Opinião de Ricardo Arroja: “Para onde caminha a banca?”

O modelo de negócio da banca tradicional está ameaçado e o sector encontra-se numa espécie de rampa deslizante. Os bancos tradicionais, incluindo os portugueses, terão de mudar e o tempo esgota-se.

Pouco tempo depois de declarada a pandemia, o Banco Central Europeu (BCE) divulgava que a rentabilidade sobre capitais próprios (“return on equity”) do conjunto de entidades financeiras por si supervisionadas, um conjunto de 113 entidades, havia sido de 5,2% em 2019. O BCE lamentava então a falta de resultados dos bancos europeus, antes mesmo da pandemia, face aos maiores bancos norte-americanos e asiáticos. Entretanto, a situação deteriorou-se e no primeiro trimestre deste ano a rentabilidade sobre capitais próprios daquele conjunto de entidades financeiras baixou para apenas 1,2% (“Supervisory Banking Statistics, ECB”). Em alguns países os resultados foram até negativos. Foi o caso de Portugal, onde a rentabilidade sobre capitais próprios das instituições supervisionadas pelo BCE foi negativa no primeiro trimestre (-0,77%).

A banca portuguesa debate-se com dificuldades há vários anos, mas, verdade seja dita, os últimos números do BCE sobre os bancos de natureza sistémica em Portugal reflectem essencialmente os prejuízos do Novo Banco. Na comparação mais recente do BCE, à escala europeia, a situação portuguesa está até longe de ser a pior. Há países com mercados bancários muito maiores do que o nosso que neste momento, nuns casos de forma mais conjuntural do que noutros, evidenciam resultados muito piores. É o caso da Alemanha, da Bélgica, da Itália e da Espanha. Neste contexto de resultados negativos, é de salientar que a fusão anunciada em Espanha entre o Caixabank e o Bankia, que resultará no novo líder de mercado do país vizinho – com uma quota de mercado de 25% em toda a Espanha, mas que atingirá 40% em algumas regiões como as Baleares e Madrid – vai ao encontro dos desejos dos responsáveis do BCE.

A cúpula do BCE anseia por fusões entre os bancos europeus. Nos circuitos de poder do sector financeiro, existe hoje a convicção de que o problema da banca europeia deve ser combatido com mais consolidação. A convicção em Frankfurt é a de que existe excesso de oferta bancária. Ora, a meu ver, trata-se de uma visão míope e que revela alguma insensibilidade face ao problema mais relevante da actividade bancária: a ameaça existencial ao modelo de negócio tradicional dos bancos, que decorre da vantagem tecnológica dos novos concorrentes e também, cada vez mais, das mudanças comportamentais dos consumidores de serviços financeiros. Sobre estes desafios, a concentração permitirá aos incumbentes alguma poupança de custos, mas é duvidoso que ela venha a ter impacto relevante ao nível dos proveitos.

O papel cartelizante do BCE é tanto mais surpreendente na medida em que é em alguns mercados mais concorrenciais do que o europeu que nos últimos anos se têm encontrado as melhores remunerações accionistas do sector. Não obstante, o BCE está tão preocupado com a consolidação bancária na Europa que até já autorizou a utilização contabilística do chamado “badwill” – uma espécie de “goodwill” negativo – para incentivar as fusões que no sector bancário venham a concretizar-se abaixo do valor contabilístico. Será o caso da fusão entre o Caixabank e o Bankia, que valorizou o Bankia a prémio face à cotação de mercado mas abaixo do seu valor contabilístico. E poderá também acabar por ser o caso noutras fusões que eventualmente venham a acontecer mais perto da sede do BCE. De facto, do ponto de vista administrativo do BCE é preferível supervisionar meia dúzia de bancos em vez de muitos.

O anúncio de fusão entre o Caixabank e o Bankia foi acompanhado de metas operacionais a atingir até 2023. Assim, até 2023 a nova entidade deverá atingir uma redução de custos operacionais de 770 milhões de euros e um aumento dos proveitos de 290 milhões. O foco está claramente no emagrecimento, mas as estratégias de emagrecimento são habitualmente limitadas no âmbito e no tempo. O outro lado da equação, o lado dos proveitos, é mais importante, mas infelizmente é também mais difícil de alcançar. Dadas as dificuldades dos bancos europeus nos últimos anos, a figura da fusão está longe de ser a panaceia contra todos os males. Pelo contrário, pode até resultar em problemas maiores se as sinergias de custos não forem as almejadas.

O modelo de negócio da banca tradicional está ameaçado. Independentemente de alguma recuperação e lucros nos últimos anos, agora ameaçados pela pandemia, o sector encontra-se numa espécie de rampa deslizante. Por um lado, debate-se contra o advento dos bancos digitais – sem qualquer presença física – que naturalmente exibem estruturas de custos mais baixas. Por outro lado, vão surgindo novas experiências bancárias, cada vez mais suportadas em inteligência artificial e aprendizagem cognitiva, que conquistam os consumidores pela ausência de fricção. Os incumbentes tentam adaptar-se, mas trata-se de uma adaptação por analogia, migrando para o online processos que antes eram feitos ao balcão, sem que a cultura organizacional mude verdadeiramente. Assim, boa parte da fricção tende a manter-se.

O futuro da banca está na ausência de fricção e na oferta não estandardizada de serviços. Formulários (mesmo que digitais) e, pior ainda, assinaturas manuais são coisa do passado. A própria lógica de produto já era. Em vez de venderem um produto e apostarem no “cross-selling”, os bancos do futuro oferecerão serviços customizados aos clientes, em tempo real, e de forma aparentemente espontânea – a inteligência artificial tratará disso.

Nos mercados mais dinâmicos, os serviços financeiros estarão suportados em competências, na ciência de dados, e em “marketplaces”. Evoluiremos para o conceito de “embedded banking” de que nos falam alguns especialistas. O serviço bancário estará acoplado e integrado noutros serviços não financeiros. A análise de risco fará uso de dados estruturados e desestruturados, e a execução de operações financeiras passará também a utilizar activos digitais e outras tecnologias como o “blockchain”, tecnologia de voz ou realidade aumentada.

Os bancos tradicionais, incluindo os portugueses, terão de mudar e o tempo para essa mudança esgotar-se-á dentro de poucos anos. Os bancos tradicionais estão cada vez mais pressionados pela cultura “fintech” que os consumidores, sobretudo os mais novos, lhes impõem, tanto no domínio particular como no empresarial. Até as contas bancárias correm o risco de ficarem obsoletas num mundo em que as carteiras digitais (“wallets”) vão sendo o novo normal. Mas tirando a chamada adaptação por analogia, os incumbentes tardam em adaptar-se verdadeiramente. A forma como muitos continuam a processar operações bancárias, desde uma simples abertura de conta, uma revisão de “spread”, um financiamento à tesouraria, ou um financiamento à exportação, evidencia que estamos ainda perante uma banca marcada pela organização burocrática e cheia de fricções. Arriscam ficar fora do “marketplace”.

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