NOLT: a nova longevidade que redefine a idade em Portugal

  • Miguel Salema Garção
  • 21 Janeiro 2026

O corretor Miguel Salema Garção vê uma enorme oportunidade por, aos 65 anos, um cidadão português poder esperar viver mais duas décadas, muitas delas com saúde para permanecer ativo e participativo.

Durante décadas, envelhecer foi associado à retirada progressiva da vida profissional e social. A reforma marcava o ponto final de carreiras e projetos, e a palavra “idoso” passou a carregar um peso negativo — invisibilidade, passividade e perda de relevância. Mas esta narrativa começa a ser seriamente contestada.

Nos Estados Unidos, o conceito NOLT – NewOlderLivingTrend tem vindo a ganhar visibilidade para descrever um fenómeno social emergente: pessoas com mais de 60 ou 70 anos que permanecem ativas, curiosas, produtivas e profundamente ligadas ao mundo contemporâneo. Não se trata de negar a idade cronológica, mas de recusar os limites sociais que historicamente lhe foram impostos. No Brasil, esta mudança é visível em múltiplos exemplos: profissionais que regressam à universidade, iniciam negócios ou exploram carreiras digitais e criativas, transformando experiência acumulada em impacto económico e social.

Portugal observa este movimento num contexto particularmente sensível. É um dos países mais envelhecidos da Europa: cerca de um terço da população tem hoje mais de 60 anos, com uma esperança média de vida que ultrapassa os 81 anos. Aos 65, um cidadão português pode esperar viver, em média, mais duas décadas, muitas delas com saúde suficiente para permanecer ativo e participativo. Apesar disso, estruturas laborais e culturais continuam pouco preparadas para integrar esta longevidade ativa, e o etarismo mantém-se como um dos preconceitos mais silenciosos e persistentes da sociedade. Profissionais experientes são muitas vezes afastados não por falta de competência, mas por excesso de idade, como se maturidade, visão estratégica e inteligência emocional fossem incompatíveis com produtividade e inovação.

Mas a realidade é diferente. Muitos portugueses continuam a trabalhar após os 60, não apenas por necessidade económica, mas por vontade de se manterem ativos, autónomos e socialmente relevantes. A taxa de emprego nesta faixa etária tem vindo a crescer, refletindo não apenas o adiamento da reforma, mas também uma mudança cultural: envelhecer já não é sinónimo de parar.

É também neste contexto que o setor segurador começa a reposicionar-se. Em Portugal, surgem progressivamente produtos de seguros direcionados a faixas etárias mais avançadas, refletindo uma leitura mais sofisticada do risco associado à longevidade. Estes seguros não se limitam à cobertura tradicional de doença ou dependência; incluem componentes de prevenção, acompanhamento de saúde, bem-estar e manutenção da autonomia. Reconhecem que viver mais anos exige gestão ativa e antecipada do risco, transformando o desafio da longevidade em oportunidade económica e financeira, para indivíduos e para o país.

Mais do que uma tendência, o NOLT representa uma mudança de mentalidade: a reforma deixa de ser um ponto final e passa a ser uma mudança de trilho, marcada por autonomia, clareza e liberdade de escolha. A aprendizagem ao longo da vida, o domínio de ferramentas digitais e a procura de propósito tornam-se elementos centrais desta nova longevidade, fazendo dela não apenas uma questão de idade, mas de atitude.

Envelhecer não é chegar ao fim da linha. É uma oportunidade de redefinir percurso, relevância e impacto. Portugal enfrenta um desafio coletivo: reconhecer, valorizar e integrar esta longevidade ativa, ou continuar a desperdiçar talento, experiência e conhecimento. A forma como lidarmos com este fenómeno agora definirá o tipo de sociedade que todos iremos habitar no futuro — uma sociedade que poderá envelhecer com dignidade, prevenção e propósito, ou permanecer presa a preconceitos que já não fazem sentido.

  • Miguel Salema Garção
  • Gestor. ExeCom Verlingue Portugal

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