OPA ao Benfica. O problema não é defesa, são os frangos

Luís Filipe Vieira diz que lançou a OPA ao Benfica como defesa contra ofertas hostis e para defender os acionistas. Esta defesa não incomoda a CMVM. O que incomoda é a relação com o Rei dos frangos.

A oferta pública de aquisição (OPA) do Benfica continua parada na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), e de lá não deve sair tão cedo. À medida que se conhecem as ligações entre Luís Filipe Vieira e o Rei dos frangos, mais duvidosa, esquisita e viscosa se torna esta operação.

Foi no dia 18 de novembro que a Sport Lisboa e Benfica SGPS, que direta e indiretamente controla 66,9% do capital da SAD, lançou uma OPA sobre 28,06% do capital disperso em bolsa, o que lhe permite, em caso de sucesso, controlar quase a totalidade da sociedade.

A oferta já deveria estar no terreno e finalizada, mas a verdade é que ainda não teve luz verde da CMVM que, conta o Jornal de Notícias, está há três meses a enviar perguntas ao Benfica.

O que incomoda a CMVM? Aparentemente, o elevado preço da OPA e as relações de proximidade entre Luís Filipe Vieira e o acionista José António dos Santos. Vamos por partes.

O preço da OPA é exagerado? É. As ações da SAD estavam a cotar em bolsa a 2,76 euros e a SGPS propõe-se na OPA a pagar 5 euros por cada título, ou seja, um prémio de 81%. Não é razoável do ponto de vista financeiro tamanho prémio numa OPA voluntária e não obrigatória.

Fazem sentidos os argumentos do Benfica? Não. O Benfica argumenta que quer proteger a SAD de investidores hostis. Tendo em conta que 66,9% do capital da SAD está mãos do clube e da SGPS, este argumento cai por terra.

O Benfica também justifica a OPA a 5 euros para permitir ressarcir aqueles que em 2001 adquiriram as ações na oferta pública de distribuição ao preço nominal de 5 euros. Também é um argumento que não faz sentido: em primeiro lugar porque ações não são obrigações (o valor nominal não é devolvido a ninguém) e, em segundo lugar, muitos dos que vão poder vender a 5 euros compraram ações a um preço muito mais baixo.

É precisamente o caso do Rei do Frangos que comprou ações do Benfica a 1 euro e agora pode vendê-las a 5 euros e será o maior beneficiário desta OPA.

Quem é o Rei dos frangos? José António dos Santos, conhecido como Rei dos Frangos, é dono da Valouro, empresa que se dedica à produção e comercialização de aves, sendo atualmente o maior acionista do Benfica em nome individual, com 12,71% do capital.

Este empresário comprou ações da SAD do Benfica, em março de 2017, ao Novo Banco e à Somague a cerca de 1 euro cada. Se a OPA avançar, poderá vender essas mesmas a ações a 5 euros, ou seja, pode embolsar uma mais-valia de 11 milhões de euros.

Existe um conflito de interesses? Sim. Apesar de Luís Filipe Vieira e José António dos Santos serem amigos — “há mais de 50 anos” — não seguem aquela máxima de “amigos, amigos, negócios à parte”. Conta o Expresso, aqui e aqui, que Luís Filipe Vieira tem vários negócios em comum com José António dos Santos.

Escreve o Expresso que Luís Filipe Vieira e José António dos Santos são parceiros de negócios em duas empresas do setor imobiliário: a Palpites e Teorias que está ligada a “uma zona grande comercial e de habitação em Lisboa” e a “Sul Crescente que é uma imobiliária que se destina à terceira idade, situada no Algarve”.

Já este final de semana, o semanário também noticiava que o Rei dos frangos assumiu em 2017, no mesmo ano em que se tornou acionista da Benfica SAD, parte das dívidas de uma empresa de pneus da Amadora perante uma dívida ao Novo Banco que estava em incumprimento e da qual Luís Filipe Vieira era avalista.

Resumindo, o Rei dos frangos é amigo, sócio e benemérito de Luís Filipe Vieira. Lançar uma OPA a um preço exorbitante numa SAD cujo acionista mais beneficiado é precisamente o amigo, sócio e benemérito gera uma situação gritante de conflito de interesses. Talvez para apaziguar a intransigência da CMVM, o Rei dos Frangos já veio dizer que, provavelmente, não venderá as suas ações na OPA. É irrelevante e não chega para sanar o conflito já que se não vender na OPA pode sempre vender num mercado cujo preço está empolado precisamente pelo preço da OPA. Em conclusão:

A CMVM devia chumbar esta OPA? Sim.

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