Os jatos das ‘startup’ e o aeroporto ‘vintage’
Se não se tivesse perdido a oportunidade para fazer um segundo aeroporto na Base Aérea do Montijo, no próximo ano já não estaríamos a carpir as dores do Humberto Delgado.
A dificuldade dos magnatas da tecnologia em aterrarem com jatos privados no aeroporto de Lisboa, obrigando-os a usar infraestruturas mais distantes, incluindo um aeródromo em Badajoz, mereceu amplo destaque no Financial Times.
Portugal fica mal na fotografia e o recado da Web Summit para o Governo ficou dado.
O Ministério das Infraestruturas reagiu com números: dos 102 voos pedidos para o Humberto Delgado, só sete foram negados, tendo havido um aumento de 70% nos slots atribuídos face a 2024. Mas confirma a dispersão com 51 voos para o aeródromo de Cascais, 29 para o aeroporto de Faro e 19 para o Porto. Miguel Pinto Luz lamentou ainda o “excesso de linguagem” do fundador da cimeira tecnológica.
Paddy Cosgrave não se ficou e tocou na ferida. O “trabalho do ministro é garantir que a infraestrutura é perfeita”. Não é, nem vai ser até 2037, considerando uma previsão otimista para a entrada em funcionamento do aeroporto Luís de Camões.
Podia ter sido diferente se não se tivesse perdido a oportunidade para fazer um segundo aeroporto na Base Aérea do Montijo, que poderia já estar pronto no próximo ano, como escreveu a semana passada no Instagram Pedro Nuno Santos, antigo ministro das infraestruturas.
Quando em junho de 2022 o então governante aprovou o célebre despacho que seria revogado por António Costa, havia um projeto, havia acordo com a ANA e com a Força Aérea, havia uma Avaliação de Impacto Ambiental aprovada – todas as condições para poder avançar com a construção. Só não havia um consenso político entre os dois maiores partidos, nem sequer dentro do Governo, o que levou António Costa a exigir a revogação do despacho de Pedro Nuno Santos.
A situação é ainda mais absurda tendo em conta que o primeiro Executivo de António Costa assinou em janeiro de 2019 a decisão de avançar com o Montijo, que acabaria por soçobrar perante a indisponibilidade do PSD para retirar aos conselhos (comunistas) da margem sul a capacidade legal de chumbarem aquela localização, como veio a acontecer.
Esse comboio já partiu e a próxima estação é Alcochete, daqui a 12 anos… Até lá, teremos de arcar com os custos de uma infraestrutura mais que imperfeita, saturada, impreparada para os novos tempos, apesar dos melhoramentos em curso.
O Financial Times teve o cuidado de escrever que era o primeiro ano em que se verificava este engarrafamento, o que era revelador do maior recurso aos voos privados.
O tráfego de jatos privados na América do Norte aumentou 27,4% entre 2019 e 2025, segundo dados da Wingx, cerca de sete vezes mais do que a aviação comercial.
Se nada for feito, para o ano o engarrafamento por altura da Web Summit irá repetir-se.
O Montijo estava pensado para receber os voos low cost. Quem sabe se, por ironia do destino, não pode vir a albergar, num período de exceção, os reluzentes jatos privados dos founders das startups e dos reis do venture capital.
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