O efeito das alterações climáticas nos vinhos

  • Luís Rochartre Álvares
  • 10 Setembro 2021

O setor do vinho em Portugal tem vindo a crescer tanto em quantidade como em qualidade e, sobretudo, na sua capacidade exportadora e criadora de riqueza. Quais os impactos das alterações climáticas?

Todos nós vamos já tomando consciência dos impactos das alterações climáticas e do seu caráter global e sistémico. Se antes existia ainda um distanciamento em relação às discussões técnico-científicas, muito devido à sua excessiva codificação e especialização, em pleno verão de 2021 os anunciados eventos extremos climáticos acontecem um pouco por todo o lado e a consciência do seu impacto é algo que nos une como cidadãos do mundo.

Felizmente, este ano, Portugal tem estado arredado de consequências maiores destes eventos extremos. Mas tal não passa de uma exceção circunstancial; as alterações estão em curso e estão a afetar-nos muito mais do que desejaríamos acreditar.

Sobre a forma como os consumidores portugueses percecionam este e outros temas associados a um modelo de vida sustentável e saudável, em breve poderemos dispor das informações providenciadas pelo survey ‘Healthy & Sustainable Living’ que pela primeira vez incluirá o nosso país num inquérito global que integra 30 outros países, fruto da parceria estabelecida entre a NBI – Natural Business Intelligence e a multinacional GlobeScan.

As conclusões deste relatório, que serão apresentadas em meados de Outubro, serão de grande utilidade para a tomada de decisão por parte das empresas numa multiplicidade de setores de atividade. Incluindo, obviamente, o setor vinícola.

O setor do vinho em Portugal tem vindo a crescer tanto em quantidade como em qualidade e, sobretudo, na sua capacidade exportadora e criadora de riqueza. É, por isso, relevante a pergunta: Quais os impactos que as alterações climáticas têm numa produção tradicional como a do vinho?

A área de vinha a nível mundial tem vindo a crescer e um dos seus motores são as alterações climáticas. No hemisfério Norte, por exemplo, a área de produção tem vindo a crescer no sentido Norte, em regiões até há pouco tempo arredadas de qualquer veleidade em produzirem vinho em quantidade e qualidade, como o Reino Unido e Canadá. O mesmo fenómeno ocorre no hemisfério Sul, mas no sentido contrário, com a ocorrência de boas produções em regiões como a Patagónia, por exemplo. Deste modo, a concorrência está a aumentar e com ela novas áreas de produção entram no mercado.

Por outro lado, as alterações climáticas têm levado a um aumento generalizado do grau alcoólico dos vinhos, um pouco por todo o Mundo. É sabido que o grau alcoólico é um componente importante da qualidade dos vinhos. Mas é crescente também a recomendação na saúde pública para a diminuição da ingestão de álcool. Consequentemente, o mercado procura hoje vinhos equilibrados, sobretudo no teor alcoólico – idealmente vinhos com menor graduação alcoólica, mas sem com isso perderem os seus outros atributos de qualidade. No entanto, podemos verificar que, em zonas onde tradicionalmente era difícil atingir um grau alcoólico satisfatório, hoje conseguem-se melhores resultados.

Em contrapartida, há outras zonas que ultrapassam em muito os níveis desejados. Não será difícil imaginar que, em breve, maturações idênticas às portuguesas em países mais a Norte aumentarão a concorrência para os nossos tipos de vinhos. Precisaremos de adaptar as nossas localizações tradicionais para zonas menos expostas às alterações climáticas com o objetivo de controlar o grau alcoólico. É isso que justifica que muitos investidores tenham sido atraídos pela Serra de S. Mamede, em detrimento da planície alentejana.

Além da variação nas latitudes de produção, numa escala mais local as alterações climáticas também impactam as altitudes a que se consegue (ou se aconselha) produzir. Atualmente, nas regiões tradicionais de produção, as vinhas ganham viabilidade a altitudes antes não consideradas. O mesmo se verifica no tipo de exposição da vinha: se tradicionalmente as vertentes orientadas a Sul eram as mais promissoras, hoje a qualidade dos vinhos migrou para outras exposições. E é por isso que hoje encontramos vinhos de topo do Douro originados em exposições Norte ou brancos de grande qualidade provenientes das vinhas de maior altitude da denominação de origem.

Como a adaptação das castas à região é um dos fatores de sucesso da produção de vinhos, assistimos hoje em dia à migração de muitas castas para outras regiões, seja pelo aumento da secura, das temperaturas ou de qualquer outro fator fundamental para o seu sucesso. Foi nesse sentido que a conservadora região de Bordéus acabou de incluir na lista de espécies autorizadas para a produção dos seus valorizados vinhos as “nossas” Alvarinho e Touriga Nacional, antecipando a necessidade de incluir castas mais adaptadas às alterações climáticas na sua região.

Outro fenómeno que se verifica (neste caso positivo) é uma tendência para o aumento da qualidade dos vinhos, sobretudo em regiões onde nem sempre se reuniam as condições climatéricas mais adequadas. Nada como verificar na prática esta ocorrência: ao longo do seu historial o Douro tem classificado Vintage (topo de qualidade) cerca de três colheitas por década. De 2016 a 2019 todas as colheitas foram consideradas de excecional qualidade e foi-lhes atribuída esta classificação.

Atualmente, as decisões de investimento de qualquer projeto de vinhos, seja em Portugal ou em qualquer outra parte do Mundo, têm de incluir uma robusta due diligence sobre os riscos e impactos das alterações climáticas, bem como sobre a resiliência dos ecossistemas. Os vitivinicultores são dependentes do clima para assegurarem o sucesso dos seus investimentos. E nunca esta máxima foi tão verdadeira.

  • Luís Rochartre Álvares
  • Partner NBI – Natural Business Intelligence

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