Os negócios da paz

Ter o Presidente dos EUA empenhado nos processos de paz é muito importante. Fazê-lo à custa da deterioração da relação com os aliados na Europa parece uma estratégia desenhada em Moscovo.

O plano de paz de 28 pontos para a Ucrânia foi feito pela Casa Branca, a partir de um documento russo entregue à administração Trump em outubro, depois de Moscovo ouvir conselhos do enviado especial para o Médio Oriente, Steve Witkoff. O resultado só podia ser uma capitulação da Ucrânia em quase toda a linha.

Kiev e as capitais europeias, humilhadas pela enésima vez, reagiram com forte desagrado. O secretário de Estado, Marco Rubio, voou até Genebra para encontrar um compromisso. Saiu com um plano de 19 pontos, mais razoável para a Ucrânia, mas um acordo parece distante. Vladimir Putin não tem pressa e diz que a proposta de 28 pontos é apenas uma lista de “possíveis acordos” e que pretende “pôr alguns pontos na ordem sobre assuntos da segurança pan-europeia”.

Donald Trump alinha com os desejos do Kremlin e pressiona Zelenskyy porque quer um acordo rápido, por motivos políticos e económicos. Depois dos negócios da guerra, o Presidente dos EUA quer agora colher os proveitos dos negócios da paz.

O fim do conflito permitirá à Casa Branca selar um acordo comercial com o Kremlin em áreas como a exploração de terras raras, que interessa ao primeiro, ou investimentos em tecnologia, que interessam ao segundo. A paz permitirá também a exploração de minerais do lado ucraniano, para a qual já decorrem negociações com Kiev.

O ascendente americano significará também uma oportunidade para as empresas americanas participarem na reconstrução da Ucrânia, estimada em 524 mil milhões de dólares. Não seria estranho ver a família de Trump nestes negócios, da mesma forma que a paz no Médio Oriente criou novas oportunidades na região para o private equity do genro, Jared Kushner.

Haverá oportunidades em muitas outras áreas, apesar de a economia russa estar debilitada e invadida por fornecedores chineses. Antes do conflito, a Boeing era a grande fornecedora de aviões para a Rússia, não a europeia Airbus.

A mesma vontade em selar acordos comerciais vantajosos levou o Presidente dos EUA a distanciar-se da nova primeira-ministra japonesa, depois desta sugerir que um ataque chinês a Taiwan poderia levar a uma mobilização militar por parte de Tóquio.

Segundo o Wall Street Journal, Xi Jinping queixou-se a Trump, que depois ligou a Sanae Takaichi, aconselhando-a a não provocar Pequim. Não fosse a tensão estragar a trégua comercial entre os EUA e a China conseguida o mês passado, e que levará Trump a visitar o país no próximo ano. No Japão, subiu a inquietação sobre o compromisso norte-americano com a segurança na região.

Depois de forçar a rutura, Trump quer um acordo com a China com novas regras. Como quer Putin na Europa para parar a guerra na Ucrânia.

Há também importantes dividendos políticos para o Presidente dos EUA, que vão além do prestígio doméstico e internacional de contribuir para o fim do conflito. O disparo da inflação nos anos após a pandemia foi um fator importante para a derrota de Biden e a vitória de Trump. O problema do custo de vida mantém-se e foi decisivo para as recentes vitórias do Partido Democrata em eleições para governador e para a câmara de Nova Iorque. Ora o fim do conflito na Ucrânia trará de volta ao mercado internacional o petróleo e gás natural russo ou os cereais e fertilizantes ucranianos, baixando os preços e aliviando a inflação.

Ter o Presidente dos EUA empenhado nos processos de paz é muito importante. Fazê-lo à custa da deterioração da relação com os aliados na Europa e Ásia-Pacífico parece uma estratégia desenhada em Moscovo e Pequim.

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