Facebook sem vergonha

As últimas notícias sobre o Facebook mostram que a empresa não tem escrúpulos nem vergonha. O remédio faz-se de políticos e reguladores corajosos e competentes.

Estar a par de todos os escândalos que envolvem o Facebook é quase um emprego a tempo inteiro. É raro o dia em que não surgem novas informações sobre a falta de escrúpulos da empresa e os seus pecados por omissão.

Dentro do grupo, o caldo parece estar a entornar-se. Se há mais informação cá fora, é indício de descontentamento lá dentro. Com a moral em baixo, os trabalhadores estão mais dispostos a correr o risco de passar informação confidencial aos jornalistas, expondo ao mundo como o patrão, Mark Zuckerberg, não olha a meios para atingir fins.

Um exemplo disso é a recente investigação do The Wall Street Journal que foi batizada de “The Facebook Files”. O jornal encontrou provas de que o Facebook sabe em grande detalhe que as suas plataformas têm falhas, e que essas falhas prejudicam gravemente os seus utilizadores.

O Instagram, adquirido pelo Facebook em 2012, tem crescido a olhos vistos e é uma das aplicações mais usadas por jovens e adolescentes. Não é segredo nenhum que também existem crianças entre os seus utilizadores, muitas abaixo da idade mínima de 13 anos – basta mentir na data de nascimento, um dos truques mais velhos da era da internet.

Já se desconfiava que o Instagram é prejudicial para a saúde mental, mas o Facebook tem tentado desvalorizar essas preocupações: “Os estudos que temos visto mostram que usar redes sociais para se conectar com outras pessoas pode ter benefícios positivos para a saúde mental”, disse Mark Zuckerberg no início do ano.

Não é verdade. O The Wall Street Journal teve acesso a estudos internos do Facebook que provam que a empresa está perfeitamente consciente de que o Instagram induz depressão e pode ter outros impactos negativos na saúde, sobretudo nos mais novos (e, principalmente, nas raparigas).

Os dados são assustadores: 32% das raparigas adolescentes inquiridas num estudo do Facebook reportam que, quando se estão a sentir mal acerca do seu próprio corpo, o Instagram fá-las sentirem-se pior. Entre os adolescentes que reportam pensamentos suicidas, 13% dos utilizadores britânicos e 6% dos norte-americanos atribuem a causa desse desejo ao Instagram.

“Os adolescentes culpam o Instagram pelo aumento das taxas de ansiedade e depressão”, lê-se num documento interno da empresa.

As descobertas não ficam por aqui. Ficámos a saber que o Facebook tem uma “lista VIP” de utilizadores – sobretudo celebridades e figuras influentes – a quem as regras da rede social não se aplicam.

Segundo o jornal, Neymar está nessa lista. Em 2019, publicou na rede social fotografias nuas de uma mulher que o acusava de violação, uma atitude repugnante conhecida por revenge porn. As imagens foram removidas pelo Facebook algum tempo depois, mas o futebolista não foi expulso do serviço.

Este facto é particularmente interessante, porque o Facebook terá mentido ao seu próprio conselho de supervisão quanto à dimensão dessa lista. Entretanto, o órgão, que é financiado pelo próprio Facebook, decidiu abrir uma investigação.

Vale a pena ler o dossiê completo, assim como a resposta de Nick Clegg, o lobista-chefe da empresa: sete parágrafos sem nada de concreto, nos quais acusa o jornal de publicar “descaracterizações deliberadas” acerca de “problemas sérios e complexos” que envolvem o grupo.

No The New York Times, esta semana, outra investigação explica como o Facebook está a trabalhar para defender a sua imagem. A notícia denuncia como a rede social, no início do ano, ponderou manipular o algoritmo do “feed de notícias” para dar mais visibilidade a conteúdo tido como favorável à empresa.

Os exemplos aqui descritos só deixam à vista a ponta do icebergue. É que, com esta avalanche de casos, é impossível manter o foco e propor melhorias. Mas fica reforçada a convicção de que o Facebook não tem um pingo de vergonha e é, verdadeiramente, nocivo para a sociedade e para a Democracia.

Sem políticos e reguladores corajosos e competentes, arriscamos continuar em maus lençóis.

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