Inclusão não é só para alguns, é para todos
Programas específicos de recrutamento, formação e integração de grupos mais vulneráveis não são facilitismo. São absolutamente fundamentais para podermos construir as bases do mérito.
Da mesma forma que uma sociedade mais inclusiva é uma sociedade mais justa, também as empresas e organizações, públicas ou privadas, precisam de ter estratégias de inclusão para construírem o almejado sentido de justiça valorizado por todos os colaboradores.
Nos últimos meses temos ouvido cada vez mais discursos focados na meritocracia, como se incluir pessoas diferentes fosse incompatível com o seu potencial contributo para a empresa: não é. Estratégias de equidade e inclusão devem partir de dois princípios simples que seria bom conseguirmos semear na mente de todos os decisores políticos e organizacionais:
- Todos somos importantes, únicos e especiais, e podemos contribuir. É possível encontrar o contexto certo para cada profissional, onde a sua diferença é valorizada num ambiente colaborativo, onde as competências superam as dificuldades, e os desafios encontram o apoio necessário para serem transponíveis.
- Não partimos todos do mesmo lugar. Por diferentes circunstâncias da vida, não tivemos acesso ao mesmo nível de formação académia, não fomos expostos aos mesmos estímulos, não tivemos as mesmas oportunidades para desenvolver as competências exigidas pelo mercado de trabalho.
Reconhecer estes dois aspetos é essencial para conseguirmos falar de inclusão e de mérito, de justiça e de valor. Programas específicos de recrutamento, formação e integração de grupos mais vulneráveis não são facilitismo, não são discriminação positiva, são sim absolutamente fundamentais para trabalhar a equidade e podermos construir as bases do mérito.
Se pensarmos bem no que está por detrás de discursos focados na meritocracia igualitária, que não consideram as desigualdades no ponto de partida, percebemos que geralmente os argumentos vêm de grupos privilegiados e maioritários e tem implícito que as medidas de inclusão são para os outros, os minoritários, a quem muitas vezes é atribuída alguma culpa ou má sorte de não ter as competências necessárias para desempenhar funções especializadas e para construir carreiras profissionais bem-sucedidas.
Importa também saber reconhecer o impacto de se ser privilegiado para se poder falar, com sensibilidade e conhecimento de causa, de meritocracia e políticas de promoção da igualdade. “Só percebi o significado da palavra privilégio quando deixei de o ter”: esta reflexão da Catarina Oliveira, a “Espécie Rara Sobre Rodas”, tem o poder de despertar consciências e transformar a nossa perceção sobre a importância da inclusão da deficiência.
Naturalmente, é fundamental que as estratégias de DEI nunca se dissociem do mérito, ou seja, do contributo e potencial que todas as pessoas devem trazer para o projeto ou organização, perante as acomodações razoáveis que têm de ser garantidas. As organizações devem estar cada vez mais disponíveis para investir na sociedade e ir mais além na criação de condições de sucesso para pessoas de contextos desfavorecidos. Da mesma forma que recrutam pessoas já formadas com as competências que precisam também têm de estar disponíveis para formar e acompanhar pessoas que não tiveram o mesmo tipo de acesso à educação superior. Empresas que assumem esta sua parte de responsabilidade, posicionam-se como empresas cidadãs e abrem caminhos relevantes para uma sociedade mais justa.
A inclusão da diversidade nas empresas não é uma opção. É um direito humano. É um imperativo moral e de negócio. Porque não há nada mais normal do que sermos todos diferentes. Uma sociedade que respeita cada um respeita todos. Uma empresa que sabe valorizar e elevar cada um ao seu máximo contributo, constrói empatia, generosidade e um lugar incrível onde todos querem trabalhar. É preciso uma visão clara, assente em valores inabaláveis e uma determinação diária para se ir avançando num caminho que políticos privilegiados de países ricos insistem em dificultar.
Não, não podemos deixar de agir agora em prol da equidade, diversidade e inclusão. Não podemos baixar os braços numa altura em que há tanto por fazer para termos uma sociedade mais justa, onde todos possam ter esperança de ser bem-sucedidos. E mais uma vez, este não é um apelo para os outros, para os governantes, para as escolas, para as empresas. Este é um apelo que chama cada um de nós, todos os dias, nos diferentes contextos em que atuamos.
As medidas de inclusão não são só aplicáveis aos outros, servem-nos a todos. Podemos perceber isso já ou ao longo da vida. Cada um tem em si o poder de atuar agora e colaborar na construção de um mundo melhor para todos.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Inclusão não é só para alguns, é para todos
{{ noCommentsLabel }}