Presidente em Portugal

A mudança de Portugal é também a mudança da Europa que é também o esgotamento do grande projecto democrático.

A política não está bonita. O país afunda-se entre a acusação, o insulto e a calúnia. Pensar a política é hoje um exercício exótico e fútil. As ideias políticas são substituídas pelos sentimentos e pelos ressentimentos. O Presidente da República a eleger será uma criatura que nasce do ódio de uma parte de Portugal relativamente à outra parte de Portugal.

A ideia do Presidente de todos os portugueses significa hoje o projecto político de transformar todos os portugueses que votaram no candidato errado em cidadãos exemplares defensores do Presidente eleito. Depois vem o slogan da supremacia nacional – “Os portugueses primeiro!”. No projecto da supremacia de uma categoria exclusiva de portugueses está o significado político de que existe apenas uma forma correcta de ser português. A tolerância é o valor dos falsos e dos fracos. A tolerância é a permissividade paternalista de uma classe dominante que com o argumento da abertura democrática pretende manter a supremacia social, económica e política. Pode ser apenas pela violência das palavras, mas a democracia portuguesa vive em plena guerra civil.

A guerra civil simbólica vai eleger o símbolo da unidade nacional que é o Presidente da República. O paradoxo da política transformada numa corrente de ódios dirige-se para o Palácio de Belém. Durante anos, o Presidente da República foi o garante do domínio cultural e político da esquerda. Durante anos, o Presidente da República foi o garante da legitimidade democrática da direita. O resultado foi que a esquerda dona do regime definiu primeiro a direita a que os portugueses tinham direito. O resultado depois foi que a direita dona das eleições definiu o novo espaço de uma esquerda em declínio democrático.

As presentes eleições Presidenciais quebram com este equilíbrio constitucional indefinido e que depende quase inteiramente da interpretação da figura do Presidente. Para a direita radical a eleição para Belém é um acertar do relógio político nos ponteiros da ordem e da autoridade. Para a esquerda radical a eleição para Belém é um acto de resistência contra a ofensiva da nova velha agressão fascista. A democracia portuguesa perde o sentido da proporção e do equilíbrio, pois o que conta no país em transição é o excesso e a extravagância. O excesso de quem não tem memória, a extravagância de que não tem medida.

As eleições Presidenciais estão transformadas no processo da nação. Os políticos mudaram e apenas o ódio serve de elo de ligação. O centro-esquerda perdeu o lugar e vagueia à procura de uma função. O centro-direita encontrou um novo lugar mais à direita porque deixou de ter uma parede à direita. O centro-esquerda tem um candidato para um país que começa a não existir. O centro-direita tem um candidato para um país que começa a não existir.

O país mudou em cinquenta anos e ninguém deu pela mudança. Quando o país exige um Presidente interventivo, forte e justo, um Presidente que obrigue o Governo a governar, tal significa que os portugueses deixaram de confiar no Governo e nas coligações formais ou informais no Parlamento. Para os portugueses, o Parlamento é o lugar de um jogo político separado da realidade política. O Parlamento é a negação do bem público. O Parlamento é a subversão da vontade eleitoral para legitimação de uma democracia formal na forma, mas corporativa no conteúdo. A tentação do homem providencial é uma constante na cultura política de uma nação que vê o mundo mudar e avançar, mas que permanece afundada na indigência cívica e submersa pelo atraso económico.

Quando Ventura domina o voto dos portugueses entre os 18 e os 44 anos, Ventura domina na geração que sempre viveu em democracia, domina na geração dos filhos da madrugada, domina na geração que a democracia defraudou nas expectativas. O discurso político pode ter a agressividade de um tiro no peito em direcção ao coração da nação, mas a nação reage e motiva-se no retrato de um Portugal para os portugueses. Quando o Almirante vai capturando votos à esquerda e à direita em todas as gerações, o Almirante está a fazer a agregação dos desiludidos de uma democracia que prometeu o progresso económico e social da Europa e que só consegue oferecer uma caricatura minimalista da Europa. Se Ventura é a violência simbólica do ressentimento contra a democracia, o Almirante é a passividade agressiva contra os partidos e a ideia de que todo o futuro tem o seu passado.

A mudança de Portugal é também a mudança da Europa que é também o esgotamento do grande projecto democrático. A esquerda precisa de ser reinventada. O centro confunde-se com o abismo de um não-lugar. A direita desliza para a reinvenção radical. Tal como nos anos 20 do século XX, ser rebelde é ser de direita. As eleições Presidenciais são a crónica de dois países – O país que perdeu as ilusões e o país que vive na desilusão.

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