Flexibilidade no trabalho: um grande poder com uma grande responsabilidade

  • Teresa Ayres Pereira
  • 19 Dezembro 2025

A dança eterna entre vida e trabalho não se resume apenas ao número de horas que dedicamos a cada um deles, mas também ao poder que temos de decidir sobre elas.

Trabalho e “vida” (seja ela a pessoal, a familiar, a social, a espiritual ou outra) percebem-se como dois vetores que se opõem num jogo de forças e equilíbrios, onde nunca há vencedores. Mas, muitas vezes, os vencidos e as vítimas são muito mais do que gostaríamos.

O desequilíbrio que ainda se sente em tantas famílias, no empenho que cada um põe em cuidar do lar, o conflito permanente que muitas mulheres sentem entre o seu “relógio biológico” e o “relógio das suas carreiras” (como dizia Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo), o aumento da esperança de vida, que faz com que, muito frequentemente, tenhamos que, ao mesmo tempo, ser pais dos nossos filhos e pais dos nossos pais, as demandas cada vez maiores da nossa vida pessoal e familiar: tudo isto faz com que, amiúde, terminemos os nossos dias com uma sensação de culpa que se acumula como tristeza, desânimo e ansiedade.

No relatório “Working time and work-life balance around the world” da Organização Internacional do Trabalho, destaca-se, num dos capítulos, o grau de autonomia que os trabalhadores têm sobre os horários de trabalho na Europa (gráfico 33, pág. 63). Numa situação que pode ser considerada um verdadeiro privilégio face ao panorama do resto do mundo, cerca de 40% dos trabalhadores têm algum grau de autonomia sobre os seus horários de trabalho, o que conduz a menores taxas de absentismo, maior retenção e maior produtividade.

Isto leva-me a pensar que a dança eterna entre vida e trabalho não se resume apenas ao número de horas que dedicamos a cada um deles, mas também ao poder que temos de decidir sobre elas. Assim se percebe que, a par de exemplos positivos como a semana de trabalho de quatro dias, o flextime e a existência de países como a Islândia, onde cerca de 86% dos trabalhadores têm direito a semanas de trabalho comprimidas, existam também exemplos não tão apelativos de países como a China, com uma enorme precariedade e semanas laborais a ultrapassar as 40 horas.

Integrar trabalho e vida implica diluir as fronteiras que separam os dois, sem que estas deixem de existir. Implica lutar por uma flexibilidade responsável, que nos permita, ao longo dos dias, das semanas e dos anos, irmos gerindo compromissos das diferentes esferas da nossa vida, sem esquecermos que a vida vai acontecendo por ciclos e que a gestão destas horas deve acompanhar a par e passo cada uma dessas fases, com as suas circunstâncias e prioridades próprias.

Implica também o direito a desconectarmos, a podermos negociar horários de trabalho e a termos igualdade de acesso à flexibilidade (tendencialmente maior para os homens do que para as mulheres, em quase todas as regiões presentes no relatório, o que aumenta o ciclo de desigualdade e de sobrecarga, em desfavor das mulheres).

É importante fazer perceber que as políticas de flexibilidade não são custos – são investimentos, que devem ter por base boas práticas empresariais sustentadas por políticas públicas seguras e eficazes. E perceber que o compromisso é de parte a parte: exige lealdade e justiça para com as equipas e chefias, exige entregar um trabalho bem feito e em tempo útil, exige o compromisso de crescimento e desenvolvimento pessoal, que se consegue com formação ou com acompanhamento de mentoring ou coaching, e exige o compromisso pessoal, para com os nossos, para com os nossos sonhos e para com aquilo que nos faz felizes.

  • Teresa Ayres Pereira
  • Codiretora do programa de Direção de Empresas e Coach Executiva na AESE Business School

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