Governo TVDE

Se a política não muda em Portugal, abre-se o espaço para a banalidade da “baixa política”.

O Primeiro-Ministro perde o sorriso. O Governo deixa o conforto de ocupar os gabinetes sem exercer o poder. O país muda estruturalmente com as tempestades. O país muda politicamente com o novo Presidente da República eleito. O Governo fingiu que a folha de cálculo da estabilidade era a solução política para se perpetuar no poder. Só que o Executivo não percebe que a política é o reino do imprevisível por natureza.

O Governo que se baseia na sua própria previsibilidade e controle acaba por ser ultrapassado pela realidade e pela política. O Governo assistiu sem acção e com propaganda à morte e ao enterro de uma parte de Portugal. O Governo assistiu a uma humilhação eleitoral nas presidenciais com uma declaração do Primeiro-Ministro incompreensível no conteúdo e oportunista na mensagem. Os portugueses não se conseguem adaptar ao novo mundo que se aproxima e sentem a angústia da inutilidade e da fraqueza de um Governo que ganhou eleições, mas que não tem a confiança do país. O Executivo não apresenta um modelo para Portugal e por consequência tem a mais absoluta firmeza em ceder em tudo o que lhe convém – Para efeitos de sobrevivência política. O único modelo político do Governo para o país é seguir as circunstâncias.

O Governo seguindo o exemplo de tantos Governos anteriores promete reformas estruturais e fundos nacionais e europeus. É um clássico da política portuguesa esperar pelo “processo revolucionário em curso” para intervir nas causas do processo revolucionário. Os Governos em Portugal não percebem que o dinheiro isolado não converte o espírito dos portugueses. As reformas que o país exige implicam que os portugueses enriqueçam e ganhem liberdade na autonomia. As reformas em Portugal são documentos de papel associados a um assistencialismo social de cariz excepcional e limitado.

A exclusiva política dos subsídios não é uma representação digna do papel do Estado, mas pelo contrário é assumir a menoridade, a pobreza e a inferioridade dos portugueses como cidadãos de pleno direito e maior dignidade. O Estado pensa que os portugueses são os últimos indigentes da Europa e a representação última da mediocridade nacional. As reformas e a modernização são uma prosa política que serve para recusar responsabilidades e legitimar a estagnação estrutural do país. De caminho nomeia-se uma comissão, decreta-se um levantamento público, uma inspecção-geral, uma manutenção restaurativa. Pode-se criar um Ministério da Modernização para garantir que tudo fique na mesma e para fazer parte do dossiê de transição para o próximo Governo. Deste modo, o país transforma-se numa espécie de fatalidade política sem modernização ou reforma.

Esta crónica é um exercício patriótico. Só que este é o “patriotismo que não diminui as liberdades, que não limita a autonomia, que não condiciona as opiniões, que não obriga a fechar os olhos, que não cria reflexos condicionados, que não esconde a verdade histórica, que não inspira a interpretação dos factos, que não oculta a realidade, que não obscurece a razão crítica, que não convida a actividades xenófobas”. Este patriotismo é o patriotismo de um Governo empenhado no progresso do país.

Politicamente no período pós-presidenciais, o Governo surge incerto e inseguro. Perdido na mudança contínua dos posicionamentos políticos à direita, o PSD não consegue definir o seu lugar na economia do espectro político português. Com a esquerda radical em escombros, com a direita efervescente nas suas várias expressões ideológicas, com o PS reforçado com um novo Presidente da República, os pressupostos do equilíbrio político alteram-se. Tudo aponta para uma necessidade de mudança na estratégia e no perfil da acção do Governo. Se o país quer regressar aos ciclos políticos normais, o Governo tem de se reinventar face à tenaz da Iniciativa Liberal e do Chega, à direita, e à refundação do PS que certamente irá acontecer. Quando se observa o Governo, falta política, falta força política, falta estratégia política. O Executivo é uma sombra à deriva sobre um país vazio de esperança.

Se a política não muda em Portugal, abre-se o espaço para a banalidade da “baixa política”. Os portugueses parecem não se interessarem pelos problemas substantivos do país porque já não têm ilusões sobre os partidos e o Estado. Este é o paradoxo de um país em calamidade, onde a realidade é substituída pela excitação do escândalo e pelo prazer da política espectáculo. Esta é a base da procissão populista.

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