Leiria, a brava gente das telhas

Por entre a devastação, uma comunidade de gente rija e determinada tenta reerguer-se.

Uma semana depois da devastadora passagem da depressão Kristin, Leiria e a região centro procuram reerguer-se. Nos últimos dias, juntei-me à equipa do ECO na cidade e a verdade é que me é difícil imaginar o que foi há uma semana, uma vez que tanto ainda há por fazer.

Se em Leiria os danos são bem visíveis, a situação parece bem pior fora da cidade. Marinha Grande, Pombal, Vieira de Leiria, por exemplo, mas todas as localidades daquela região, dão exemplos a cada metro do que por ali se passou, de uma fúria da natureza que fez estragos até tão longe como Castelo Branco e afetou muitas outras regiões, como o Alentejo.

De sul para norte, ao passar a Nazaré, o primeiro baque são as árvores à beira da estrada. São milhares e milhares de árvores destruídas, uma perda incalculável de património natural. Se os pinheiros foram partidos pelo meio, como palitos, os eucaliptos parecem ter sido dobrados por mãos de gigante, ficando quase na horizontal, mas ainda de tronco intacto e raízes no solo. O pinheiro interrompido, essa árvore que nos é tão comum, fica como uma das muitas imagens destes dias terríveis.

Num território de vilas, aldeias e de cidades médias, o isolamento foi uma desvantagem. Sem nada para ir travando o vento, casas e estabelecimentos foram um joguete nas mãos da natureza. No meio do nada, continuam pelo chão pedaços enormes de chapa metálica, vindos pelos ares não se sabe bem de onde. Se não há nada à volta, só a força do vento pode ter trazido aquilo para ali, pelo ar, e de longe.

Telhados arrancados, estradas obstruídas – uma semana depois ainda há vias cortadas por postes de eletricidade caídos, fora da cidade – toneladas de madeira à espera de destino.

Sendo o ECO um órgão de informação económica, a minha prioridade foi falar com empresas e com associações empresariais, mas estas são feitas de gente e as pessoas são sempre pessoas, sobretudo depois de passarem por um mau bocado.

Há preocupação, sim, e admite-se que algumas empresas mais afetadas pura e simplesmente não voltem a abrir. Mas de todos os empresários com quem falei não houve um que expressasse qualquer dúvida de que a região consiga voltar a ser o motor económico, industrial e exportador que foi ao longo das últimas décadas. Vai levar tempo, mas o ADN está lá. E isso não se compra.

E isto leva-me ao espírito reinante. Há uma espécie de transe, ainda, com as pessoas presas entre as reparações e a tentativa de um regresso a uma vida normal. Entre casas, empresas ou escolas, há muito que ainda impede o regresso da rotina anterior à Kristin. Mas há uma discreta dignidade em marcha, um motor que quer aquecer e começar a andar.

Numa cafetaria em Leiria, uma senhora meteu conversa com a equipa do ECO, ao aperceber-se de que éramos jornalistas. Entre as várias queixas que apresentou – como muitos, acima de tudo, a demora no restabelecimento da normalidade na energia e nas telecomunicações – nunca perdeu o sorriso e atirou-nos: vocês não veem aqui as pessoas a chorar, pois não?

E aquilo deixou-me a pensar. Houve gente a chorar, certamente, é apenas humano, quando houve perdas de vidas e negócios – muitos unifamiliares – voaram pelos céus de um momento para o outro. E, como me disseram vários empresários, o receio é que – passados o choque e a adrenalina de uma resposta – “caia a ficha”, e as pessoas se venham abaixo, quando puderem parar para assimilar o que se passou. Mas o sentimento geral é, por um lado, de indignação pela falta de respostas básicas e, por outro, de ação, de reação, de volta à vida.

Não quero falar aqui das medidas governamentais nem da resposta do Terreiro do Paço, tardias e de forma insuficiente. Nem sequer do desastroso vídeo de Leitão Amaro ou das lições que André Ventura anda a receber quando tenta explorar a miséria alheia. Quero falar das pessoas de lá com quem contactei.

Pessoas que não precisam que o poder central lhes diga que são muito boas, gente que nunca precisou de Lisboa para nada e que, agora que efetivamente precisa, parece estar desconfortável com isso e não saber como agir. Ninguém disse, durante estes dias, o nome Kristin, como se não merecesse ser tratada pelo nome. Todos dizem “isto que nos aconteceu”.

Fica-me a imagem das professoras a receber os alunos no primeiro dia do regresso, ainda tímido e experimental, às aulas. Os colegas de trabalho que deixam a reparação da sua casa a meio para ajudar os que estão em pior estado, aqueles que trazem os pais para casa enquanto a luz não volta. Os voluntários, de todos os tipos. A comunidade, a comportar-se como comunidade. Não quero sequer gastar letras nem tempo com os aproveitadores, ladrões da desgraça ou especuladores, são demasiado poucos e demasiado ignóbeis para terem um pingo da atenção que os outros merecem.

E, ainda mais poderosa, fica-me a imagem da fila das pessoas para as telhas, junto ao estádio semi-destruído no meio da cidade. Numa operação montada com esmero, eficiência e cuidado pelas Forças Armadas, as pessoas chegam de todo o lado, com uma simples telha por companhia, para ter a certeza de que levam de volta exatamente o modelo de que precisam. Eu, que nunca assentei uma telha na vida, nunca tinha pensado nisso, que há telhas de todos os tamanhos, modelos e feitios.

E a fila anda, as pessoas e as suas telhas, até chegar a sua vez.

Telha é proteção. Telha é tecto, é casa. Telha é família. Telha é a base, é o essencial, a primeira peça para a reconstrução. Como me dizia um líder empresarial, neste caso “é mesmo preciso começar pelo tecto”.

Esta é uma gente rija, tu-cá tu-lá, prática e que já nasceu a andar para a frente.

Vai levar tempo e o país não está a fazer tudo o que pode e deve para ajudar nesse caminho. Mas essa brava gente das telhas está lá.

O que depender delas será feito.

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