante que a porta do Frágil é a porta giratória em que vivem as elites portuguesas. É que, se passando a porta do Frágil, se entrava num ambiente que muitos consideravam de libertinagem, a porta giratória em que rodam as elites portuguesas permite que se dediquem a actividades extractivas, como bem descreveu o Luís Aguiar-Conraria. E isso é capaz de ajudar um bocadinho a explicar o atraso português, como julga o Nuno Garoupa.
Curiosamente (ou não), isso parece indignar menos a sociedade portuguesa que o destaque dado à morte do fundador do Lux, que até mereceu um voto de pesar no Parlamento. Pelo menos a avaliar pelo nível de polémica “facebookiana”. O que me conduz a um outro aspecto desta discussão. Nos vários artigos laudatórios de Manuel Reis, ele é apresentado como o homem providencial. O homem que fez acontecer e sem o qual não teria acontecido. Aqui temos uma boa ilustração da tendência lusitana para o messianismo.
Não está em causa a importância de espaços como o Frágil ou a Loja da Atalaia. Não tenho dúvida de que contribuíram para dar vida nova ao Bairro Alto (e ainda bem que hoje se elogia essa vida, porque tempos houve em que ela era o alvo do ódio da posse nostálgica). Mas não deixo de notar esta ideia de que a História se faz de um herói. O que justifica que a sociedade civil se demita do seu papel, até porque, cultivando a virtude da humildade – na sua acepção de submissão e sentimento de inferioridade –, não vai cada um de nós achar-se capaz de mudar o mundo ou até somente exigir que ele mude. E isso também é capaz de explicar um bocadinho o atraso português.
Nota: Vera Gouveia Barros escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.
Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.
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