O resultado ‘poucochinho’ de Ventura
Estas eleições presidenciais foram a prova de que a rejeição a André Ventura está a demorar a passar.
Depois de tudo fazer antecipar uma noite eleitoral sem novidades, com uma vitória previsível ou até pouco concorrida, seja pelo tempo, seja pelo desinteresse da escolha, a realidade não cessa de nos surpreender. É verdade que as sondagens acertaram e o Radar das Sondagens do Observador previu totalmente o resultado, mas talvez pelo momentum, talvez pelo receio dos resultados políticos da tempestade, talvez até pela crença na perpetuidade do crescimento da demagogia, o resultado saiba diferente do que previa.
A dimensão da vitória de Seguro é avassaladora. Dois terços dos votos e a maior votação de sempre, ultrapassando a reeleição de Soares, não podem ser ignorados. É evidente que foi em circunstâncias únicas, talvez irrepetíveis, mas nada disso deve menosprezar o seu mérito. Não é justo. Fez uma campanha à sua medida, lembrando os portugueses quem era e o que pretende ser. Entrou nesta candidatura sozinho ou, pior, acompanhado pela repulsa dos camaradas costistas que nunca lhe perdoaram um qualquer atrevimento. Até à tracking poll, as sondagens eram terríveis, para gozo desses mesmos vultos que na sua intelectualidade desprezavam a alegada pequenez dos atributos de Seguro. Bem, agora estão em casa, espero que a recuperar da sua merecida e pessoal derrota – atitude mais digna que o ensaio de colagem hipócrita e de última hora de alguns a que assistimos no último domingo.
A política é imprevisível, Marcelo que o diga, e estes cinco anos não vão ser um passeio no parque, mas creio que Seguro saberá usar, com parcimónia, a legitimidade histórica que os portugueses lhe concederam. A cautela no uso da palavra e a preservação do seu poder, evitando desautorizações ou dissoluções desajeitadas, certamente ajudarão. Precisamos de um presidente mais ausente publicamente, que deixe o sistema funcionar, no fundo, um árbitro que não queira marcar golos. Se for enfadonho, que seja. Tem faltado aborrecimento.
Para Ventura, a noite foi desanimadora. Bateu com a própria cabeça na sua rejeição e descobriu que o teto é mais baixo do que esperava. Não teve os dois milhões de votos que pedia, nem em termos percentuais ultrapassou a AD de Montenegro, porque para efeitos comparativos devemos calcular as percentagens com os votos brancos e nulos. E há mais, faltando apenas 20 freguesias e 7 consulados, nem o resultado em votos de Cavaco Silva em ‘85 conseguiu ultrapassar. Com tão poucos votos ninguém se tornou ou torna Primeiro-Ministro. Esconder a desilusão não foi fácil.
Claro que esta eleição retrata apenas este momento, não é o teto ao crescimento de Ventura, que sabe pela sua experiência e pela dos seus homólogos europeus que não tem, mas sabe também que depois das urnas fecharem voltou a valer os 24% da primeira volta. Os votos voltaram a casa. Votei Seguro na esperança de não ter de votar de novo em alguém do PS. Aí Montenegro tem razão, pouco ou nada mudou.
Contudo, num partido vivo, não fossilizado, este resultado levantaria alguns alertas. Ventura é o maior ativo do Chega, não há dúvidas, mas será suficiente? Este número de votos não chega e as semelhanças deste resultado com o de Le Pen em 2016 podem querer dizer duas coisas diferentes. Primeiro, podem avisar-nos que daqui a 5 anos estará mais forte. Segundo, talvez apontem que o cansaço pode impedir que Ventura chegue lá. Le Pen já não é quem tem melhores sondagens no RN. Num partido vivo, hoje, começaria a procura pelo Bardella português.
Não me parece, de todo, crível que Ventura conheça em breve o seu António Costa, muito menos que passados dez anos se torne presidente. Porém, estas eleições foram a prova de que a rejeição está a demorar a passar. O equilíbrio não é fácil: berrar menos é desguarnecer os fiéis, manter o registo pode significar desistir de ser mais do que deputado. E se o ‘poucochinho’ de Seguro levasse indiretamente ao ‘poucochinho’ de Ventura?
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