Normalidade Normal

No curso natural da História, quando voltarmos à normalidade, a nova normalidade será tudo menos normal.

A suspensão da normalidade para a direita é a guerra. A suspensão da normalidade para a esquerda é a revolução. Não estamos em tempo de guerra nem de revolução, mas em tempo de crise. A crise é um estado intermédio que tanto pode evoluir num sentido como explodir na evocação oposta. A crise tem sempre associado um cenário de esperança. E a esperança aponta quase sempre para o regresso da normalidade. É um círculo virtuoso que alimenta a existência da Humanidade. Sem a esperança seríamos animais, com a esperança somos prisioneiros do medo, o medo existencial relativamente à substituição da normalidade que conhecemos. Somos genialmente constituídos pela natureza dos nossos hábitos.

Em tempo de crise, podemos também observar atentamente aquilo que nos rodeia, uma vida reduzida à moderação do essencial. Podemos também refugiar-nos no escapismo de uma realidade outra, repleta de aventuras no écran, uma visão revisitada de um estado de alienação que desvia a atenção da nossa condição e da nossa identidade. Os imortais ingénuos sonham com o regresso de tudo o que não suportam, as filas de trânsito, a rotina do escritório, a aflição ao final do mês. No sufocante e claustrofóbico espaço de um apartamento, o trabalho via laptops, conversas por Skype, reuniões por Zoom, transforma-se numa zona em que tudo se funde com uma vida familiar concentrada, intensa, incontrolável. No espaço público as imagens domésticas são miradouros para a felicidade, são ficções que regressam à ideia de que todas as famílias felizes são iguais. Estamos no puro universo da propaganda democrática.

Percebe-se afinal que a influência das celebridades se resume à futilidade do mais puro fetichismo, revela-se que a omnipresença do desporto é o último bastião da mais recente expansão do capitalismo, compreende-se que a distância na fila do supermercado é um certificado de segurança, que a densidade no interior de uma farmácia é um passaporte para a longevidade, contempla-se no espelho as marcas da máscara cirúrgica emolduradas pelas luvas púrpuras que cobrem as mãos. Eis a mais perfeita imagem da Paixão reformulada pelo anónimo pós-moderno.

Mas também se observa que os “trabalhadores essenciais” são os vultos invisíveis em tempos de normalidade – condutores, funcionários de armazéns, técnicos dos mercados abastecedores, entregas ao domicílio, recuperadores de lixo, manutenção dos esgotos, servidores das águas, atletas da luz, um exército de sombras que suportam a vida civilizada pela aplicação do critério da necessidade e do interesse próprio bem orientado.

Por ironia ou coincidência, as legiões invisíveis pertencem à base da pirâmide global, pertencem às classes sem estatuto social, são parte integrante dos grupos remunerados com base no ordenado mínimo universal. Não há teoria sofisticada que ponha em causa a complexidade desta contradição.

O que devem os cidadãos esperar dos líderes políticos em tempo de crise?

  • Em primeiro lugar, um Governo não deve ser uma clique, um grupo de cortesãos cinzentos às ordens de um líder iluminado. O Governo precisa de uma configuração equilibrada entre as exigências da razão e os imperativos da experiência. O Governo precisa de pensar o impensável e aceitar no seu “core” os advogados do diabo, os excêntricos, a imaginação política ao serviço da realidade política.
  • Em segundo lugar, o Governo deve reconhecer a sua falibilidade, a possibilidade objectiva de errar nas avaliações e nas decisões políticas. O Governo não deve esconder as suas vulnerabilidades com mentiras e meias-verdades, pois dessa forma elimina a confiança e a credibilidade. O líder não deve nunca ficar paralisado pelo terror de ter de admitir publicamente que falhou.
  • Finalmente, o líder não deve alimentar a ideia de uma predestinação, não deve sucumbir ao sortilégio do carisma inato ou à ilusão de um encontro com o destino. É a lógica do talento máximo e do trabalho mínimo. As fadas podem ter visitado o líder nos idos da infância e conferido ao futuro homem os dons da imaginação criativa, da eloquência, da capacidade de acção, da habilidade infinita; mas todas estas qualidades são defeitos políticos na ausência da perícia na avaliação da realidade, perícia associada à ponderação da sensatez, da prudência e da sabedoria. O líder não deve ser o centro do mundo nem o criador de um universo paralelo.

O pessimismo e o optimismo são estados de alma incompatíveis com o retrato da normalidade alterada que nos rodeia. A textura das imagens dispersas pelo mundo e que decoram com cores as paredes brancas da sala-de-estar devolve-nos um sentimento de fragilidade que se tornou viral. As imagens virais devolvem-nos a presente normalidade assinalada pela ausência humana.

No Norte de Itália os javalis desceram da floresta e vagueiam pelas cidades desertas. Na Tailândia, gangs de macacos lutam nas ruas pelo alimento antes fornecido por esquadrões de turistas. Uma certa beleza inumana irrompe espontaneamente, tal como naturalmente a luta pela sobrevivência no mundo natural ocupa as ruas destituídas do elemento humano pelo domínio do vírus.

Alguns cenários são absolutamente pós-apocalípticos. “Há décadas em que nada acontece; e há semanas em que décadas acontecem”. No curso natural da História, quando voltarmos à normalidade, a nova normalidade será tudo menos normal.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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